terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ao acertar do violino



Quando o violino nos tocar aos ouvidos

A última nota afinada,

Conheceremos todas as outras que lhe seguirão.

Serão tortas.

Guinadas.

Serão agulhas afiadas,

A cantarem-nos o último hino.

Desejaremos que tudo termine,

Nos empurrem por fim para a cova.

Que a terra nos tape os ouvidos,

E nos acabe com o sofrimento.

Que a agonia das notas agudas,

Nos silencie por fim,

A dor,

Dos pensamentos.




[Vou buscar-te. Prometo-te.]



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Sou tão feliz"

Sou tão feliz



Não, acalmem-se, não sou eu que "sou tão feliz", assim de um momento para o outro. Quem dera.
É o Marco Paulo.
Ontem, nas minhas Googlices e Youtubices, de vídeo em vídeo, (comecei pelo "Anita" e sugiro que vejam um menos conhecido "Cá se faz cá se paga") deparei-me com a participação do Marco Paulo no Festival da Canção em 1967. 
Ora, eu nem sabia que o Marco Paulo tinha participado num Festival da Canção (evento que eu tanto, mas tanto, prezava - vejam o tempo verbal), quanto mais em vários, e que aqui tinha apenas 22 anos e... não se façam de sonsos, não me digam que aqui não parecia o Cristiano Ronaldo.

Chaladices à parte, o que me impressionou nisto, para quem já viu o vídeo, é esta brilhante interpretação, é a classe da época e é o ponto de interrogação crescente e inevitável do: "e se?".
E se o Marco Paulo não fosse de cá, e tivesse tido alguém que o conduzisse numa carreira menos romântica e popular e o tivesse encaminhado para uma carreira mais ambiciosa, profissional, glamourosa, internacional? Algo mais classy. Não queria cair na comparação fácil com um Sinatra mas o nosso Marco Paulo bem que podia ter estado lá. Vejam-lhe bem a postura. A voz, nem vamos falar. Ainda hoje há que reconhecer que tem um dom: o de cantar.
Talvez o Marco Paulo tenha feito exactamente o percurso que queria e tenha exactamente a carreira que ambicionada mas, depois de ter visto este momento singular, fico com a sensação que as opções dos 22 anos nos deixam sempre ficar mal e, que se soubéssemos naquela idade o que sabemos aos 62, seria tudo diferente. Mas também aquele brilho nos olhos o seria com certeza, porque já saberia que o que vem a seguir não são só rosas.

No ano de 1967 quem venceu o Festival da Canção foi Eduardo Nascimento com a mítica música "O vento mudou" cujo refrão conheço desde miúda porque, ao que consta, a coisa foi polémica por questões políticas e a minha mãe, de quando em vez, em modo de gozo, cantarolava isto lá por casa. Não é bom, nem é mau, marca uma época. Ninguém sabe que é feito do Eduardo Nascimento, bom cantor, por certo, todos concordamos que não seria, e também não será culpado do Marco Paulo não ter vencido, porque o Marco Paulo ficou lá para o sexto lugar.

Um dia crio aqui a etiqueta só dedicada ao Festival da Canção porque isto tem sumo que nunca mais acaba.
No ano em que nasci ganhou das mais emblemáticas músicas de sempre e, a minha preferida, foi a de Maria Guinot que, apesar de ser um tiro ao lado neste tipo de concursos, é de uma extraordinária beleza.
Quem não se perder com a frase "troco a minha vida por um dia de ilusão..." não anda cá a fazer nada.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Do lado direito bate o coração




O teu coração é que estava certo.
A bater do lado direito.
Os nossos, esquerdinos,
Como todos os outros,
São só mais uns,
Entre tantos.
Iguais entre iguais.
A baterem do lado errado,
Pensando que batem do lado certo.
A viverem de viés,
Numa existência já de si torta.
O teu coração,
Que ousou romper do peito,
Escolher outro caminho,
Sabia que o amor se sentia mais,
Se nascesse do lado improvável.
Sabia que num abraço,
Entre duas pessoas,
Que se amam,
Ou se odeiam,
Um coração do lado direito,
Bate colado ao coração do lado esquerdo.
E há lá poder maior!
Haverá magia maior!?
Sentir dois corações colados,
A bater a compasso,
Ou descompassadamente,
Mas sempre,
Sempre,
Num momento único.
Como tu.
E o teu coração.
Haverá lá maior poder,
Que poder mandar,
No próprio coração?


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

10.10.2016

 

Obrigada Tobias
Por teres feito de mim mãe.

Hoje seria o nosso dia.
Será sempre.




sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O post mais repetido de sempre... que também se podia chamar "Gina Lollobrigida"



Eu, estou farta de ser eu.
Sim, já disse isto tantas e tantas vezes.

[Há dias em que me apetecia ser assim, sei lá, a Gina Lollobrigida. Quando era da minha idade claro. Que era boa p'ra cacete, só lhe olhavam para as mamas e não precisava de dizer pão com queijo porque de qualquer maneira ninguém a estava a ouvir. Não precisavam dela para salvar o mundo e, caso ela própria precisasse de ser salva, aparecia meia-dúzia (ou dúzia e meia) de marujos prontos a ajudar. Labirintos psicológicos imagino que também não os tivesse que aquilo deve ser uma linha recta de cérebro que, valha-nos Deus, até deve dar sono, e não digo isto com desprimor, é mesmo com pena de não sofrer do mesmo mal, porque, neste momento, tudo o que eu mais queria, era ter um cérebro em linha recta em vez de parecer um intestino de um porco vietnamita. Estou cansada. A Gina Lollobrigida por esta altura também estará, mas, com a minha idade não estava. Estava viçosa que nem uma alface. E eu hoje, só queria ser a Gina Lollobrigida. Não para parecer uma alface, que já estou lá perto, mas para estar viçosa e, claro está, para não ter de ser eu. Porque ser eu, meus amigos, ser eu, é pior que ser a cama onde a Gina Lollobrigida deu puns a vida toda depois de comer fois gras com espargos braseados (experimentem que vão ver). E é nestes dias, em que não consigo fugir da minha vida mas dou por mim a evadir-me de mim mesma, que penso nestas coisas e penso noutras ainda mais desconcertantes, como o conhecer uma Gina, uma Lolla e uma Brígida. E o mundo é assim. Divertido. Irónico. Redondo. E eu é que ando sintonizada no canal errado ou menos medicada do que devia.]


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O tempo e a vida




O mais difícil nisto de vivermos juntos

É não ter mais tempo dentro dos dias

Para usufruir de todas as horas contigo




segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O tempo e a cura



Envelheci dez anos.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
A cura de que todos falam.
A pele a contar as histórias que já se sabem.
Aquelas que se falaram nas costas.
E agora se notam pela frente.
É mentira o que nos contam.
O que nos dizem para nos consolar.
Que o tempo cura.
O tempo não cura.
Não cura nem faz esquecer.
O tempo marca.
Marca no rosto e na memória.
Marca na pele.
Nos cabelos que se acinzentam.
Nos olhos que se embaçam.
Marca-nos na relação com os outros.
Connosco.
Com o nosso passado.
O tempo, o que passou, trama-nos aquele que lhe há-de dar lugar.
Agoira o lugar das histórias que hão-de vir.
O tempo não cura o que não tem cura.
O tempo é apenas tempo.
E tempo só anda em frente.
A fazer-nos envelhecer.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
Envelhecer-nos.
E é na velhice que está a cura, não no tempo.
Porque só a velhice pode dar-nos a sabedoria para o saber aceitar.