sexta-feira, 29 de maio de 2015

domingo, 17 de maio de 2015

Sobre o futebol e o dia de hoje...




Sobre o dia de hoje,
Sobre as festividades,
E buzinões,
Sobre a alegria de um povo,
A euforia,
A celebração,
Sobre a emoção de vencer,
Sobre a esmagadora,
E avassaladora,
Excitação,
De ganhar.
Lembrei-me hoje,
Tantas,
E tantas vezes que,
Neste mundo de vitórias,
Neste mundo de audazes,
Neste mundo de glórias,
Neste mundo de vencedores
...


Sou do Sporting.




terça-feira, 12 de maio de 2015

Onde mora a arte?


Wolfgang Beltracchi

Wolfgang Beltracchi é um falsificador de arte. O maior de todos eles.


Wolfgang é odiado por meio-mundo, que o considera um impostor e um mentiroso que se aproveitou das suas capacidades persuasivas e da sua inquestionável habilidade artística para enriquecer e enganar profissionais da arte.
Porém, para a outra metade do mundo, Wolfgang é muito mais que isso, aliás, será tudo menos isso. Para metade do mundo ele é um artista. É, ele próprio, o maior de todos os artistas.


Wolfgang não se limitou a "copiar" quadros de pintores consagrados e intocáveis, ele foi mais além e criou novos quadros recorrendo às técnicas e estéticas desses pintores, fazendo-os aparecer no mercado como se se tratassem de novas descobertas, levando-as a leilão e fazendo-as render, nalguns casos, milhões de dólares. Ainda hoje se desconhece onde param algumas delas, acreditando-se que algumas figurarão em museus sendo apreciadas por visitantes e especialistas como sendo genuínas.
Reza a história que, inclusivamente, a viúva de Max Ernest ao olhar para um dos quadros, supostamente, de autoria do seu marido, mas na realidade pintado por Wolfgang, comentou tratar-se "da mais bela floresta de sempre" pintada pelo seu marido.
O facto de ter sido, afinal, outra pessoa não conceituada no mundo artístico - até então - altera a qualidade da obra?
É disso que se trata, de um nome?


Este Dartagnan da pintura encerra sobre ele o maior dos mistérios da arte, e volta a fazer-nos lembrar qual a maior das interrogações que temos ainda hoje sobre ela: o que é, afinal, a arte?
Onde mora a arte?
Quem faz arte e quem a pode fazer?
Isso de fazer arte está na formação académica, nas ideias, na conceção, na técnica, no conhecimento, na inteligência, na divindade, na genialidade, na exclusividade, no nome ou no preço?
Bem, na verdade, a arte levanta-nos muitas mais questões.


Wolfgang, após uns tempos a cumprir pena pelo seu crime, regressa agora em nome próprio, com o seu rosto, e vontade de não voltar a fazer o mesmo erro: assinar com o nome de outros.
Porque no fundo foi disso que se tratou. Ninguém pintou, nem criou, nem se entregou às pinturas que não ele mas, no momento de escrever o nome, colocou o de outro. Foi ele que as fez, portanto, será justo que o mesmo as assine e não espere reconhecimento por via de outros. Wolfgang terá aprendido a lição e inaugurou uma exposição em nome próprio, sem máscaras.


Não conheço desafio maior que o do ilusionismo e este homem deu-nos a ilusão em que todos queremos acreditar: que um nome qualifica uma obra.
Sem falsos moralismos, quantos de nós saberão, verdadeiramente apreciar um quadro de Heinrich Campendonk? E quantos dos colecionadores não compram apenas por investimento ou por capricho?
Wolfgang veio dar um duro golpe neste estereotipo e nas verdades absolutas. Iludiu-nos e foi punido porque nos sentimos enganados.

No entanto, quanto a mim, para além de ser habilidoso com as mentiras (ou meias-verdades), Wolfgang escreveu a maior lição de moral da história de arte contemporânea, sem o saber. Deu a muitos artistas, estabelecidos ou wannabes, o maior exercício de humildade que pode haver e cumpriu a maior pena de cadeia que um artista pode cumprir: assinar com o nome de outro. Dar o mérito da sua obra a outro. Durante todos estes anos ele fez o maior exercício de contenção de ego e de humildade de que há história no meio artístico.



Agora a história da carochinha:

Wolfgang conseguiu esta proeza de falsificar e vender obras de arte como sendo de artistas consagrados e valiosos no mercado da arte, com a ajuda de uma cúmplice.
Helen, a sua mulher, que tem ar de quem não come torradas com galão de manhã, foi a parceira, no verdadeiro sentido da palavra, que a sua vida precisava.
Helen, serviu de veículo que legitimava a história do aparecimento dos quadros. Supostamente, uma avó de Helen teria deixado uma vasta coleção de obras de arte que, agora, esta e o seu honrado marido Wolfgang Beltracchi, faziam o favor de devolver ao público ou a colecionadores privados através de leilões milionários. E assim se justificava o aparecimento de tantos quadros novos de autores conhecidos.
Um esquema simples.
Para ajudar a compor a história, Helen disfarçou-se de sua avó junto de uma série de quadros, e mostrava-a como sendo um fotografia original, quando na verdade não passava de uma encenação, manipulada posteriormente em laboratório. Ou não fossem ambos os maiores embusteiros de sempre.
E aqui está ela, esta mulher apaixonada por um louco, também ela, certamente louca.
E eu vejo nisto tudo uma história incrível e sem paralelo neste mundo já tão pouco sonhador.
Quanto ao próprio Wolfgang, homem, esse caçador, esse ilusionista, resta-me notar que poucas vezes a humanidade viu uma figura assim. Brilhante, genial, ardiloso, escorregadio mas cheio de charme e com uma história de amor, daquelas verdadeiras, para contar.
Não há como não adorar Wolfgang Beltracchi.







sábado, 9 de maio de 2015

Do amor e do abandono




E se eu virar as costas à vida, será que ela me perseguirá?




Do amor e do medo



Fosse o amor uma estrada e nem uma recta encontraríamos.
Nunca caminharíamos em frente.
Nunca veríamos o princípio e o fim.
Apenas um poço.
Profundo.
Uma espiral em direcção ao centro do mundo.
Um fosso.
Um caminho para a escuridão em curvas constantes.
Uma viagem para o desconhecido.
Através do ponto mais profundo em nós.
Através da nossa mente.
De um coração.
Se o amor tivesse um caminho até ele todos o conheceríamos.
Não andaríamos por becos.
Por caminhos apertados.
A sentir tremor nas mãos.
E medo nos pensamentos.
Não seríamos inseguros.
Não temeríamos o desconhecido.
Não teríamos medo de nós.
Do outro.
Dessa estrada que nos une.
Não teríamos medo de caminhar nessa estrada sem fim.
Nem medo de chocar no outro quando houvesse escuridão.
A escuridão não seria inimiga.
Seria uma luz.
Aquela que se acende quando queremos ver onde estamos.
Aquela que acendemos para espantar o medo.
Se o amor fosse uma estrada segura porque havia eu de ter medo de fazer o caminho às escuras?



Do amor e da tristeza



Queria escrever sem chorar.
Mesmo que o sentimento estivesse colado à boca.
Queria saber o que é isto do amor.
O que nos faz ele à vida.
Porque nos acalenta tantas vezes o choro.
E se esquece tantas vezes das mágoas.
Queria saber falar deste amor.
Sem o eterno aperto.
Sem isto que dizem ser emoções.
Mas que são dor.
Queria tanto.
Queria sentir, pensar e dizer que não é isto.
Sofrer e chorar.
Chorar e cair.
Erguer e repetir tudo de novo.
Que só pode ser.
Que eu só quero que seja.
Mesmo nos momentos de abismo.
Mesmo quando se endurece a luta.
Queria dizer que é isto o amor.
Ser-se vencido pelo mundo e pela vida.
Cair.
Erguer.
Voltar a cair.
E sorrir.
Continuar sorrindo.
E nunca chorar.
Porque o mundo não o pode saber.



domingo, 3 de maio de 2015

Repetições # 7

Eu disse que voltava...

Não posso deixar de recordar uma mulher, que foi mãe de muitas maneiras.

Porque às vezes tendemos a esquecer que mesmo depois de velhas, as mães nunca deixam de o ser, relembro este Às velhas mulheres mães.






Deu de mamar a seis. Cinco eram seus e a outra, uma menina, era filha de uma vizinha que, tinha o destino traçado, era também sua cunhada. A coitada era seca e nunca havia de deitar uma gota para alimentar a sua cria. Quando se apercebeu de tal infortúnio ficou desorientada. Foi então que, não por se lembrar genialmente de uma solução, mas por outras mulheres o terem feito, foi pedir à vizinha e cunhada, acabada de parir o primeiro dos cinco filhos que havia de ter, para amamentar também a sua querida filha, não fosse o Santo não ter piedade e levá-la desta para melhor. A vizinha, adocicada pela maternidade que acabara de experimentar, nem proferiu palavras. Estendeu os braços, pedindo a criança ao seu colo, e mostrou-lhe o caminho dos seus peitos fartos. A criança mamou sôfrega. Saciou-se. A mãe agradeceu e haveria de voltar nos próximos cem dias à hora da fome.
A mulher que amamentava, coração raro de bondade como havia de mostrar o resto da vida, pariu os restantes quatro filhos e deu-lhes de mamar até perder a forma dos peitos. Deu-lhes alimento à boca e deu-lhes tudo o que pode, numa época de miséria onde o tudo não passava de gestos de carinho e de palavras por não haver tostão para nada. Acompanhou-lhes o crescimento, encaminhado-os nos percursos mais ou menos difíceis; ensinou-lhes o que era uma família e os seus valores e quis que soubessem o que era o amor aos filhos, que também acabariam por ter. Depois dos sete filhos dos seus filhos, vieram mais seis netos destes, que juntando aos genros e noras e netos e netas por afinidade, formariam a família enorme pela qual sempre se entregou. Pela qual sempre se esqueceu de si mesma. Eram mais de vinte aqueles que descenderam do seu sangue. 
Quase no fim da sua vida continuava a contá-los a dedo para ter a certeza da prole que tinha alimentado e para se poder orgulhar dela. Mas os dias minguavam e as visitas à velha mulher também. Já não conseguia contá-los porque os seus descendentes já não se cruzavam na sua vida. Dias houve em que apenas os da casa estavam presentes para se recordar que tudo começara nela. E um dia, quando já não haviam mais dias para subtrair... o mundo acabou para uns... mas havia de continuar, sem sobressaltos, para muitos dos outros.
E nesse dia, em que o chão se abriu para a receber, uma mulher chorou copiosamente a sua despedida. Essa mulher, também já velha e de família criada, nunca esqueceu que a sua vida começou no peito daquela mulher generosa. A mãe de sangue lembrou-a sempre que a sua vida só o era graças à generosidade terna da sua mãe de leite. Essa mulher, que a sua mãe de leite homenageou no nome que deu à sua última filha, não esteve presente nos momentos fáceis da sua vida. Preferiu deixar esses para os filhos de sangue. Mas esteve sempre presente nos últimos momentos da sua vida, como essa sua mãe esteve presente nos seus primeiros. Cumpriu-se um ciclo. Esse ciclo que os seus filhos ingratos ainda não compreenderam e que tanta agrura trás aos poucos que compreendem. E apesar de os saber há muito autistas das suas emoções, hoje só doeu mais constatar isso. 

Porque hoje, essa brava mulher merecia ter sido recordada como mãe, recordo-a aqui também como uma querida avó.



Repetições # 6

Hoje é dia da etiqueta "Repetições".

Há três anos, precisamente no dia 3 de Maio, escrevi este texto.

Nessa altura andava numa de escrever histórias, coisa que há algum tempo que não me dá para fazer.
Talvez por essa razão, hoje soube-me bem voltar atrás e ver como andava este blog há três anos... tão diferente.
Vale o que vale, mas acho que vale uma repetição.

(Hoje ainda volto com outra repetição, dedicada às mães e a este seu dia, claro).






*
Saía todas as noites, sob as luzes imensas de Banguecoque, sabendo-se escondido pela multidão frenética. Era invisível, como todos os rostos com quem se cruzava. Sentia-se confiante a cada passo acelerado que dava de mãos nos bolsos, numa passada larga e curvada sobre a própria coluna, no belo fato que o divinizava.
A rotina estava instalada. Conhecia as ruas que lhe interessavam. As caves e fossos que escondem autênticas cidades subterrâneas. As condutas que foram sendo ocupadas com habitações miseráveis e lamacentas. E conhecia também a superfície dos luxos e da opulência. Conhecia as duas faces, mas apenas uma lhe interessava.
Quando saía para matar, e para dar vida à sua paixão inflamada, calcorreava a zona nobre da cidade. Movimentava-se bem nela. Conhecia as mulheres mais bonitas, mais ricas e com origem nas famílias mais influentes. Bem-falante e de pose aristocrática, captava-lhes a atenção de imediato.
Caídas na sua rede, golpeava-lhes a garganta sem esforço.
Sem lamentações ou hesitação. Sem amor nem paixão. Sem corpos impregnados de desejo ou imundos por conspurcações viscosas. Queria os melhores corpos. Limpos. Perfeitos. Sem cortes ou marcas. Cicatrizes ou tatuagens. Escolhia as suas vítimas a dedo. Era rigoroso, porque o era em tudo na sua vida. Nas suas paixões não poderia ser diferente. E por isso, apenas as mais belas e tenras mulheres da alta sociedade, tinham o prazer de findar-se às suas mãos. Pelo menos, ele assim o pensava.

*
Todos os dias pela manhã abandonava o exclusivo condomínio onde vivia. Não concebia partilhar-se com ninguém e não suportava a ideia de o seu luxuoso apartamento ser respirado por quem fosse. Gostava da vida garbosa que levava no silêncio das suas paredes de vidro, sozinho, controlando totalmente todas as partículas da sua atmosfera. Altivo e de porte hirto e elegante, acabava a viver os prazeres da vida apenas quando se vergava à realidade lá fora. A sua vida apenas acontecia lá fora. As suas paixões também. Entregava-se a elas todos os dias. Todas as noites.
De manhã, quando saía cedo de casa, devotava-se a uma das suas razões para respirar.
Ser chef no mais luxuoso hotel de Banguecoque atribuíra-lhe estatuto e luxuria mas devolvera-lhe, sobretudo, a vontade de viver apaixonado. A sua cozinha era a sua vida.
Por não conceber que alguém interferisse nela, controlava o processo do início ao fim. Elaborava a ementa, selecionava os vinhos, tratava da decoração das mesas, fazia as compras dos alimentos e escolhia as carnes.

*
Todos os dias, e todas as noites entregava-se às suas paixões. As noites completavam os dias, e para que esses dias fossem perfeitos, tinha de caçar todas as noites.
Seleccionava criteriosamente a carne que queria servir no restaurante do hotel no dia seguinte. Matava apenas os corpos que sabia terem a melhor carne. Provava-lhes o sabor. Degustava-as. Analisava a sua excelência. Era sabido que apenas as melhores teriam o privilégio de seguir até os pratos dos clientes mais exigentes e inacessíveis do planeta.
A carne que todos os dias fazia questão de selecionar com as suas próprias mãos para confeccionar magicamente, era, reconhecidamente, a melhor de toda a Banguecoque.
Houve pais que, sem saberem, comeram as suas filhas. Houve mães que sem suspeitar cuspiram-nas no prato.