quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O filho de P.




O filho de P. não gostava nada do nome da mãe.
Raramente se via uma criança ter uma opinião tão vincada sobre o nome dos progenitores mas o pequeno P. sabia bem o que o desagradava. É que o nome da sua mãe mais lhe parecia escrito na testa, de tão óbvio que era. A sua mãe parecia ter um grande "P" escrito na fronte e não era só ele que o via mas, também, todos os outros meninos e todos os pais desses meninos. Alguns pais até gostavam, o que lhe era muito desagradável.
Na sua escola havia um menino que também não gostava do nome da mãe mas não era gozado pelos outros. Era só um desconforto dele: não gostava que a mãe se chamasse Gertrudes. Um dia  até perguntou à mãe se quando ela nasceu já se chamava Gertrudes, tal era o peso do nome. Achava que só as mulheres velhas poderiam ter um nome daqueles. Mas este menino não era gozado pelos outros porque, mesmo que tivesse Gertrudes escrito na testa, ninguém se iria apoquentar. Era só um nome muito feio.
No entanto, o pequeno P., pouco confortado pelo desgosto do outro rapaz, continuava a levantar-se todos os dias a desejar que o nome da sua mãe fosse antes Gertrudes, e que tudo não passasse de um sonho terrível. Mas, mal pousava os pés no chão, desempenava um olho e depois o outro, e abria os ouvidos para o mundo, começava a ouvir os sons da casa e era logo confrontado com a realidade. A sua mãe tinha mesmo aquele nome. Ah, quão P. poderia mais ser sua mãe? Que desgosto! Que desgosto!!!
E todos os dias, e mais dias que passassem, na esperança que um dia a mãe se chamasse Gertrudes, ou Efigénia, ou Geraldina, qualquer coisa menos P., ele pedia a todos os santos, todos os dias a caminho da escola, para que um dia os seus colegas escarneassem bem alto: "FILHO DE UMA GRANDE GERTRUDES!!!!!. Ele não se iria importar.
Mas não.
Acabava e começava sempre os dias na escola a ouvir as mesmas crueldades dos seus colegas: "FILHO DE UMA GRANDE P.!!!!!
E o pior é que era mesmo verdade.
A sua mãe P. era mesmo muito grande. Muito, muito, grande. Era tão alta que, por vezes, nem se via a cabeça. Só se via o seu grande "P" ao peito. Um pendente que usava com orgulho. Dizia que tinha sido a sua mãezinha que lhe tinha deixado. "Grande presente para se deixar a uma filha", pensava o pequeno P., já a adivinhar a sua sorte, "quantos mais P.'s terei eu de herdar?"
Estava cansado de se debater e não encontrar um solução para acabar com tamanha agonia. Precisava de uma solução urgente.
E um dia, o pequeno P., lá parou para pensar.
Sabia que o nome da mãe nunca iria mudar, imaginava que a vida deles também não, já tinha percebido que há muito que estava condenado a ser conhecido como o filho de P., e pensou, seriamente, nas virtudes da mãe e não nos defeitos. Então, contra o quê estava a lutar? Contra a mãe? Contra os outros? Ou contra si?
Um dia, o pequeno P., lá parou de pensar e concluiu:
A única coisa que sempre esteve errada na sua vida, era a sua mãe não se chamar Gertrudes.




3 comentários:

  1. Certamente o P era bem grande devido a ela ser uma grande Progenitora, coisas que hoje em dia andam em falta, quanta Ps andam por aí a dar tudo pelos filhos.

    beijo

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  2. É uma homenagem às P.'s, portanto, e aos filhos que lhes descobrem o valor.

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  3. Adorei o texto... putas ou não, há mulheres que são umas grandes mães! ;))))))

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