sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Being John Malkovich?





Por estes dias todos estamos apaixonados pelo Malkovich, eu sei, eu sei.
Vamos todos dizer que afinal esta paixão era antiga e que não, não seguimos a carneirada, e que não, não foi uma surpresa este Malkovich reinventar-se. Também não seremos, certamente, influenciados pelos vídeos que recentemente começaram a circular na net e na comunicação social, onde Malkovich fala de Lisboa. Onde, apenas, fala de Lisboa. Não se enamora, não enaltece, não expecionaliza Lisboa. Só fala de Lisboa. Nós, vaidosos, é que abrilhantamos um vídeo de um homem, um actor americano (e isto é importante. Gostava de saber o impacto se fosse turco, indiano ou até mesmo português) que fala sobre uma cidade onde está a ser entrevistado e que, naturalmente, por cortesia, não iria fazer outra coisa que não fosse falar bem. Também é sabido pelo público que não se trata de um homem de emoções frondosas e, portanto, poderia estar apenas a ser contido, como sempre costuma ser. Em todo o caso não vi nada de apaixonado entre o homem e a cidade naquela entrevista. Apesar de achar ambos alvos óbvios e evidentes de amores de perdição, onde me incluo.
Mas adiante.

Malkovich aparece, entretanto, nesta sessão fotográfica de Sandro Miller onde protagoniza retratos icónicos e, em muitos casos, deixa-nos com pele de galinha. É o cérebro a enviar-nos a mensagem. De facto, ao olhar para o Hitchcock, fotografia que por alguma razão mais me impressionou, percebo a euforia: é um trabalho muito bem feito. Estão a dizer-nos que, o que (ou quem) estava aqui mas já não está, pode regressar quase num passe de mágica. Apenas temos de reproduzir a imagem, estática, em alguém, vivo. Ora, esta possibilidade, aos olhos da efemeridade do ser humano, transmite-nos uma ideia fortíssima: a da imortalidade. E da morte da saudade. O fim da saudade. E, afinal, se pudéssemos reproduzir todos aqueles que já partiram, que sentido daríamos à saudade?
Pois esta sessão fotográfica põe em causa muitos conceitos pré-estabelecidos na nossa mente e sobre os quais não nos debruçamos ou tentamos entender. Não são apenas réplicas inócuas, são exercícios mentais e testes de compreensão do universo e do sentido da vida. Do ciclo natural da vida.

Por outro lado, e por razões diferentes, senti uma comunhão especial com a fotografia das gémeas. Porquê? Porque a original de Diane Arbus já tinha esbarrado comigo aqui no Dias Cães para ilustrar um momento poético de Gonçalo M. Tavarese eu estava longe de saber da popularidade desta fotografia até hoje. "Afinal, gosto do mesmo que toda a gente" - foi a conclusão que me assomou. E depois precisei procurar mais sobre o assunto. Quem era a Diane, quem eram as gémeas, quem é o John Malkovich (acham mesmo que sabemos tudo?), quem é o Sandro Miller?
E a mais interessante descoberta chegou sobre as gémeas. Encontrei uma fotografia dos tempos de hoje. E isto mudou tudo.
Pensei: "Que importância tem chamar a poesia ao barulho, se a poesia acontece aqui mesmo, aos olhos de todos?"
Pois reparem como as gémeas, elas próprias, estão tão diferentes. Em como os olhos foram a única coisa que lhes restou. E reparem como a única coisa que o Malkovich transporta, de fotografia em fotografia, são também os olhos.
Ou seja, não precisávamos do Malkovich para estas transformações, porque elas se podem dar na própria pessoa. Através da própria pessoa. As gémeas, fossem elas actrizes, poder-se-iam ter submetido àquele extraordinário trabalho de caracterização e voltarem a ser elas próprias na infância. Mas se nem elas próprias já se parecem com elas, que sentido faz voltar a fazê-las parecer?
E que sentido faz, fazer reviver as crianças que já não o são, num homem que nunca o foi?
E eis que a morte e a saudade ganham aqui outra dimensão. Não podemos sentir saudade de morte, por alguém que nem morreu, mas sentimos, certamente, saudade do que já fomos, das crianças que nos contaram termos sido, ou das crianças que nos lembramos que os outros foram. Sentimos saudade do que já foi e já não volta. Independentemente dos personagens, dos protagonistas, sentimos saudade da saudade que iremos sentir quando nos apercebermos da perda.

E as duvidas irão, assim, acumular-se e persistir.
Afinal, o Malkovich vestiu a imagem das gémeas da fotografia de Diane Arbus, ou as personagens que ambas representavam?
Se se trata de uma representação da representação, onde fica a realidade? Nele, nas gémeas crianças, ou nas gémeas adultas?
Se tanto as gémeas adultas como Malkovich encarnaram as mesmas personagens das gémeas crianças, porque sentimos que a encenação das gémeas adultas traz mais verdade que a encenação de Malkovich?
Interessará a verdade quando falamos de arte, quando sabemos que tudo não passa de uma encenação?

Confuso?




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