domingo, 21 de setembro de 2014

Anónima






O que te fez voltar agora, sua ingrata?
Que forças foram essas que te empurraram do sítio onde estás para este sítio onde estamos todos?
Terás perguntado a ti própria se te queríamos de volta?
Se nos fazias falta?
Claro que não.
Julgas-te imprescindível na vida de todos nós, salvadora do mundo.
Não o és.
Terás, porventura, reparado que continuámos todos a viver sem ti?
Que o mundo continuou a girar mesmo sem estares aqui?
Um dia houve em que a respiração se suspendeu de desgosto mas, logo depois, as vidas seguiram. 
Tínhamos todos de seguir.

Responde-me:
O que te fez voltar agora, sua ingrata?
A vaidade?
Tinhas saudades de ver alimentada a tua vaidade?
Que todos se vergassem em teu redor, te fizessem vénias à retórica arrogante?
Era isso?
Sentiste falta do nosso amor, mesmo que invisível, por ser o único que ainda te restava nesta vida?
E quando foi que isso aconteceu?
Num dia de chuva, acompanhada pela solidão de uma banheira cheia de água, enquanto ouvias os cães a ladrar na noite?
Quando caíste em ti e percebeste, finalmente, o quão sozinha estavas?

Não se regressa a casa de braços abertos à espera que os outros também o estejam.
Não se pode voltar cheia de alegria no peito quando os outros ainda limpam a devastação.
Não se pode abrir com um sorriso a mesma porta que se fechou com amargura, quando alguém ficou lá dentro.
Quem ficou trancado guardou a imagem da chuva que caía lá fora.
Como se pode depois chegar, abrir a porta, e anunciar que nunca o sol deixou de se iluminar?
Quem acreditará em tal coisa?
E se acreditar, como poderá não cobrar no minuto seguinte uma clausura que não merecia?

A tua alegria não é a nossa.
Não vês que há partidas que se dão por um tempo tão infinito, que já não se espera que alguém possa de lá voltar?





2 comentários:

  1. Um dia, um dia, vou poder dizer isso a uma certa pessoa. Hoje não é o dia. Mas ele vai chegar, ò se vai!

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  2. Ao ler este texto, como se entende bem o nome do blogue. Como deve doer viver na pele de quem o escreve.

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