quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Amores literários, quem os não tem?

(Deve ser a melhor foto de sempre... por tudo... ha ha ha...)



Apaixono-me muitas vezes pelos homens que leio. Admito, no entanto, que sejam mais as vezes que não simpatizo ou empatizo com um homem pelo que escreve (há coisas muito más por aí, não há?) do que aquelas pelas quais me perco de amores. É engraçado constatar como também há sexualidade e distinção de géneros nesta coisa da literatura, porque, pelas mulheres que leio sinto apenas uma imensa admiração e de algumas nem tanto. Pensando bem talvez a Florbela me tenha feito revirar os olhinhos. Ou, pensando ainda melhor, talvez a culpa seja mesmo minha e nem dê hipótese às mulheres. Tenho de rever estes preconceitos.

Mas acerca de me perder de amores pelos homens que leio. E apenas sobre eles:
No início vieram os amantes do costume: Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Tentei o Almada Negreiros mas não me senti correspondida. Talvez com a idade me venha a render. Todos sabemos que existem pessoas certas mas nas alturas erradas. Pode bem ser o caso.
Aconteceu-me também, há muitos e longos anos, ter-me apaixonado pelo Paulo Coelho. Mas prefiro não falar disso. Todos temos um amor que anos mais tarde recalcamos, neste caso por razões que me parecem óbvias. 
Depois, iluminadamente, descobri Kafka, e Sartre, e Daudet, e Italo Calvino, e Wilde. Anos a devorá-los a todos aos mesmo tempo. Confuso, muito confuso. Daqueles amores coletivos que quanto mais dúvidas nos levantam mais nos viciamos neles. Também me embeicei pelo Rimbaud, porque me parecia precisar de colo. Mas o amor maior de todos, ainda hoje intenso e carnal, encontrei nas lamurias de Sartre. Ainda conheci o Al Berto mas achei-o demasiado grande para mim. Grande, de grandioso. Não estava preparada para uma relação de tamanha maturidade. Mas penso nele como o amante de meia-idade, de ar sisudo, que se esconde dos pais, mas que não pára de nos assombrar os pensamentos. Aquele com quem desejamos passar noites inteiras num hotel, onde se esqueceram de pagar a conta da luz. Um dia, sei, voltarei a Al Berto, como uma mulher frágil que procura o calor de um homem vivido.

Entre os meus vinte e os meus trinta anos dormi com muito lixo e nunca me apaixonei. Nos livros como na vida.

Com a chegada dos trinta anos (a melhor década para amar, dizem), tive um pequeno arremesso de coração pelo José Saramago. Mas já era tarde. Para mim e para ele, que já estava morto há um tempo. E eu lá acabei por controlar as palpitações e agora revisito pontualmente a sua escrita, como uma namorada que relê as cartas de um amor já terminado. 
Entretanto, tinha uma declaração (quase amorosa) escrita à um ror de tempo para fazer ao Manuel António Pina, mas comecei a ver muito mulherio a fazer o mesmo e retraí-me. Faz muitas viagens de comboio comigo, temos relações rápidas e fugazes, por vezes de um só dia, mas eu fico sempre plenamente satisfeita com o que ele me dá. Cumpre. Por mim está bom.

E eis que... e agora é que começa o verdadeiro caso de amor, de perdição diria até: aquela paixão que andava a adiar.
Eu sei, eu sei, venho uns quinze anos atrasada.
"Mas só agora é que te apaixonaste por ele?"
Sim, só agora.
Porque, à semelhança do que se passava nos meus tempos de liceu, eu não queria seguir a carneirada e ter uma paixoneta pelo rapaz mais giro e a quem todas as mocinhas arrastavam um par de asas. Eu mantinha-me fria e inflexível por fora, mas secretamente perdida de amores por dentro. Mas carneirada é que nunca! Aliás, sinto-me ridícula hoje, como sentia naquela época, por parecer que não tenho opinião própria e por chegar à constatação que, afinal, gosto do que todas as outras gostam. Mas eu andei em negação ao inegável. Um amor que já se adivinhava inevitável há muitos anos, e eu sabia disso.

Sim, é esse mesmo, houve o dia na minha vida em que me apaixonei pelo Miguel Esteves Cardoso (eu sei, pensavam que eu ia dizer Paulo Portas). Assim mesmo, depois de já todos os outros quinhentos mil milhões de mulheres se terem apaixonado. Fui a última a chegar. E então? E então vai-se passar o mesmo que no liceu: nada.

O Miguel Esteves Cardoso deve ser o homem mais feio que me lembro de ver. Também não creio que a idade lhe tenha feito bem, pelo contrário, mas pelo menos arranjou-lhe a desculpa que durante anos não teve.
No entanto (e tinha de haver um mas), é incrivelmente interessante por dentro. Ou naquilo que tem por dentro que deita publicamente cá para fora. É caso para dizer que, na modernidade dos tempos que correm, se safaria lindamente nas redes sociais de engate, em que não há fotografias de caras (ou, pelo menos, não das terrivelmente verdadeiras) e onde as pessoas têm oportunidade de mostrar tudo o que valem apenas pelo que escrevem. Verdade, pode haver pouca paciência para tamanha erudição e virtuosismo num ambiente tão, digamos, pragmático, mas, certamente, colheria o interesse de muitas almas.
Provavelmente, e já que assumi a minha mundanidade literária, à semelhança de todas as outras mulheres e homens, eu também não consigo dizer concretamente o que me apaixona no Miguel Esteves Cardoso. Será o sentido de humor? A visão do mundo? A escrita irrepreensível? A criatividade? A genica? A sua comum mortalidade?
Pode ser tudo. Podem ser todas estas coisas juntas e mais aquelas que não se vêem mas, tenho para mim, que se ele fosse um homem bonito eu não me apaixonaria tanto.
Como diria um amigo meu, ser-se feio, arrogante e burro é contra-natura porque contraria todos os instintos de sobrevivência. Um feio precisa, necessariamente, de ser amoroso ou inteligente. Creio que o contrário também será verdade. Se o Miguel Esteves Cardoso fosse bonito, afável e inteligente, dispararia um alarme de perigo, porque sabemos, instintivamente, que não existem homens assim.

Por tudo isto, meu caro Miguel Esteves Cardoso, acho que descobri porque é que, realmente, te amo.
Porque és um feio que escreve bonito.
E disso, já não há.



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