26.9.14

Post Mortem (Áudio)



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Post Mortem

Lembro-me, estranhamente, do teu cheiro.
Uma mistura de madeiras quente e doce, com tabaco e Whisky.
Parecias trazer sempre o Verão.
Cheiravas bem.
Lembro-me da tua camisa rosa, de mangas arregaçadas.
Sempre engomada.
Denunciava o brio das mãos de uma empregada devota.
Lembro-me do teu cabelo. Claro que sim.
Todas as pessoas te conheciam o cabelo.
Ruivo, como as tuas sardas.
Temperamental, como o teu feitio.
Lembro-me do teu riso engraçado.
Cheio de humor inteligente.
Cheio de alegria.
Assim julgava eu.
Lembro-me de seres um homem maior que tu mesmo.
Megalómano. Inesquecível. Gigante.
Lembro-me do teu à vontade.
Dos teus cumprimentos honestos.
De como me juntavas dois beijos à face como se eu fosse uma filha.
Lembro-me do teu nome. Completo.
Da tua assinatura.
E de como ela deixou de se reproduzir.
De como o quiseste apagar.
Dessa maneira tão triste e fatal.
Tão definitiva e dramática.
Lembro-me das últimas palavras que me disseste.
Sem que soubesse que seriam as últimas.
Lembro-me da manhã seguinte.
Das palavras atropeladas.
Lembro-me de me perguntarem se eu já sabia.
Se eu já sabia que tinhas ditado o teu fim.
E não, eu não sabia.
Nem sequer esperava.

O que me lembro, muito bem,
Muito tempo antes dessa decisão,
É que os teus olhos tristes,
Há muito,
gritavam:

Solidão.




Publicação original aqui!



Being John Malkovich?





Por estes dias todos estamos apaixonados pelo Malkovich, eu sei, eu sei.
Vamos todos dizer que afinal esta paixão era antiga e que não, não seguimos a carneirada, e que não, não foi uma surpresa este Malkovich reinventar-se. Também não seremos, certamente, influenciados pelos vídeos que recentemente começaram a circular na net e na comunicação social, onde Malkovich fala de Lisboa. Onde, apenas, fala de Lisboa. Não se enamora, não enaltece, não expecionaliza Lisboa. Só fala de Lisboa. Nós, vaidosos, é que abrilhantamos um vídeo de um homem, um actor americano (e isto é importante. Gostava de saber o impacto se fosse turco, indiano ou até mesmo português) que fala sobre uma cidade onde está a ser entrevistado e que, naturalmente, por cortesia, não iria fazer outra coisa que não fosse falar bem. Também é sabido pelo público que não se trata de um homem de emoções frondosas e, portanto, poderia estar apenas a ser contido, como sempre costuma ser. Em todo o caso não vi nada de apaixonado entre o homem e a cidade naquela entrevista. Apesar de achar ambos alvos óbvios e evidentes de amores de perdição, onde me incluo.
Mas adiante.

Malkovich aparece, entretanto, nesta sessão fotográfica de Sandro Miller onde protagoniza retratos icónicos e, em muitos casos, deixa-nos com pele de galinha. É o cérebro a enviar-nos a mensagem. De facto, ao olhar para o Hitchcock, fotografia que por alguma razão mais me impressionou, percebo a euforia: é um trabalho muito bem feito. Estão a dizer-nos que, o que (ou quem) estava aqui mas já não está, pode regressar quase num passe de mágica. Apenas temos de reproduzir a imagem, estática, em alguém, vivo. Ora, esta possibilidade, aos olhos da efemeridade do ser humano, transmite-nos uma ideia fortíssima: a da imortalidade. E da morte da saudade. O fim da saudade. E, afinal, se pudéssemos reproduzir todos aqueles que já partiram, que sentido daríamos à saudade?
Pois esta sessão fotográfica põe em causa muitos conceitos pré-estabelecidos na nossa mente e sobre os quais não nos debruçamos ou tentamos entender. Não são apenas réplicas inócuas, são exercícios mentais e testes de compreensão do universo e do sentido da vida. Do ciclo natural da vida.

Por outro lado, e por razões diferentes, senti uma comunhão especial com a fotografia das gémeas. Porquê? Porque a original de Diane Arbus já tinha esbarrado comigo aqui no Dias Cães para ilustrar um momento poético de Gonçalo M. Tavarese eu estava longe de saber da popularidade desta fotografia até hoje. "Afinal, gosto do mesmo que toda a gente" - foi a conclusão que me assomou. E depois precisei procurar mais sobre o assunto. Quem era a Diane, quem eram as gémeas, quem é o John Malkovich (acham mesmo que sabemos tudo?), quem é o Sandro Miller?
E a mais interessante descoberta chegou sobre as gémeas. Encontrei uma fotografia dos tempos de hoje. E isto mudou tudo.
Pensei: "Que importância tem chamar a poesia ao barulho, se a poesia acontece aqui mesmo, aos olhos de todos?"
Pois reparem como as gémeas, elas próprias, estão tão diferentes. Em como os olhos foram a única coisa que lhes restou. E reparem como a única coisa que o Malkovich transporta, de fotografia em fotografia, são também os olhos.
Ou seja, não precisávamos do Malkovich para estas transformações, porque elas se podem dar na própria pessoa. Através da própria pessoa. As gémeas, fossem elas actrizes, poder-se-iam ter submetido àquele extraordinário trabalho de caracterização e voltarem a ser elas próprias na infância. Mas se nem elas próprias já se parecem com elas, que sentido faz voltar a fazê-las parecer?
E que sentido faz, fazer reviver as crianças que já não o são, num homem que nunca o foi?
E eis que a morte e a saudade ganham aqui outra dimensão. Não podemos sentir saudade de morte, por alguém que nem morreu, mas sentimos, certamente, saudade do que já fomos, das crianças que nos contaram termos sido, ou das crianças que nos lembramos que os outros foram. Sentimos saudade do que já foi e já não volta. Independentemente dos personagens, dos protagonistas, sentimos saudade da saudade que iremos sentir quando nos apercebermos da perda.

E as duvidas irão, assim, acumular-se e persistir.
Afinal, o Malkovich vestiu a imagem das gémeas da fotografia de Diane Arbus, ou as personagens que ambas representavam?
Se se trata de uma representação da representação, onde fica a realidade? Nele, nas gémeas crianças, ou nas gémeas adultas?
Se tanto as gémeas adultas como Malkovich encarnaram as mesmas personagens das gémeas crianças, porque sentimos que a encenação das gémeas adultas traz mais verdade que a encenação de Malkovich?
Interessará a verdade quando falamos de arte, quando sabemos que tudo não passa de uma encenação?

Confuso?




24.9.14

Do sofrimento






O sofrimento que me espera,
Não é aquele que pensei ter.
Será mais duro.
Sofrido com dor.
E a dor mortificar-me-á.
As lágrimas serão dilúvios.

Descerei os degraus da vida,
E terei o que não queria dela:
A morte.
O silêncio da saudade.
As perguntas sem interrogação.
As dores em cadilhos.

A boca chorará,
Não mais que um par de dias.
Mas os olhos,
Este coração,
Sentirão dores agoniantes.
Render-se-ão às pantominas.


21.9.14

Anónima






O que te fez voltar agora, sua ingrata?
Que forças foram essas que te empurraram do sítio onde estás para este sítio onde estamos todos?
Terás perguntado a ti própria se te queríamos de volta?
Se nos fazias falta?
Claro que não.
Julgas-te imprescindível na vida de todos nós, salvadora do mundo.
Não o és.
Terás, porventura, reparado que continuámos todos a viver sem ti?
Que o mundo continuou a girar mesmo sem estares aqui?
Um dia houve em que a respiração se suspendeu de desgosto mas, logo depois, as vidas seguiram. 
Tínhamos todos de seguir.

Responde-me:
O que te fez voltar agora, sua ingrata?
A vaidade?
Tinhas saudades de ver alimentada a tua vaidade?
Que todos se vergassem em teu redor, te fizessem vénias à retórica arrogante?
Era isso?
Sentiste falta do nosso amor, mesmo que invisível, por ser o único que ainda te restava nesta vida?
E quando foi que isso aconteceu?
Num dia de chuva, acompanhada pela solidão de uma banheira cheia de água, enquanto ouvias os cães a ladrar na noite?
Quando caíste em ti e percebeste, finalmente, o quão sozinha estavas?

Não se regressa a casa de braços abertos à espera que os outros também o estejam.
Não se pode voltar cheia de alegria no peito quando os outros ainda limpam a devastação.
Não se pode abrir com um sorriso a mesma porta que se fechou com amargura, quando alguém ficou lá dentro.
Quem ficou trancado guardou a imagem da chuva que caía lá fora.
Como se pode depois chegar, abrir a porta, e anunciar que nunca o sol deixou de se iluminar?
Quem acreditará em tal coisa?
E se acreditar, como poderá não cobrar no minuto seguinte uma clausura que não merecia?

A tua alegria não é a nossa.
Não vês que há partidas que se dão por um tempo tão infinito, que já não se espera que alguém possa de lá voltar?





19.9.14

O foragido

Hoje vou andar entre o Dias Cães e o Black Velvet.
À meia-noite, apareçam pelo Facebook do BV para a apresentação do EBOOK e para meter conversa, se assim vos apetecer.
Para já, deixo-vos um texto e uma fotografia inéditos, com a assinatura Black Velvet.






*


02:45.

Eram 02:45 da madrugada de Sábado quando foi, finalmente encontrado pela polícia. 
Mal tratado, mal nutrido, mal encarado. Um caco de homem. Amedrontado, cheio de tremores no corpo frágil pelas noites a fugir sem comida no estômago e sem roupa no corpo. Não se deixava apanhar, ou tocar, como um animal selvagem que recusa a presença de humanos.
Os olhos gritavam medo, mas nem precisavam. Quando foi encontrado todo o seu corpo gritava pânico. Horror. Quem o olhou pela primeira vez naquela madrugada, mato adentro, sabia bem a razão dos medos daquele homem: tinha medo de ele próprio. Daquilo em que se tornou. Daquilo em que se deixou tornar.

*

O corpo dorido. Mais uma vez. Ela não sabia como era humanamente possível aguentar tanta dor. Mas ali, diante dos seus olhos, confirmava todos os dias os limites irrazoáveis da dor. O modo como o nosso corpo primeiro reage e depois se retrai, grita e depois cede, volta a reerguer-se e, finalmente, se rende ao chão. Impressionava-a a resistência. Olhava milimetricamente cada marca no corpo, cada mancha negra, cada rasgão, cada desenho feito de sangue pisado. Cada momento de agressão impresso na pele, como um livro que conta uma história. Já não sabia se as feridas eram de ontem ou de hoje, ou se seriam aquelas que há dois meses tanto sofrimento tinham causado.
Só sabia, sem consternações, o imenso prazer que lhes tinham dado fazer.

*

"O meu marido desapareceu de casa. Há dois dias que não o vejo, que não sei dele, que lhe perdi o contacto. Por favor ajudem-me!"

Dizia a mulher preocupada aos polícias que a receberam na esquadra. Quando questionada sobre os eventuais motivos ou inimigos do seu marido que justificassem o desaparecimento, disse não existirem quaisquer motivos para tal.
A polícia colocou a hipótese de rapto ou de acidente. A mulher chorava e o seu desespero alimentou mais as certezas de que não se trataria de um desaparecimento por vontade própria. Para além disso, pensavam os polícias, que marido seria louco o suficiente para querer fugir de uma mulher tão sensual? 
A polícia accionou todos os meios de procura do homem e durante uma semana pensou-se o pior. A mulher não parava de carpir as virtudes do marido e a dedicação que lhe tinha. Mas não tardaria muito a perceber-se as razões da fuga. As verdadeiras razões para um homem querer fugir da sua mulher dedicada, de corpo escultural, e sensualidade gritante.


*

De manta por cima do corpo, resguardado no banco de trás do carro com o corpo curvado sobre os joelhos, o homem seguia calado num silêncio ruidoso. Os polícias olhavam-no com suspeita e não paravam de se questionar e imaginar histórias em volta daquele homem. Todos tinham mulheres em casa, esposas, filhas, mães, e não compreendiam como poderia aquele infeliz ter-se envolvido daquela maneira com a sua própria mulher. Como teriam eles chegado àquilo? Em que momento se passa do amor e do respeito para uma situação de possessão, controlo, e violência?


*

- Porque razão fugiu? Sabe quantos homens e a quantidade meios envolvidos na sua procura? Não se brinca assim com as forças da autoridade, meu amigo!
- Mas eu... eu não podia não fugir. Estava sem saída. 
- Como assim? Explique-se homem? Que razões o levaram a fugir? A viver como um animal, escondido no mato, praticamente nu e cheio de fome?
- Eu... eu... não sei bem como explicar...
- Não temos tempo a perder, explique-se!
- No dia em que fugi, acordei com o corpo dorido. Mais uma vez. Eu não sabia como era humanamente possível aguentar tanta dor. Mas ali, diante dos meus olhos, confirmava todos os dias os limites irrazoáveis da minha dor. O modo como o meu corpo reagia e depois se retraia, como gritava e depois cedia, como voltava a reerguer-se e, finalmente, a render-se ao chão. Impressionava-me a minha resistência. Olhava milimetricamente cada marca no meu corpo, cada mancha negra, cada rasgão, cada desenho feito de sangue pisado. Cada momento de agressão impresso na pele, como um livro que conta uma história. A minha história. Já não sabia se as feridas eram de ontem ou de hoje, ou se seriam aquelas que há dois meses tanto sofrimento me tinham causado.
Só sabia, porque lhe via nos olhos, o imenso prazer que lhes tinham dado fazer.
- O que é que nos está a dizer? Que essas marcas no seu corpo lhe foram infligidas antes de fugir? Que alguém lhe fez isso? Quem? Conte-nos quem?!!

- A minha adorada mulher. Aquela que vêem ali fora chorosa. Essa mesma que olharam com desejo quando a viram entrar na esquadra pela primeira vez. Esta mulher, mantém-me preso há anos no nosso quarto. Alimenta-me, dá-me banho, e ama-me, mas nunca me deixou sair do quarto. 
Todos os dias, ao sair do trabalho, chegava a casa enlouquecida de desejo. Só aí me tirava as algemas e me deixava alimentar e fazer as necessidades sob sua vigilância. Logo depois voltava a algemar-me à cama e a consumir-me até ela se esgotar. Quando eu desfalecia de dor e de cansaço, batia-me. Chicoteava-me. Gritava-me. 
Há anos que sou o seu prisioneiro. O seu escravo sexual. Nunca me sentiu, verdadeiramente, amor. Para ela sou apenas um objecto. E foi apenas por esse objeto que a terão visto chorar.


*

Os outros homens olhavam-no com dúvidas. 
Mas, perante aquele cenário de sofrimento, tomaram uma decisão: prenderam-no nesse mesmo dia, sem pena para cumprir.
Apenas para o proteger.




Black Velvet




Hoje, lá pela meia-noite, eu e o Jon Gavin, iremos ressuscitar um blog que fizemos nascer em conjunto num tempo de loucuras sem fim nas nossas vidas e que rapidamente considerámos esgotado e abandonámos.
Passado um ano desde a sua criação bateu a saudade e a nostalgia e decidimos dar mais qualquer coisa ao blog e aos nossos leitores que, mesmo um ano depois, continuaram a chegar até nós.
Surgiu assim a ideia de fazer um ebook com todas as fotografias e textos do Black Velvet e, quem sabe, isso se venha a traduzir nalguns exemplares em papel para oferecer aos leitores.


Estaremos, então, online  para vos receber e saber a vossa opinião, no blog ou na página do Black Velvet no Facebook.


Encontramo-nos à meia-noite?



10.9.14

Espelho meu, espelho meu...




Não encontro uma razão imediata para ler blogs ou sites com os quais não me identifico, ou que nem têm nada a ver com os meus interesses, mas a verdade é que tenho a rotina diária de ver alguns.

Hoje, ao ler um post de um desses blogs, um tanto nada presunçoso e egocêntrico, parei para pensar na visão que temos de nós próprios. Nada de novo, amiúde todos o fazemos, mas voltei a pensar nisso. O que é que nos faz vermo-nos de uma maneira tão distorcida em relação à realidade? Conheceremos a realidade, sequer? A realidade é o que nós vemos, o que os outros vêem, ou o que o espelho mostra? Seremos todos iguais: ver-nos-emos todos piores do que realmente somos? Ou ver-nos-emos, apenas, de maneira diferente? Isto parece-me, e apenas esta última questão, que será inevitável que assim seja.

A minha realidade é a maneira como me vejo no espelho. A imagem que ele me devolve. Mas sei que é diferente da imagem que os outros têm de mim (ou então estão só a ser simpáticos, seus filhos da mãe). E essa imagem que eu vejo não é simpática ou, pelo menos, não era aquela que eu gostaria de ver. Há dias - muitos - em que acho que nem sou eu que estou no espelho porque a maneira como me vejo, ou imagino, é mesmo diferente da verdade. Só posso acreditar que há muitas pessoas na mesma situação. No entanto, tenho cá a minha vaidade e não deixo que o corpo seja o meu maior inimigo. Mas também sei que não me ficava nada bem exibi-lo. Dava assim uma ar de quem não se enxerga. E eu enxergo-me.

Mas dizia eu que, ao ler esse blog, pensei na maneira como olhamos para nós e como é bom vermo-nos de uma maneira bonita. Que tranquilizador é. Mesmo que não seja isso que os outros vêem. Porque a autora desse blog, mesmo dizendo que não, que é um horror, que ainda não é o que gostaria de ser, tem de ter uma imagem de si própria muito positiva para se mostrar da maneira que mostra. Também acho que pode ser uma forma de pedir validação e de saber que é aceite pelos outros mas, aos meus olhos, não passa de um exercício de autobajulação. Um polimento de ego. Ao contrário do que deveria, eu só lhe vejo insegurança. Não é uma crítica, é a minha perspectiva.

Depois perdi logo os meus pensamentos para várias pessoas que conheço também com problemas de segurança mas que trilham um caminho oposto: as "invisíveis da sociedade".
As "invisíveis da sociedade" são aquelas pessoas que ninguém sabe que existem porque elas próprias se escondem. Que são umas tristes (de todas as formas que se pode emocionalmente ser), que se escondem por trás de corpos-muito-pouco-danone, e de roupas de tons bege e cinza, que rezam para que o cabelo as escondas e que vêem nos óculos o seu muro de protecção. São pessoas em quem ninguém repara. Elas próprias contribuem para isso. E porque será? É o seu espelho que é diferente dos outros? Será que não têm daqueles espelhos bonitos, que só devolve imagens tranquilizadoras?

Sabemos todos a resposta: é uma questão de auto-estima.

Alguns de nós só vêem o espelho. Outros, como eu, admitindo que o espelho está certo mesmo sem ser muito animador, ainda tenta salvar a coisa, no último minuto, com um batôn, porque a auto-estima não está lá nos píncaros mas também não tem razões para andar deprimida. Também há os que se vêem muito melhores do que realmente são: os ignorantes e felizes e com uma auto-estima do catano. Depois temos os que vêem além do espelho e seguem com a sua vida: os realistas, equilibrados, bem-resolvidos a quem lhes foi ensinado que devemos aceitar o que temos e que, o que temos, é sempre o melhor que poderíamos ter.
E, finalmente, lá estão os "invisíveis da sociedade", de auto-estima agastada, perdida, sem capacidade de ressurreição. E não poderiam estas pessoas, mesmo que se tratem de trambolhos, olhar-se no espelho e verem-se no seu melhor? Verem uma realidade qualquer que não a do espelho e a dos outros? Podiam, claro que podiam, à semelhança dos ignorantes e felizes. Dos que, tão simplesmente, têm auto-estima. Porque no início e no fim de cada dia, quando nos olhamos ao espelho, é apenas disso que se trata: ter auto-estima.





9.9.14

O Mar (Áudio)

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O mar


Mar calmo.
Chão morto.
Ondas que se arrastam sobre si,
Como num namoro condescendente.
Calmas onde que se beijam,
Se almejam sem fulgor.

Horizonte cristalino,
Sobre o mar azul parado.
Sobre jade envidraçado.
Calmo amor entre ondas e mar.
Arrebatado abraço entre horizonte a deslumbrar.
Vida viva, inerte.
Batimentos de arrebatar.


Ao Rui.




5.9.14

Dear Joan Rivers...





... Então, quinaste minha malandra?
Pois não se faz, não se faz...


Espero que no sítio onde estás haja aquilo a que nós por cá, em Portugal, carinhosamente chamamos de "putas e vinho verde". 

É que tu não és pessoa de se ficar por contemplações em prados verdes com querubins a azucrinarem-te o cérebro. Eu sei que não. Sabemos todos.

Entretanto, e apesar de assumidamente ir sentir a tua falta, espero que nos voltemos a encontrar daqui por muitos e longos anos mas, até lá, espero que por aí tenhas muita ramboia e Martini do bom.



4.9.14

Amores literários, quem os não tem?

(Deve ser a melhor foto de sempre... por tudo... ha ha ha...)



Apaixono-me muitas vezes pelos homens que leio. Admito, no entanto, que sejam mais as vezes que não simpatizo ou empatizo com um homem pelo que escreve (há coisas muito más por aí, não há?) do que aquelas pelas quais me perco de amores. É engraçado constatar como também há sexualidade e distinção de géneros nesta coisa da literatura, porque, pelas mulheres que leio sinto apenas uma imensa admiração e de algumas nem tanto. Pensando bem talvez a Florbela me tenha feito revirar os olhinhos. Ou, pensando ainda melhor, talvez a culpa seja mesmo minha e nem dê hipótese às mulheres. Tenho de rever estes preconceitos.

Mas acerca de me perder de amores pelos homens que leio. E apenas sobre eles:
No início vieram os amantes do costume: Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Tentei o Almada Negreiros mas não me senti correspondida. Talvez com a idade me venha a render. Todos sabemos que existem pessoas certas mas nas alturas erradas. Pode bem ser o caso.
Aconteceu-me também, há muitos e longos anos, ter-me apaixonado pelo Paulo Coelho. Mas prefiro não falar disso. Todos temos um amor que anos mais tarde recalcamos, neste caso por razões que me parecem óbvias. 
Depois, iluminadamente, descobri Kafka, e Sartre, e Daudet, e Italo Calvino, e Wilde. Anos a devorá-los a todos aos mesmo tempo. Confuso, muito confuso. Daqueles amores coletivos que quanto mais dúvidas nos levantam mais nos viciamos neles. Também me embeicei pelo Rimbaud, porque me parecia precisar de colo. Mas o amor maior de todos, ainda hoje intenso e carnal, encontrei nas lamurias de Sartre. Ainda conheci o Al Berto mas achei-o demasiado grande para mim. Grande, de grandioso. Não estava preparada para uma relação de tamanha maturidade. Mas penso nele como o amante de meia-idade, de ar sisudo, que se esconde dos pais, mas que não pára de nos assombrar os pensamentos. Aquele com quem desejamos passar noites inteiras num hotel, onde se esqueceram de pagar a conta da luz. Um dia, sei, voltarei a Al Berto, como uma mulher frágil que procura o calor de um homem vivido.

Entre os meus vinte e os meus trinta anos dormi com muito lixo e nunca me apaixonei. Nos livros como na vida.

Com a chegada dos trinta anos (a melhor década para amar, dizem), tive um pequeno arremesso de coração pelo José Saramago. Mas já era tarde. Para mim e para ele, que já estava morto há um tempo. E eu lá acabei por controlar as palpitações e agora revisito pontualmente a sua escrita, como uma namorada que relê as cartas de um amor já terminado. 
Entretanto, tinha uma declaração (quase amorosa) escrita à um ror de tempo para fazer ao Manuel António Pina, mas comecei a ver muito mulherio a fazer o mesmo e retraí-me. Faz muitas viagens de comboio comigo, temos relações rápidas e fugazes, por vezes de um só dia, mas eu fico sempre plenamente satisfeita com o que ele me dá. Cumpre. Por mim está bom.

E eis que... e agora é que começa o verdadeiro caso de amor, de perdição diria até: aquela paixão que andava a adiar.
Eu sei, eu sei, venho uns quinze anos atrasada.
"Mas só agora é que te apaixonaste por ele?"
Sim, só agora.
Porque, à semelhança do que se passava nos meus tempos de liceu, eu não queria seguir a carneirada e ter uma paixoneta pelo rapaz mais giro e a quem todas as mocinhas arrastavam um par de asas. Eu mantinha-me fria e inflexível por fora, mas secretamente perdida de amores por dentro. Mas carneirada é que nunca! Aliás, sinto-me ridícula hoje, como sentia naquela época, por parecer que não tenho opinião própria e por chegar à constatação que, afinal, gosto do que todas as outras gostam. Mas eu andei em negação ao inegável. Um amor que já se adivinhava inevitável há muitos anos, e eu sabia disso.

Sim, é esse mesmo, houve o dia na minha vida em que me apaixonei pelo Miguel Esteves Cardoso (eu sei, pensavam que eu ia dizer Paulo Portas). Assim mesmo, depois de já todos os outros quinhentos mil milhões de mulheres se terem apaixonado. Fui a última a chegar. E então? E então vai-se passar o mesmo que no liceu: nada.

O Miguel Esteves Cardoso deve ser o homem mais feio que me lembro de ver. Também não creio que a idade lhe tenha feito bem, pelo contrário, mas pelo menos arranjou-lhe a desculpa que durante anos não teve.
No entanto (e tinha de haver um mas), é incrivelmente interessante por dentro. Ou naquilo que tem por dentro que deita publicamente cá para fora. É caso para dizer que, na modernidade dos tempos que correm, se safaria lindamente nas redes sociais de engate, em que não há fotografias de caras (ou, pelo menos, não das terrivelmente verdadeiras) e onde as pessoas têm oportunidade de mostrar tudo o que valem apenas pelo que escrevem. Verdade, pode haver pouca paciência para tamanha erudição e virtuosismo num ambiente tão, digamos, pragmático, mas, certamente, colheria o interesse de muitas almas.
Provavelmente, e já que assumi a minha mundanidade literária, à semelhança de todas as outras mulheres e homens, eu também não consigo dizer concretamente o que me apaixona no Miguel Esteves Cardoso. Será o sentido de humor? A visão do mundo? A escrita irrepreensível? A criatividade? A genica? A sua comum mortalidade?
Pode ser tudo. Podem ser todas estas coisas juntas e mais aquelas que não se vêem mas, tenho para mim, que se ele fosse um homem bonito eu não me apaixonaria tanto.
Como diria um amigo meu, ser-se feio, arrogante e burro é contra-natura porque contraria todos os instintos de sobrevivência. Um feio precisa, necessariamente, de ser amoroso ou inteligente. Creio que o contrário também será verdade. Se o Miguel Esteves Cardoso fosse bonito, afável e inteligente, dispararia um alarme de perigo, porque sabemos, instintivamente, que não existem homens assim.

Por tudo isto, meu caro Miguel Esteves Cardoso, acho que descobri porque é que, realmente, te amo.
Porque és um feio que escreve bonito.
E disso, já não há.



3.9.14

Filho de P.. Rorschach. Walter Kovacs.



E as coisas incríveis que eu descubro e aprendo com este blog?
Quando procurei uma imagem para o texto anterior "O filho de P.", não demorei muito a encontrá-la. Aquela fotografia encaixa na perfeição no texto que tinha feito há umas semanas. O que eu não esperava foi encontrar a história por trás.

Já me questionaram sobre as escolhas das imagens que acompanham os textos do blog. Mas pouco. Talvez para a maioria das pessoas passe completamente despercebida a importância da imagem ou da música que acompanha os textos mas numa grande maioria dos casos demoro mais tempo a pesquisar e a escolher a imagem do que a escrever um texto.
E existem duas razões para isto (talvez existam mais):
- Por um lado porque, quando escrevo um texto crio uma imagem, um ambiente, na minha cabeça e depois não descanso enquanto não encontro uma imagem correspondente ou semelhante. E isto pode demorar muito tempo. Também é verdade que nem sempre o consegui e, por essa razão, haverão por este blog fora imagens menos felizes.
- Por outro lado porque, quando finalmente encontro alguma(s) imagem(s) que me agrade(m) demoro algum tempo a tentar encontrar a fonte, que nem sempre encontro por já se tratarem de coisas perdidas pela net. Em todo o caso, fico por ali a deambular e acabo por encontrar outras coisas que me interessam, temas que desconhecia e histórias curiosas.

E foi precisamente quando Googlei "Son with his whor mother" para procurar uma imagem que se adequasse ao texto "O filho de P.", que dei de caras de imediato com a fotografia que pretendia mas, mais curioso ainda, encontrei uma história interessantíssima e que eu desconhecia por completo. No fundo, aquela fotografia já era um registo real de uma história fictícia, a de Walter Kovacs.
E quem raio é Walter Kovacs?
Parece que é o nome do super-herói (e agora vou entrar por terrenos pantanosos porque não domino minimamente a cena dos super-heróis e da banda desenhada e eu sei que há um mundo muito próprio e profundo...) cujo alter-ego se chama Rorschach (ninguém sabe dizer isto), "O Vigilante".


Quão fixe é descobrir coisas novas que não servem para nada aos 33 anos?
Muito.
(Desculpem-me o excitex).

Deixo uns links para quem quiser saber mais sobre o assunto:


O filho de P.




O filho de P. não gostava nada do nome da mãe.
Raramente se via uma criança ter uma opinião tão vincada sobre o nome dos progenitores mas o pequeno P. sabia bem o que o desagradava. É que o nome da sua mãe mais lhe parecia escrito na testa, de tão óbvio que era. A sua mãe parecia ter um grande "P" escrito na fronte e não era só ele que o via mas, também, todos os outros meninos e todos os pais desses meninos. Alguns pais até gostavam, o que lhe era muito desagradável.
Na sua escola havia um menino que também não gostava do nome da mãe mas não era gozado pelos outros. Era só um desconforto dele: não gostava que a mãe se chamasse Gertrudes. Um dia  até perguntou à mãe se quando ela nasceu já se chamava Gertrudes, tal era o peso do nome. Achava que só as mulheres velhas poderiam ter um nome daqueles. Mas este menino não era gozado pelos outros porque, mesmo que tivesse Gertrudes escrito na testa, ninguém se iria apoquentar. Era só um nome muito feio.
No entanto, o pequeno P., pouco confortado pelo desgosto do outro rapaz, continuava a levantar-se todos os dias a desejar que o nome da sua mãe fosse antes Gertrudes, e que tudo não passasse de um sonho terrível. Mas, mal pousava os pés no chão, desempenava um olho e depois o outro, e abria os ouvidos para o mundo, começava a ouvir os sons da casa e era logo confrontado com a realidade. A sua mãe tinha mesmo aquele nome. Ah, quão P. poderia mais ser sua mãe? Que desgosto! Que desgosto!!!
E todos os dias, e mais dias que passassem, na esperança que um dia a mãe se chamasse Gertrudes, ou Efigénia, ou Geraldina, qualquer coisa menos P., ele pedia a todos os santos, todos os dias a caminho da escola, para que um dia os seus colegas escarneassem bem alto: "FILHO DE UMA GRANDE GERTRUDES!!!!!. Ele não se iria importar.
Mas não.
Acabava e começava sempre os dias na escola a ouvir as mesmas crueldades dos seus colegas: "FILHO DE UMA GRANDE P.!!!!!
E o pior é que era mesmo verdade.
A sua mãe P. era mesmo muito grande. Muito, muito, grande. Era tão alta que, por vezes, nem se via a cabeça. Só se via o seu grande "P" ao peito. Um pendente que usava com orgulho. Dizia que tinha sido a sua mãezinha que lhe tinha deixado. "Grande presente para se deixar a uma filha", pensava o pequeno P., já a adivinhar a sua sorte, "quantos mais P.'s terei eu de herdar?"
Estava cansado de se debater e não encontrar um solução para acabar com tamanha agonia. Precisava de uma solução urgente.
E um dia, o pequeno P., lá parou para pensar.
Sabia que o nome da mãe nunca iria mudar, imaginava que a vida deles também não, já tinha percebido que há muito que estava condenado a ser conhecido como o filho de P., e pensou, seriamente, nas virtudes da mãe e não nos defeitos. Então, contra o quê estava a lutar? Contra a mãe? Contra os outros? Ou contra si?
Um dia, o pequeno P., lá parou de pensar e concluiu:
A única coisa que sempre esteve errada na sua vida, era a sua mãe não se chamar Gertrudes.




1.9.14

Ainda sobre o 25 de coiso



No mesmo dia em que tive a breve constatação de que "os meus 25 de Abril" não dão em nada, ainda aprendi umas quantas lições sobre o que pode ser isso de cada um fazer o seu 25 de Abril.

Logo depois de me ter lamuriado, saí do trabalho cedo - empenada pela falta de motivação - e peguei no carro convicta de que iria imediatamente para casa. Mas, pelo caminho, lá me lembrei daquele exame que ando para marcar há meses e que, por mera preguiça andava a adiar. E por isso lá me arrastei até à clinica para o marcar. Quando entrei vi a senhora do costume, com a sobranceria do costume, com a simpatia do costume, com os óculos na ponta do nariz como de costume. E esperei pela minha vez, como de costume, porque se há coisa que existe naquela casa são regras para os pacientes cumprirem. Mas nisto, sem tempo sequer de ver que lugar havia disponível, ouço uma voz detrás do balcão a chamar-me. E nem sequer estava na minha vez. Pensei, como mulher extremamente optimista na humanidade que sou, que já ia levar uma ripada. Mas não. Um jovem funcionário chamou-me de sorriso no rosto, perguntou-me em que podia ser útil, eu expliquei ao que ia, e o rapaz teve a amabilidade de me chamar a atenção para um erro na credencial que me faria pagar 1100% mais pelo exame. A colega, aquela que tem a atitude do costume, fitava-o pelo canto do olho. E a mim também. Certamente recordará o dia em que lhe pedi o livro de reclamações.
Eu agradeci a atenção, e prometi voltar com a credencial corrigida.
Já que estava numa de tratar do assunto, dirigi-me de imediato ao centro de saúde para auferir a possibilidade de alterar a dita credencial. Quando entrei, ao contrário da clinica privada, a sala de espera estava vazia e num silêncio absoluto. Talvez o facto de no privado se pagar 3,90€ por uma consulta em vez dos 5€ do público tenha influência, digo eu... 
Atrás do balcão, estava apenas uma senhora gorda, entalada entre os dois braços de uma cadeira, e com o olhar fixo mas perdido no ecrã do computador. O meu "boa tarde" não a fez pestanejar. Insisti: "boa tarde!".
- "Oh, boa tarde, desculpe, estava distraída".
- "boa tarde".
- "Em que posso ajudá-la?"
E a partir daqui não foi outra coisa que não extremamente simpática, atenciosa, disponível e útil. O problema foi resolvido em cinco minutos e eu vim, efetivamente, satisfeita.
Imbuída de tanta boa-disposição, de tanta alegria, perdi a vontade de ir logo para casa amargurar a cabeça na almofada e enfardar um pacote de aperitivos salgados. Decidi ainda parar no supermercado do bairro para comprar um queijinho fresco "que bem que me vai saber comer antes um queijinho fresco!". E lá fui, de andar leve e solto, em busca do dito queijo. E quando eu estava de mão esticada para resgatar um dos queijos da estante, passou-me nada mais, nada menos, que uma osga pelos pés. E eu pensei "fod*-s*...".
E não comprei o queijo.
Ao sair pela caixa do supermercado de mãos a abanar e de constrangimento na cara, a funcionária, que nunca me viu nem eu a ela, exclamou entusiasmada: "obrigada na mesma e até à próxima!". E eu pensei para comigo, que aquela miúda simpática já me tinha feito valer a ida àquele sítio.
Como se isto não me fizesse já pensar na vida e na atitude que decidimos ter perante ela, e nas lutas que decidimos travar, por vezes apenas contra nós, não resultando daí nenhum efeito positivo para o colectivo, eis que na manhã seguinte ainda me são abertos os olhos, só mais um bocadinho.
Uma cliente pergunta-me:
- "Em vez do livro de reclamações à vista posso ter antes o livro de elogios?"
Ao que eu ainda perguntei:
- "Mas existe livro de elogios?"
(E ouvi na minha cabeça: "Pumba, vai buscar! sua atrasada mental que nem sabias que existe livro de elogios e pensas que são todos uns deprimidos como tu. Always LOok on the bright side of life...")
O que há a reter disto? Que eu me foco nas coisas erradas mas há quem se foque nas coisas certas. Que há quem faça os 25 de Abril todos os dias, de forma consciente ou não, apenas para si ou envolvendo os outros mas usando sempre os cravos como arma. Esta pessoa, sem saber, fez uma revolução dentro de mim sem tiros (que era o que eu instintivamente faria): deu-me paz interior.

Não sei se já perceberam onde quero chegar com isto.

Cada uma destas pessoas teve a capacidade de revolucionar, à sua maneira, o meu dia. Não interessa se era o meu dia, poderia ter sido de outra pessoa qualquer. Conseguiram fazer a diferença na vida, ou num pequeno momento do dia, vá, de alguém. Quando eu estava convencidíssma que isto de andar a travar lutas sem balas já não estava a dar nada, cruzo-me com estas quatro pessoas, que me provam que as lutas se travam com bons estados de alma. É a tal teoria do copo meio-cheio ou meio-vazio. 
Levei ali uma lição de todo o tamanho, foi o que foi.
E ainda bem que estava desperta, aceitei os sinais, compreendi o que se estava a passar e, em vez de me convencer de que sou sempre eu que estou certa, abri o peito e a mente e deixei que Deus brincasse comigo e mostrasse que há outros meninos no parque com brincadeiras mais giras que a minha. 

E talvez sim, talvez, o 25 de Abril se faça todos os dias nas pequenas coisas, coletivamente ou pela vontade individual de cada um. Mas tenho a certeza que se faz.
A minha grande questão é: Que tenho feito eu de útil, e com impacto positivo na vida dos outros e na minha, com os meus 25 de Abril?



E pronto... fica um apontamento de humor... para amainar a cena.
[E não, fiquem descansados, que eu não vou dizer que o 25 de Abril é como o Natal, e que é quando um homem quiser, mas apetece-me.]