quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sobre a amizade e o tempo




A amizade, talvez como a paixão e o amor, tem maneiras de nascer, crescer, de ser vivida e de se alimentar, completamente distintas ao longo das várias fases da nossa vida. Tem a ver com a maturidade. O crescimento. Porque os sentimentos também se maturam e fazem crescem.
Na infância, os primeiros amigos são os filhos dos amigos dos nossos pais, os amigos da creche, que hão-de ser os da escola, da catequese, do grupo de desporto... e crescemos com eles, com as afinidades que se desenharam ao sabor do tempo e das parcas rotinas que nos estão destinadas e decididas pelos progenitores. Não pensamos muito nisso. 
Ao crescermos, ao sermos empurrados para a vida, sobretudo se fizermos mudanças radicais como mudar de cidade, sair de casa dos pais, ir estudar ou trabalhar para fora, começamos a criar a nossa rede de amigos de uma maneira mais consciente e madura. Também são amizades mais emocionais porque, na verdade, metemos a empatia a trabalhar e os relacionamentos dão-se com quem, efectivamente, sentimos uma ligação. De certo modo, passamos a ser nós que "escolhemos" os nossos amigos.

Olhando, e comparando, as amizades de infância com as amizades formadas em idade adulta, acho que me identifico mais com as últimas. Costumo até dizer que, se conhecesse hoje alguns dos amigos que mantenho desde a infância, não haveria a mínima chance de sermos amigos. Porque seguimos vidas diferentes. Temos ideologias, opiniões, ambições diferentes. E não há mal nenhum nisto. As coisas são mesmo assim: crescemos e tornamo-nos no que queremos tornar e, o que é um facto, é que não queremos todos o mesmo. Mas que raio se faz ao amor de infância que alimentou essas amizades? Nada, claro. E por isso deixamo-las, ali, no coração.
Apesar de acreditar que com a maturidade surgem as amizades para a vida, tenho um núcleo de amigas de infância (desde os três meses de vida, ali, lado-a-lado nos berços) sem as quais não me imagino. É bom sabê-las ali, na nossa terra, e saber exactamente onde as posso encontrar. E sinto muito conforto por elas se manterem todas juntas no mesmo sítio e que apenas eu me tresmalhei. É tão bom imaginá-las a uns passos umas das outras como quando tínhamos uns cinco anos.
Ter amigos também é isto: cristalizar o tempo. Reencontrarmo-nos numa história que aconteceu há vinte anos, ou não nos reconhecermos num momento que aconteceu há dez anos. Podemos voltar atrás no tempo, usando os amigos como referências, e vermos quem éramos antes do que somos agora. Põe-nos em perspectiva. 
Com os novos amigos a vida parece dividir-se num antes e num depois: antes deles e depois deles. Um antes e depois na formação do meu carácter.
Eu acredito que os amigos, as amizades, nos moldam. Nos moldam a vida, a personalidade, o carácter, o tempo. A vida passa a fatiar-se por grupos de amigos, lugares e momentos e nunca mais a vimos como um todo, homogéneo, sem sal.
E eu sou das que prefiro a vida assim: diversos amigos em muitos lugares diferentes, com interesses diferentes e, sobretudo, com maneiras de me olhar diferentes.


[E assim me deixei ficar a pensar nesta coisa da amizade, do amor entre amigos (porque acredito que o há), nas amizades de longa data e nas amizades recentes. Fiquei assim porque de vez em quando me vejo ficar sem as pessoas de quem gosto por perto. E fiquei a pensar em qual nos dói mais uma partida? Naquelas que tivemos tempo para sedimentar uma relação ou naquela onde ainda se vive a descoberta do outro? Questiono-me, também, se será aceitável sofrer mais com uns do que com outros? E se não for aceitável, isso fará de mim pior pessoa, pior amiga dos meus amigos? Ou tornar-me-á apenas numa pessoa que tem um coração generoso e se identifica com as preocupações dos outros, independentemente, da origem da amizade e do tempo?

E no fundo todo este raciocínio começou por aqui:

Apesar de já ter aprendido que de nada vale sofrer com uma partida porque haverá sempre um regresso, desta vez, com a partida de duas amigas, sinto uma amargura diferente. Porque não é bem dor. É tristeza. É impotência.
Vão-se embora porque aqui não há trabalho. Não vale a pena dissertar sobre o assunto: aqui não encontram trabalho. Simples assim.
Quando tentei encontrar respostas dentro de mim, para a pergunta: "Mas porque é que me custa tanto que, logo estas duas pessoas recentes na minha vida, se vão embora?", fiquei ali num vai-não-vai entre motivos egoísta e motivos altruístas. Afinal de contas, antes de pensar na saudade que vou sentir, tenho de pensar no bem que isto fará às suas vidas.
Estas minhas amigas, foram escolhidas por mim. Não são amigas de infância, não são colegas/amigas, não são amigas comuns com outros amigos. São só minhas amigas porque assim quisemos ser. Porque nos escolhemos. E eu vou sentir a falta delas.]



À R. e à S.




2 comentários:

  1. As pessoas mais recentes são as mais parecidas connosco no presente. E dói mais a partida porque de certo forma é ali uma parte igualzinha a nós que se desprende e que depois não saberemos como voltar a encontrar. Temos medo que elas se trnasformem da mesma maneira que se transformaram as pessoas menos recentes da nossa vida. É que o medo é que também estas fiquem lá atrás no cruzamento do caminho. Uma maçada portanto.

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    1. Muito bem analisado sim senhora. Talvez seja isso mesmo.

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