quarta-feira, 31 de julho de 2013

Exercícios de humildade




Quando era muito pequena, ainda não sabia ler nem escrever, preconizei aquele que havia de ser o meu maior exercício de humildade. Ou pelo menos o mais emblemático e que me viria a servir, no futuro, de termo de comparação com outros momentos idênticos. Tive consciência dele apenas uns anos mais tarde mas sei que foi nessa idade, em que os dentes de leite ainda estavam para ficar, que comecei um percurso de auto-análise. De tomada de consciência. De uma das muitas lições de vida que viria a ter.
Nesse tempo, em que era ginasta, tinha muita vaidade em ser a menina que era escolhida para a linha da frente da formação. Aquela que todos conseguiriam ver a fazer as cambalhotas, os pinos e as espargatas. Um orgulho. Gostava do aprumo do maillot  azul com a gola de marinheiro. Do pequeno apanhado no cabelo. Da pose de pequena diva da ginástica, com as costas rigorosamente direitas e rígidas.
Até que um dia, passados meia-dúzia de anos, descobri em casa da minha prima, que também tinha pertencido ao mesmo grupo de ginástica rítmica, uma cassete de vídeo que o meu tio tinha guardado, religiosamente, com uma autocolante a anunciar "Sarau de ginástica 1985".
Eu e a minha prima lá fomos ver a cassete e eu, como é óbvio, transparecia uma evidente segurança de que iríamos assistir apenas a mais um grande momento da minha infância, cheia de genialidade. Mas o que acabei a ver foi uma menina, perdida no meio de outras meninas. Com um maillot  azul com gola de marinheiro, igual ao de todas as outras meninas, agarrada a uma boia, a uma bola, a um arco e a tentar encontrar o X no chão que indicava a minha posição e completamente interessada em chamar a atenção do público em vez de cumprir a minha rotina.
Nesse dia vi a menina que não conseguiu fazer o pino depois de três tentativas esforçadas, apesar de, nas minhas felizes memórias, apenas recordar um sarau fora de série em que eu tinha cumprido o que esperavam de mim, com grande sucesso.
Foi preciso meia-dúzia de anos depois para ter o meu exercício de humildade.
Coloquei em perspectiva aquela nova consciência e soube, a partir daí, que o que achamos de nós nem sempre é o que realmente somos. Aprendi, a partir desse dia, que afinal prometo muito e realizo pouco. Que sou uma fraude.
Aprendi que era escolhida para a linha da frente pela conveniência de ser a mais pequena e não por ser a melhor. Aprendi que só temos uma oportunidade para fazer o nosso melhor e que as restantes tentativas são apenas o aumentar do número de falhas.

Trinta anos volvidos e fui obrigada a lembrar-me do meu maillot  azul com gola de marinheiro.
Relembrei, com a dor de quem se viu humilhado, que as expectativas sobre mim não se cumpriram e que, ainda assim, havia uma lição a reter daquele momento: a lição de humildade.
Hoje, perante um júri de mulheres e homens adultos, em que me defendi, defendi um trabalho suado e sofrido, e em que fiz o pino à primeira e sem quaisquer ajudas, voltei a ter a minha lição de humildade.
Erradamente, defendi que o papel de um arquitecto, quando passa por intervir num edifício histórico, deve ser mais modesto e menos centrado em si e que, resumidamente, se trata de um exercício de humildade para um arquitecto assumir a responsabilidade de intervir num edifício sem impor a sua marca.
A referência a "um exercício de humildade" foi mal acolhido por uma troika de divas que, naturalmente, adoram tudo nesta vida menos o conceito de humildade.
Erro o meu.
Para mostrar interesse em esclarecer todas as questões, a menina do maillot azul que nunca concretizava o pino à primeira, ainda tentou explicar que "humildade", naquele contexto, significava respeito. Respeito pela pré-existência, pelo edifício, pela sua história.
Segundo erro.
Dois conceitos, altamente desconhecidos para os jurados num dia só: Humildade e Respeito.
Admito que foi puxar pela minha sorte, esquecer a minha sina e gozar com o meu karma, mas ninguém me iria defender a não ser eu própria. E preferi arriscar a ficar parada a ver os outros brilharem com as piruetas. Mas voltei a ser colocada na primeira fila.
Naquele momento senti-me pequenina. A fazer investidas contra a esteira, uma e outra vez, sem nunca conseguir fazer o pino.

Tive o meu exercício de humildade.
Pelo menos hoje, alguém o teve.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Manual de sobrevivência




Manual de sobrevivência para quem lida diariamente com otários, cobardes e hipócritas e outros tipos de jumentos
(como o título é muito longo nunca vou poder editar um livro só meu, o que é uma grande pena)


Pois é meus amigos, temos dias em que precisamos imenso de um amparo, de uma mão que nos guie, de uma vozinha que nos corrija a vontade de mandar à merda os imensos cidadãos que perturbam o nosso dia-a-dia.
Por isso, é com todo o prazer que venho partilhar alguma da minha vasta experiência, graciosamente resultante do convívio muito frequente com os mais altos asnos desta piquena sociedade onde sobrevivo.
Preparei um manual só para vós, pessoas amorosas, que são diariamente levadas ao limite da paciência, da boa-educação e da finesse
Fiquem com o meu "Manual de sobrevivência para quem lida diariamente com otários, cobardes e hipócritas e outros tipos de jumentos":

Capítulo I

Quando os imbecis atacam por telefone

1º - Caso não consiga ver quem o está a contactar (ainda há imensos telefones fixos sem visor, o que é uma enorme maçada), comece o telefonema sempre com o seu tom habitual e não avance até compreender, exactamente, com quem está a falar. 

2º - Depois de ter a certeza que está a falar com aquele imbecil do costume, modere o tom, não mostre empatia, disponibilidade nem voluntarismo. Fale pouco, responda evasivamente, não alimente a conversa, mostre desconhecimento sobre todos os assuntos que ele abordar. Lembre-se que o objectivo não é fazer o outro feliz: é terminar com o seu sofrimento.

3º - Se perceber que afinal está a falar com um outro qualquer noveau tromper não aponte as armas. Dê uma segunda oportunidade à pessoa. Afinal de contas todos temos maus dias. Mas convenhamos, se à terceira vez se voltar a armar em anormal, você já terá legitimidade para colocar em prática as restantes tácticas do manual.

4º - Nunca, mas nunca, atenda um telefonema que não é para si. Se o telefone do colega de trabalho, ou o telemóvel da sua mãe, estiverem a tocar, não caia na tentação. Não amplie a sua rede de otários quando não há qualquer necessidade. Lembre-se que todos conhecemos estropícios mas se podermos ficar só por aqueles que já estão na nossa rede de contactos, melhor.

5º - Mas, caso cometa esse gravíssimo erro, proceda da seguinte maneira: afável. Sim, não vai querer que façam queixa de si nas suas costas. Antes ter para atirar aos outros do que esperar que os outros atirem sobre si. Seja simpático mas não mostre interesse em resolver-lhe os problemas ou dar-lhe a informação que ele pretende. Evasiva: é a palavra de ordem.

6º - Caso esteja a lidar com uma pessoa de patente acima da sua, e que sabe que o pode massacrar no futuro, diga sempre que sim a tudo. Não combata. Não é o momento para insuflar o ego nem demonstrar inteligência. Diga que sim a tudo mesmo que não pretenda fazer absolutamente nada. 

7º - Não se esqueça, controle o tom de voz, mantenha um tom monocórdico mas firme, o suficiente para que do outro lado entendam que tem mais que fazer, e nunca se exalte. Mantenha a razão do seu lado.

8º - Todos os contactos de todos os imbecis que conhece devem ser religiosamente guardados para não ter a surpresa de atender um telefonema indesejado. Para algumas pessoas estamos sempre, simplesmente, fora de rede.



Capítulo II

Quando os tontos atacam por mail ou qualquer outro meio igualmente cobardola

9º - Tenha a certeza de uma coisa: quando uma pessoa, com quem temos um relacionamento assim a dar para o azedo, nos contacta por mail, claramente, está a denunciar a sua fraqueza de espírito. Nesse momento fique seguro de que você tem o controlo da situação nas mãos.

10º - Se o tom do mail for agressivo, mantenha a noblesse. Não instigue esse tom. Não se envolva em troca de espinhas porque, relembre-se, tudo o que ficar escrito pode virar-se contra nós e não teremos como negar um momento de rudeza ou falta de educação.

11º - Se o mail demonstrar frouxidão e fraqueza, considere uma atitude altiva. Mostre-lhe que está no poder e ao comando da situação. Mostre-lhe que ele, nesse momento, depende de si, do seu humor, e da sua vontade de colaborar.

12º - Comece sempre o mail com o mesmo cumprimento que lhe dirigem a si, mas atenção! Se se dirigirem a si num tom frívolo ou cheio de intimidades, coloque a pessoa no sítio a que ela pertence e retome o tom formal. Não tema fazê-la sentir-se inferior. 

13º - O final do mail é, igualmente, importante. Nunca largue beijinhos e abraços antes do seu nome. Também não aconselho os "melhores cumprimentos". Não queira ser simpático com quem não merece. Um simples "cumprimentos" bastará e mantê-lo-á num local seguro entre a cordialidade e o profissionalismo.

14º - Nunca responda ao mail. Crie um novo. Não vai querer enganos. Não exclua a hipótese de pensar que está a falar com a amiga sobre o idiota que acabou de lhe enviar um mail e, afinal, estar a dizê-lo ao próprio. Acredite, pode acontecer.

15º - Não se envolva em mails em cadeia e não eternize o sofrimento. Não exceda os dois mails. Está do seu lado, da pessoa inteligente, conduzir a conversa até onde bem entender.

15º - Todos os mails de todos os imbecis que conhece devem ser religiosamente guardados porque, no caso de vir a ser necessário defender-se deve de os usar como prova. Não hesite!


Capítulo III
Quando os estupores atacam pessoalmente

16º - Antes de mais, mantenha sempre o controlo. Não se finja surpreendida mas também não seja simpática. Erga o pescoço, mantenha o queixo hirto, olhe de cima para baixo. É proibido sorrir. Um sorriso hoje, dois amanhã e o palerma achará que já são amigos.

17º - Nunca pare. Continue sempre o seu caminho ou que estava a fazer. Mostre que tem uma vida, que está ocupada e não que tem tempo para conversas de circunstância. Torne evidente que ele não tem nada para lhe dizer que interesse.

18º - Nunca cumprimente com beijos e considere se um aperto de mão é merecido. Lembre-se que está a tocar numa mão que facilmente poderá estar conspurcada. O ideal será um aceno de cabeça e um voltar de costas com o nariz empinado sobre o ombro.

19ª - O mais importante num contacto pessoal é a linguagem corporal. Mesmo que não profira uma palavra, o seu corpo dirá o que está a sentir e a pensar. Por isso, foque os olhos do otário, e nunca desvie. Ele que o faça primeiro. Enfraqueça-o. Mantenha o tronco direito e não gesticule porque irá demonstrar um nervosismo vencedor para o adversário. Cerre os lábios. E quando falar seja duro e nunca mude de tom. Mas não exagere. Pode criar uma tensão inversa e excitar o estuporzinho. E vai querer tudo menos viver com a recordação de uma erecção, à sua conta, do maior estupor à face da terra.

20º - Caso ele até simpatize consigo, mantenha a altivez. Não ceda. Caso ele nutra, igualmente, os mesmos sentimentos de asco por si, mantenha o duelo justo e não tente inverter a psique do adversário... Ou quem acabará excitado é você.

21º - Nunca aceite números de telefone, mails, presentes, sorrisos ou qualquer tipo de convites. Mais tarde irá pagar a factura.

22º - Finalmente, lembre-se daquele princípio zen, dito por um daqueles senhores que vestem camisas de dormir e meditam um horror de séculos para serem boas pessoas: tudo o que damos recebemos de volta. E todas as pessoas com quem fomos filhos da mãe, acabam por se cruzar no nosso caminho, mais cedo ou mais tarde e, na próxima vez, podemos estar nós na mó de baixo e os sacaninhas na mó de cima, calçados com uns high heels da Louboutin de 15 cm a perfurarem-nos as órbitas em menos de nada.

23º - Nesse dia sorria... e corra.




terça-feira, 16 de julho de 2013

A mulher mais feia




Sou a mulher mais feia do mundo.
A mais feia entre todos os feios e bonitos e entre aqueles que nem são nem deixam de ser.
Sou a mulher mais feia entre os vivos e os que já morreram.
Nunca mais existirá sobre o mundo uma mulher tão feia como eu.
Sou mais feia do que a imagem que vejo de mim ao espelho e sou mais feia que aquilo que os olhos dos outros vêem.
Sou a mulher que consegui ser e a mulher que os outros fizeram de mim e, juntos, fizemos com que eu seja a mulher mais feia do mundo.
A vida que levei, aquela que traço na mente, aquela que na realidade vou ter, fazem-me feia.
As pessoas, as vidas, as histórias, as quedas, os caminhos, todos eles, me farão mais feia do que já sou.
Nasci feia.
Fui criada feia.
Assim hei-de continuar a viver.
Assim hei-de morrer.
Morrerei feia, de feia que sou.
Sou tão feia.
Mais feia que aqueles que pecam, e matam, e mentem, e roubam, e se acobardam.
Sou tudo mais que isso porque sou feia por dentro e também sou feia por fora.
Sou feia de dentro para fora, mais do que alguma vez foi possível conceber.
Nas muitas maneiras que há de ser feia, eu sou.
Sou feia até por me achar feia.
Por me culpar.
Por não aceitar, por sofrer, por me ferir, por desistir.
Sou feia por não me aceitar.
Com os meus pensamentos feios enegreço-me mais.
Nas minhas palavras queimadas de fel fico ainda mais feia com tanto amargor.
Fico azeda e varada.
Não há, nem nunca houve, no mundo uma mulher mais feia do que eu.
Nunca mais haverá.
Morrerei sabendo que depois de mim tudo será melhor e que as mulheres feias não mais existirão.
Porque eu fui, um dia, a mulher mais feia do mundo.




sexta-feira, 12 de julho de 2013

Porque respiras?

Roberto Falk


Não te sentes só?
Ou sozinho?
Não te sentes muito sozinho?
Longe do que são os outros?
Daquilo que os outros conseguem ser e tu não?
Não te cansas desse vazio?
De viver numa moldura com essa imagem distante, estática?
Não pensas, de vez em quando, em acabar com esse sofrimento silencioso?
Acabar com esse vazio que sentes aí dentro?
Quantas vezes te questionas sobre a razão da vida?
Dessa vida, assim, sem destino nem razão de existir?
Nunca pensaste, por breves segundos que fosse, em conhecer os limites da vida?
De tentar chegar àquele ponto limite em que quase não se pode voltar para trás?
De sentir a ponta dos pés apoiados numa linha muito fina, prestes a quebrar-se, e mesmo assim ficares ali a veres o que dá?
Quantas vezes já tentaste deixar de respirar, aos poucos, para ver o que acontecia a seguir?
Não te apetece conhecer o silêncio que vem depois?
Não sentes paz quando imaginas esse momento de silêncio?
O que te impede de passares o limite e conheceres o que vem depois de libertares o último sopro?
O que é que te impede?
É o mesmo que te impede de viver?
O mesmo que te impede de sair da tua imagem estática para te juntares ao quadro onde está a vida dos outros?
Porque não tentas agora?
Porque não abrandas a respiração, acalmas o pulso e te deixas ir, sem turbulências?

Anda, experimenta.
Pára de respirar uns segundos e não desistas.
Espera até ao silêncio que vem a seguir.
Nesse silêncio compreenderás a vida que deixaste.




terça-feira, 9 de julho de 2013

No dia em que te abandonei



No dia em que te abandonei,
Tinham morrido em mim todas as esperanças,
Todos os prazos adiados.
Tinham-se findado as expectativas de mudança.
Não tinha mais fé em ti.
No dia em que te abandonei,
Tinhas desistido de me fazer viver.
Abandonei-te por me teres abandonado a mim.
Nesse dia não mais chorei.
Desisti de me debater.
Não sobrevivi.

No dia em que te abandonei,
Já tu me tinhas deixado.
Há muito tempo me tinhas deixado.
Já eu não apaixonava recordações.
Havias-me largado numa vala profunda de solidão,
Presa entre penhascos e ermos nublados,
Deixaste-me sozinha e infeliz.
Também tu não mais sorriste.
Quiseste tarde lutar por mim.

No dia em que te abandonei,
Relutante em te largar,
Chorei sem lágrimas nem dor.
Abandonei-te no limite da desesperança.
Esperava que no teu próprio desalento lutasses,
Que reconheces que não existes sem mim.
Que contra a minha própria vontade desisti.
Esperava-te ver como salvador.
No dia em que te abandonei morri por dentro.
Sei que nesse dia também morri para ti.



segunda-feira, 8 de julho de 2013

Hoje não, honey!





Querido, hoje não quero idas ao cu.
Olha-me de lado, chama-me nomes em voz baixa (dentro desse cérebro retardado) roga-me pragas se quiseres.
Imagina-me a mais podre das putas a quem dás umas nalgadas, com essas mãos murchas, e que mesmo assim não cede.
Faz de mim o que quiseres em pensamentos mas, da boca para fora, vê se te controlas porque hoje não estou pra merdas. Não te aturo vai pra cima de uma eternidade, por isso, não vale a pena prolongares o que já não tem fim. Acaba com a tua sofreguidão de me foderes porque hoje, daqui, não levas ponta.
É verdade, sim, dou-te razão. Hoje até era o dia em que podia ter acordado a achar piada a essa tentativa de me enrabares com os olhos e com o pensamento, mas és tão frouxo que nem essa pica me dás. Logo hoje, que já acordei tão dorida. Uma pena. Tiveste mesmo azar.
Mas não insistas. Bem sei que eu podia achar graça a essa espécie de perseguição que me fazes, ver isso como assédio,  sentir vaidade nessa rebarbadice, mas acredita que não acho. Vê bem que, por vir de ti, nem isso acho. Capacita-te que não vai dar.
Hoje, honey, estás fodido cá pró meu lado.
Hoje, não te vou dar o cu.
Não dou, não dou, não dou.
Vai procurar outro mais mole, mais flácido e mais receptivo a encavadelas sonsas e sem tesão, porque o que não falta por aí são seres a gostar de ser papados. É que dá menos trabalho ser papado que papar, 'tás a ver?
Estás, claro que estás. Que essa arte para gostar de saltar para cima dos outros teve de vir de muitos anos a servir de alvo em vez de ser o atirador.
Lembras-te quando eras tu o encavado?
Fazes por esquecer, bem sei, porque quando se apanha o gosto de estar por cima já não queremos saber como era estar por baixo. 

Mas tenho boas notícias para ti, e olha que nunca tinha tido.
Quero que saibas que, quando me quiseres encavar à grande, com categoria e sem me deixar a mínima hipótese, ganha talento  e eu reconhecê-lo-ei.
Nem vou usar a puta da dor de cabeça como desculpa.


Até lá, mete-te no teu lugar, pára de me cheirar o cu e escolhe outra menos corrosiva e mais submissa para o entalares.




quinta-feira, 4 de julho de 2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Não percebi a piada




(ver até ao último segundo, onde tudo faz sentido)



A um palhaço, a um comediante, àquele amigo bem-disposto, uma pessoa perdoa tudo. Perdoa tudo menos que não tenha piada. Aquela piada que se espera de quem é um profissional de piadas. Por isso, se estão numa de contar piadas, pelo menos que as contem bem. Que nos convençam que depois da piada vamos largar uma valente gargalhada.
Se não se sentem capazes de enfrentar um público com a atitude que este espera, então não subam ao palco. Quando não se está a trabalhar bem a melhor atitude é mesmo sair de cena. Abandonar o palco. Um dia, nesse dia, não haverá o espectáculo de todos os outros dias, porque o artista já não se sente capaz. Sempre é mais digno que ser apupado e empurrado à força para fora do palco. Mas não deixa de ser mau, afinal de contas, pagou-se bilhete, organizou-se a vidinha para ir passar um bom serão, alinha-se o estado de espírito com o estado de espírito do espectáculo de entretenimento que se vai ver, e a malta não se quer sentir defraudada. Não pode haver falhas. Porque no fim do espectáculo, se este não correr bem, o artista já tem o cachet no bolso e já não há verba para devolver o preço dos bilhetes.
Mas quantas vezes que isto nos tem acontecido?....
Pagamos, pagamos, pagamos, mas o artista sai de cena e nós ficamos a arder com o dinheiro do bilhete. Espectáculo de piadas nem vê-lo. É uma desilusão. Nem à piada final tivemos direito para nos podermos esquecer como o resto foi mau.
É como ir jantar fora a um sítio fino e só se safar a sobremesa. Até perdoamos que o resto da refeição tenha sido medíocre.
Ou como ir ao cinema: se o final do filme for bom, até nos esquecemos das duas horas anteriores de puro sofrimento e agonia sem compreender a genialidade do autor que fez um filme só para satisfação pessoal.
Parece que, nos dias que correm, já ninguém se lembra desta velha teoria de que um bom final salva um mau início.
As pessoas até podem aceitar fazer sacrifícios, levar com uns abanões, ter vómitos, penhorar a casa mas no fim, mesmo no fim disto tudo, a coisa vai ter de correr muito bem. Em algum momento vai ter de correr bem. Vai ter de haver a piada no final que salva isto tudo. Vai ter de haver um Parfait de chocolate com spuma de champagne servido por um empregado sueco que nos olha para o decote. Vai ter de haver um beijo na boca em bicos dos pés com a Torre Eiffel como pano de fundo, antes do The End.
Nós aceitamos um mau espectáculo se no fim a saída for em beleza.
Já chega de subidas e descidas de pano, de vergonhas e embaraços, de constrangimentos da nossa e da vossa parte. Chega de ter pena dos artistas por passarem a vida a levar com tomates e ovos podres nas trombas e mesmo assim continuarem a subir ao palco.
Pronto, já chega!
Contem lá a piada e sigam com a vossa vida, por favor.