domingo, 30 de junho de 2013

Amanhã...



Amanhã, quando chegares, pula do comboio com euforia.
Salta para a gare com os braços abertos e corre até mim.
Vais-me ver a sorrir, como sempre vês.
Sabes bem porque sorrio para ti.
Porque me fazes sentir mais jovem que nunca.
Fazes sentir que os amores desenfreados da adolescência chegaram agora.
Que vieram num comboio sem paragens, acelerado.
Sei que também me irás sorrir.
Que vais dar sentido ao momento e mostrar-me porque gosto tanto de ti.
Vais-me fazer repetir-te que te amo, em segredo, ao ouvido.
Como se o quanto te amo ainda fosse segredo para alguém.
Amanhã quando saíres do comboio, corre.
Há em mim um beijo urgente para te entregar.




quinta-feira, 27 de junho de 2013

O motim



No dia em que os reclusos quiseram fazer um motim, deram liberdade entre si para decidirem participar ou não participar. Chamavam-lhe o direito a manifestarem-se ou o direito a não se manifestarem. O breve momento de gozar de liberdade dentro do lugar onde sabiam não ter qualquer liberdade.
Há muitos anos que era assim. Nas horas de recreio ou à hora de almoço no refeitório, falavam sorrateiramente entre si, apenas com os cantos da boca, e traçavam planos para o dia do motim. Começavam em tom baixo, falavam com olhares e depois ganhavam tamanho e adensavam-se murmúrios. O ambiente ficava nervoso e, mesmo quem optava por não participar, sentia no ar a turbulência dos planos.
Dias antes do motim, ouviam-se ameaças veladas entre celas. Os reclusos mais indignados largavam frases de insatisfação sobre quem decidiu não se meter. Ameaças sobre aqueles que, dentro do código de liberdade que tinham procurado instituir, optaram por se excluir. Legitimamente, excluir.
Mas dentro daquela prisão a liberdade passava por dias de penumbra.
Há muito que a liberdade se avizinhava ameaçada mesmo sem que alguém o notasse e, a cada motim, ficavam mais evidentes os rancores entre os reclusos. Apesar de terem instituído entre si que ninguém seria obrigado a participar, aqueles que se juntavam ao motim começavam a julgar os outros. Entre celas comentava-se que este ou aquele fulano, que até eram os que mais razões teriam para se manifestar são, afinal, os que se deixaram ficar. Uma vergonha! Passavam a ser olhados de lado, a ser motivo de desconfiança e a merecer comentários cobardes.
Há muito que a ameaça sobre a liberdade se tinha tornado realidade e não apenas uma possibilidade.
No dia do motim, os que se quiseram juntar a ele, lutavam. Deram a cara e o corpo aos confrontos na prisão. Uns saíram feridos, desasados, outro ilesos mas de convicções partidas. Uns não hesitaram em acreditar que conseguiriam o que queriam, outros desanimaram, lá no fundo do combate, por anteverem que de nada valeria o motim enquanto alguns companheiros se mantiverem à parte.
A liberdade de uns estava a ser esmagada pela liberdade dos outros. E a intolerância de quem participou ignorava o direito ao silêncio dos que se mantivessem nas celas.
Depois do motim, não restou nada.
Não restou, sequer, uma moral da história. Algo que se tivesse aprendido com a ignorância do conflito. Algo que em vez de ter servir de escudo pudesse passar a servir de arma.
Depois do motim, os guardas prisionais estavam contentes. Satisfeitos com os resultados. Muitíssimo satisfeito com o facto de os reclusos, depois de tantos motins, continuarem sem perceber porque não resultam eles. Por continuarem a não tirar numa lição de cada motim que acaba em nada.
Os guardas riam dos tolos que, ao fim de um dia inteiro a combater sem armas nem estratégias, acabam, voluntariamente, por voltar às celas. Que no fim demonstraram as mesmas fragilidades e necessidades básicas dos restantes dias. Acabariam a rir-se, ainda mais, na manhã seguinte, quando os reclusos saírem das suas celas como se nada se tivesse passado e se voltassem a cumprimentar entre si.
Até ao próximo motim não se ouvirão impropérios nem ofensas.
No dia seguinte, quando os guardas fizeram contas, perceberam que lhes compensou o motim. Porque as greves de fome lhes pouparam as refeições, porque as brigas os fizeram esquecer do vício do tabaco, porque se gastou menos electricidade e água com os castigos que, posteriormente, cumpriram.
Contas feitas, o motim serviu aos guardas mas não deu nada a quem dele participou.
De fora, o que os guardas viram foi apenas uma luta entre os próprios reclusos. Sem eles se darem conta, lutaram apenas entre si. Contra si mesmos. Contra os que ficaram dentro das celas e os que quiseram ficar fora delas.
Os guardas riram, mas não achavam graça aos reclusos que se mantiveram nas celas por suspeitarem que esses poderiam estar perto de perceber o que eles já sabiam: enquanto não se respeitar a liberdade das decisões dos homens, de nada terá valido a pena lutar por ela.




quinta-feira, 13 de junho de 2013

Eu sou mais que um blog



Pelos vistos não estava claro que:


- Se eu quisesse dizer quem sou, enquanto autora deste blog, dizia. 
- Não o fiz.

- Se eu quisesse promover-me e promover os blogs que tenho, fazia-o.
- Não o fiz.

- Se eu gostasse de falar com quem me conhece, sobre o blog, fazia-o.
- Mas não o faço.

- Se eu quisesse dizer à minha família que tenho um blog, dizia.
- Mas nunca, nunca, disse.

- Se eu quisesse que a minha família me viesse fazer perguntas, pedir explicações e vasculhar, sobre o que escrevo... em vez de ter um blog, escrevia-lhes cartas todos os dias.
- Não o faço.

- Se eu achasse bonito os meus pais ouvirem-me dizer ou escrever "caralho", "foda-se" e "puta", dizia-lhes.
- Mas nunca disse.

- Se eu não conhecesse a diferença entre aquilo que um pai pensa que um filho é, e aquilo que um filho realmente é, então não teria um blog onde escrevo como mulher para ter antes um blog onde escrevesse como filha.
- Mas não tenho.

- Se eu não conhecesse os limites da boa educação e decoro que se deve ter para com um pai, tinha-lhes exibido este blog com orgulho.
- Nunca exibi.

- Se eu achasse que os pais têm de saber tudo sobre a vida dos filhos, não me teria importado que me lessem os diários na adolescência.
- Mas importei.

- Se eu estivesse numa posição justa e soubesse das venturas e desventuras de todos os que vêm até aqui para me ler, aceitaria que andassem a espalhar as minhas, à minha revelia, junto dos meus.
- Mas não estou.

- Se eu fosse só uma personagem por trás de um blog não me importaria que falassem de mim.
- Mas não sou.


Desculpem-me, mas não tenho assim tanto orgulho na minha inteligência e no que escrevo para andar a falar no blog por aí, por isso, não tomem essa iniciativa por mim.




quarta-feira, 5 de junho de 2013

Torradas com chá


Falava com uma amiga sobre a questão de existirem tantas mulheres interessantes sem parceiro. E sobre a questão do tempo se estar a esgotar para elas e, elas, terem de correr cada vez mais para apanhar um comboio que teima em não parar, com a incógnita de não saber se algum dia ele irá parar de facto.
Caímos na questão da injustiça desta perseguição do tempo às mulheres. Da injustiça de uma mulher - das super mulheres, sobretudo - não encontrarem quem queira desfrutar da sua perfeição.
Mas não existem mulheres perfeitas. Ponto. E nós não o somos, de todo, apesar de gostarmos de pensar que sim e de pensar que não existem razões no mundo para alguém não nos querer. 
Já os homens também não são perfeitos mas tendem a reconhecer ou aceitar isso com mais facilidade. Ou então, simplesmente, não pensam no caso.
Posto isto, todos percebemos que nenhuma das duas incógnitas da equação é perfeita. Então, pergunto eu, para quê querermos ser perfeitas? Para agradar a quem?
Talvez sejamos formatadas de pequeninas com a conversa inofensiva de sermos princesas, de brincarmos às casinhas, de termos bebés para alimentar, pôr a dormir e mudar as fraldas, de termos pequenos trens de cozinha para fazermos comida de brincar, por nos responsabilizarem "se queres um cãozinho é para tomares conta dele" e outras mil e uma coisas que se incutem, irreflectidamente, na educação das meninas.
Talvez.
Lá falámos da minha experiência dos tempos em que lutava para que gostassem de mim por ser a super mulher e, claro, falámos da fase distinta em que ela se encontra. Aquela fase em que ainda não encontrou respostas para o facto de ser fantástica mas estar sozinha.
Eu, do alto da minha psicologia de trazer por casa, e depois de ter percebido que isto de ser super mulher não leva a lado nenhum nas relações com quem quer que seja, lá lhe disse que ela se esforça demais e quando nos esforçamos demais, nota-se.
Podemos saber fazer tudo numa casa e no trabalho, sermos o pilar da nossa família, sermos as melhores amigas que alguém pode ter, sermos ricas, sermos giras, sermos magras, sermos altas, sermos inteligentes, sermos uma bomba na cama e umas madames à mesa... Mas se nos esforçamos demais essas "vantagens" desvanecem-se na dúvida de quem nos olha como impossíveis de alcançar.
Uma vez disseram-me que eu metia medo aos homens por causa do meu excesso de confiança (óh céus, qual?) e por saber fazer tudo. Porque um homem não quer uma mulher que saiba fazer tudo, um homem também quer uma mulher para proteger. Para poder dar a mão e para poder partilhar algumas coisas.
Tão verdade.
Aceitei o que me disseram e deixei de mostrar as cartas todas no primeiro jogo, para que vissem o lado emocional,  carente, feminino e sensível que eu, obviamente, tinha.
Deixei de querer ser super mulher.
Deixei de me esforçar demais.
Ninguém nunca me pediu para eu ser mais do que era. Era apenas a minha cabeça a vender-me a ideia de que eu não era boa o suficiente. Mas somos todos o suficiente (ou até mais do que isso) para alguém.
Sobretudo, percebi, vi, experienciei que, quem ama, quem se apaixona perdidamente por nós, quer tudo menos que corramos maratonas pelo seu amor e atenção. Tem de ser uma troca natural e mútua.
Se estão a correr demais é porque o objectivo se está a afastar em vez de vir ao vosso encontro.
Eu preferi deixar de correr atrás e percebi que o ideal é que os dois corram à mesma velocidade até convergirem no mesmo ponto.
Deixei de querer ser a super mulher.
Ganhei o super homem (bolas, os super homens também não existem, não é? Ganhei o Batman, vá).
Percebi desde o início que tínhamos a mesma pedalada e que íamos chegar juntos ao mesmo sítio.

Agora de onde é que vem a história das torradas com chá?

No dia em que o Batman entrou porta adentro, eu quis mostrar que era a super mulher (ainda quis, sim). Arrumei a casa, mudei a roupa da cama, perfumei o ambiente e preparava-me para fazer o jantar que ele desejasse. Mesmo o mais impossível e difícil dos jantares.
Perguntei-lhe, cheia de atenção, o que queria ele que eu fizesse para jantar.
E ele respondeu, cheinho de carinho a transbordar pelos seus olhos doces:
- Umas torradinhas com um chá, amor, para comermos juntinhos no sofá.

...

Não dêem demais.
Eles não exigem nada de nós.
Querem apenas, e exactamente, o mesmo que nós.
Tempo para nos desfrutarem, para conhecerem as verdadeiras pessoas por trás das capas, para namorarem antes que o tempo e a vida nos empurre para os inevitáveis marasmos.

Não precisamos de fazer o pino, correr, saltar e dar cambalhotas.
Afinal de contas eles só nos pedem torradas e, convenhamos, somos sempre nós a exigir o caviar.