quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A tua pele. A tua mortalha.





Ontem quiseste morrer por todos os desgostos que sentias. Primeiro amargurastes os olhos de lágrimas. Os pensamentos encheram-se de interrogações. As mãos não se despregaram da cabeça, comprimindo-a, como se assim encontrasses uma solução. Depois veio o álcool. Encharcaste-te no vapor do Gin, do Whisky e de um velho Porto, que religiosamente guardavas para um momento importante. Ontem nem era esse momento e tu sabia-lo, mas os pensamentos toldados não te permitiram obedecer a qualquer critério. Ainda foste mais bruto e terminaste com todo o vinho que tinhas em casa. Rendeste-te de exausto à tua cama, que insistia em rodopiar sobre o tecto. Despiste-te do frio e repousaste nu, de roupas e de pensamentos, sobre aqueles lençóis que gritavam por mudança. Evadiste-te de ti por instantes. Os instantes em que a cama ondulava por baixo do teu corpo. Aqueles breves momentos em que o álcool te deu sono em vez de estrica. Querias deixar-te morrer embriagado naquela escuridão dos pensamentos mas a vida corria-te nas veias mesmo contra  a tua vontade. Ela também te preferia entregar ao álcool e abandonar-te o corpo vandalizado mas a crueza das tuas decisões fizeram-te viver. Caído na cama, de corpo morto, com desnorte em roda da cabeça, os pés sem chão e as mãos suadas entre o papel dos cigarros que se apagavam e os copos da bebida que derramavas, observas-te com despeito. Olhas esse corpo novo, esculpido num dia de inspiração, que mal alimentas de comida mas encharcas em bebidas que te elevam aos deuses. E vês o quão pouco vales para os outros. Olhas para ti e vês ainda menos do que a realidade tem para te oferecer. Olhas-te com esses olhos semi-cerrados pelo Gin e nublados pelos cigarros e contas as linhas pretas que desenhaste sobre a tua vida. Lês com atenção as tatuagens que cravaste na tua pele num dia sem amor e relembras os momentos de dor de cada história traçada. Olhas para as mãos, para o peito, para as pernas e não encontras as histórias que querias contar porque quando as traçaste os sentidos eram outros. O amor, as memórias, a eternidade de todos os traços pintados morrerão contigo, nessa cama que roda a cada trago. Deixaste de entender porque infligiste tu um dia dor à tua pele para contar histórias que são mentiras e que de nada te servirão na noite em que os cigarros que consumirem as pontas dos dedos e pegarem fogo ao lençóis e ao colchão onde agora te deitas. Todas as lembranças e pessoas que trazes agora agarradas ao corpo não te conseguirão salvar do álcool, nem dos cigarros, nem da depressão, nem da solidão que agora vives mas vão estar sempre aí para te lembrar que lhes continuas a falhar. Vais questionar-te se as tatuagens que te cobrem o corpo contam a tua história, se te diferenciam e imortalizam, ou servem apenas para te aterrorizar e dizer, a cada instante, que, quando morreres, nenhum deles te conseguirá perdoar.




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