quinta-feira, 27 de junho de 2013

O motim



No dia em que os reclusos quiseram fazer um motim, deram liberdade entre si para decidirem participar ou não participar. Chamavam-lhe o direito a manifestarem-se ou o direito a não se manifestarem. O breve momento de gozar de liberdade dentro do lugar onde sabiam não ter qualquer liberdade.
Há muitos anos que era assim. Nas horas de recreio ou à hora de almoço no refeitório, falavam sorrateiramente entre si, apenas com os cantos da boca, e traçavam planos para o dia do motim. Começavam em tom baixo, falavam com olhares e depois ganhavam tamanho e adensavam-se murmúrios. O ambiente ficava nervoso e, mesmo quem optava por não participar, sentia no ar a turbulência dos planos.
Dias antes do motim, ouviam-se ameaças veladas entre celas. Os reclusos mais indignados largavam frases de insatisfação sobre quem decidiu não se meter. Ameaças sobre aqueles que, dentro do código de liberdade que tinham procurado instituir, optaram por se excluir. Legitimamente, excluir.
Mas dentro daquela prisão a liberdade passava por dias de penumbra.
Há muito que a liberdade se avizinhava ameaçada mesmo sem que alguém o notasse e, a cada motim, ficavam mais evidentes os rancores entre os reclusos. Apesar de terem instituído entre si que ninguém seria obrigado a participar, aqueles que se juntavam ao motim começavam a julgar os outros. Entre celas comentava-se que este ou aquele fulano, que até eram os que mais razões teriam para se manifestar são, afinal, os que se deixaram ficar. Uma vergonha! Passavam a ser olhados de lado, a ser motivo de desconfiança e a merecer comentários cobardes.
Há muito que a ameaça sobre a liberdade se tinha tornado realidade e não apenas uma possibilidade.
No dia do motim, os que se quiseram juntar a ele, lutavam. Deram a cara e o corpo aos confrontos na prisão. Uns saíram feridos, desasados, outro ilesos mas de convicções partidas. Uns não hesitaram em acreditar que conseguiriam o que queriam, outros desanimaram, lá no fundo do combate, por anteverem que de nada valeria o motim enquanto alguns companheiros se mantiverem à parte.
A liberdade de uns estava a ser esmagada pela liberdade dos outros. E a intolerância de quem participou ignorava o direito ao silêncio dos que se mantivessem nas celas.
Depois do motim, não restou nada.
Não restou, sequer, uma moral da história. Algo que se tivesse aprendido com a ignorância do conflito. Algo que em vez de ter servir de escudo pudesse passar a servir de arma.
Depois do motim, os guardas prisionais estavam contentes. Satisfeitos com os resultados. Muitíssimo satisfeito com o facto de os reclusos, depois de tantos motins, continuarem sem perceber porque não resultam eles. Por continuarem a não tirar numa lição de cada motim que acaba em nada.
Os guardas riam dos tolos que, ao fim de um dia inteiro a combater sem armas nem estratégias, acabam, voluntariamente, por voltar às celas. Que no fim demonstraram as mesmas fragilidades e necessidades básicas dos restantes dias. Acabariam a rir-se, ainda mais, na manhã seguinte, quando os reclusos saírem das suas celas como se nada se tivesse passado e se voltassem a cumprimentar entre si.
Até ao próximo motim não se ouvirão impropérios nem ofensas.
No dia seguinte, quando os guardas fizeram contas, perceberam que lhes compensou o motim. Porque as greves de fome lhes pouparam as refeições, porque as brigas os fizeram esquecer do vício do tabaco, porque se gastou menos electricidade e água com os castigos que, posteriormente, cumpriram.
Contas feitas, o motim serviu aos guardas mas não deu nada a quem dele participou.
De fora, o que os guardas viram foi apenas uma luta entre os próprios reclusos. Sem eles se darem conta, lutaram apenas entre si. Contra si mesmos. Contra os que ficaram dentro das celas e os que quiseram ficar fora delas.
Os guardas riram, mas não achavam graça aos reclusos que se mantiveram nas celas por suspeitarem que esses poderiam estar perto de perceber o que eles já sabiam: enquanto não se respeitar a liberdade das decisões dos homens, de nada terá valido a pena lutar por ela.




4 comentários:

  1. Sim senhora... Se não é o primeiro, é dos primeiros textos políticos que escreves. E que bem que saiu! Parabéns.

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    1. Vendo bem, e assim de repente, já escrevi sobre duas personagens políticas (que não sei se será o mesmo que escrever sobre política).

      http://www.diascaes.blogspot.pt/2011/03/queda-de-socrates.html

      http://diascaes.blogspot.pt/2013/05/o-padre-da-minha-aldeia.html

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  2. Muito bom. Gostei da analogia. Uma pergunta - as fotos são dos responsáveis pelo crime que originou o livro do Capote?

    R.

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    1. Confesso que fui obrigada a ir confirmar.
      E sim, parece que sim.
      Já aprendi alguma coisa hoje.
      Obrigada! :)

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