quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O teu coração é de louça




Por vezes o teu coração quebra-se.
Não se quebra de dor. Não se quebra de perda.
Não se deixa sofrer pela ausência de ti mas pela presença sofrida que és.
O meu coração quebra-se também por não conseguir concertar o teu.
Bem vês, bem sabes, que o meu coração se desmancha em cacos de louça triste, quando o teu chora as peças soltas que não consegue concertar dentro de ti.
Queria eu poder colar-te os cacos. Queria eu que esses estilhaços se aguçassem antes dentro de mim. 
Se lançar-me de asas abertas sobre ti te salvasse a vida... Tantos bateres de asas teria eu já consumado...
Quantas peças teria eu juntado...

Mas temo que ao bater as minhas asas contra as tuas, te quebre ainda mais a porcelana fina de que se revestem os teus sentimentos.
Receio bem que, o bem que te quero, te roube aos poucos o ar que precisas para poderes abrir asas e voares sozinho.

Diz-me, meu amor, como posso eu salvar-te dessa infelicidade que alimentas dentro de ti, sem te invadir e tocar o coração?



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Nascimento



Violando os olhos de promessas, cresceram-lhe aflições nas mãos.
Desejando possuir o que não tinha, de dar tudo o que não podia, encharcaram-se-lhe as faces de dores por todos os pesares que não compreendia.
Eram punhados de palpitações em cada fechar de olhos, por não ter o que dar, a quem tanto o merecia.
Atrocidades contorcidas, nas profundezas da consciência que não era sua, gritava de medo e de vergonha por um bem que não podia partilhar. De tristeza atroz por não ter mais o que dar.

Naqueles dias de felicidade, que turvamente assistia existirem noutras vidas, lamentava que estas não fossem a sua e indagava, nos confins dos seus pensamentos, razões para tão grande sofrimento. Questionava-se porque razão o amor que sentia ali não lhe era retribuído no mesmo tom.

Por não encontrar a resposta, aos vinte e cinco dias do último mês debruçou-se sobre si e desejou que a morte a levasse. Não lhe restavam esperanças de abrir os braços e ter mais o que dar a quem tanto lhe deu. Abriu antes as pernas e deu a todos o que com tanto amor criou.
Largou aquele que tinha nascido de si à sorte dos que haviam de um dia muito bem lhe proporcionar. Na noite em que o menino lhe encontrou os braços, ela largou-o ao mundo. Aquele mundo que um dia tudo lhe havia de dar. Mal sabia ela que das maldades desse mundo também um dia a vida lhe haviam de roubar.

No dia em que o menino nasceu o céu pôs-se negro sem que a noite tivesse pousado e a estrela que se acreditou cadente não mais o rasgou.
Acabaram-se os dias, as noites e a vida da mulher que o pariu com amor mas não tinha mais o que lhe ofertar. Entregou-o a quem um dia o amou e logo depois o conseguiu matar.


Quantas pessoas haverão que, querendo dar tudo aos que amam, não mais têm para dar que esse amor que alguns desses abastados desconhecem?



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As mil saudades de ti




Tantos dias vivi sem te amar e tantas noites me amargurei por não te ter. Por não saber que existias. Antes de te ter em mim, fechava os olhos e imaginava-te minha, sob a minha cama e nos meus braços, mesmo sem te conhecer o rosto, para pouco depois despertar na dureza da verdade e os olhos voltarem a sofrer. A vida antes de ti era um vazio pegado, trancado por palavras mudas. Doíam-me os passos sobre o chão por ainda não conhecer os caminhos até ti. Tudo em mim tinha o peso avassalador de uma morte prolongada.
Volvidos anos de solidão, caíste-me aos pés num dia em que nenhuma de nós o esperava. Cismamos palavras saídas de lábios e rendemos olhares por longos instantes.
Quedei-me tua, esperei que te fizesses minha. Esse dia nunca chegou.
De palavras fugidias e pensamentos ancorados a um passado obscuro, o medo colheu-te os gestos e nunca te entregaste a mim. E um dia, um dia foste sem nada dizer.
Partiste sem despedidas, tantas vezes quantas aquelas que eu disse que te amava. Pesavam sobre ti as palavras de amor. Fugias sempre a cada bater de peito que não entendias. A cada pensamento sobre mim que preferias ignorar. Tinhas medo do amor. Tiveste sempre.
Os dias longe de ti, quando te exilaste num silêncio agudo, deixaram-me oca e com esperanças vãs de te voltar a ter. Fiz-te um adeus sentido, como aquele que te faria se te soubesse morta. Acenei-te como se te visse afundar, lentamente, num mar negro. Profundo.
Olhei esse chão de águas mortas, de lágrimas secas no rosto. Já não choro mais a ausência que me quiseste dar de ti.
Sei que não voltarás, meu amor.
Sei que não voltarás.





segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Quero ser Miss!




Enquanto pensava em escrever qualquer coisa adequada a esta época do ano, dei por mim a desenrolar um lista de pedidos à escala universal. Dei por mim a pensar na quantidade de coisas que gostaria de mudar no mundo.
Senti-me uma verdadeira Miss Universo a desejar o fim da fome e o cessar das guerras entre os povos.
Afinal de contas isso é que é ser Miss Universo. Se pensasse só na vizinha que não tem uma manta para lhe aquecer as pernas seria apenas Miss do meu Bairro e isso não é para mim.
Eu penso em grande.
Por isso avancei com este grandioso e ambicioso sonho.
Para este Natal só quero coisas dignas de uma Miss Universo.

Assim, este ano vou querer:

- Que não durmam pessoas na rua. 
Há quem esteja nas ruas porque quer (por mais que isso me custe a entender) mas há muitas pessoas que vivem e dormem nas ruas por falta de alternativas. Para essas pessoas desejava que o mundo mudasse e que tivessem uma oportunidade para se erguer. Ninguém nasce vagabundo e com certeza ninguém o deseja ser. Gostava mesmo que houvesse uma esperança para estas pessoas.

- Que quem quer bebés os consiga ter.
Tantos homens e mulheres que os querem ter mas não os têm. Por infertilidade, falta de recursos, falta de parceiro, por orientação sexual, por tantos e tantos outros motivos. Desejava que todas as pessoas que desejam filhos os pudessem ter e vivessem a alegria de os amar.

- Que sejamos todos aceites nas nossas opções.
Que todos os travestis e transexuais e transcoisos (desculpem lá, e vou voltar a repetir-me, mas para mim são pessoas e nem sei de onde vem estas designações todas) possam sair da escuridão e possam andar lado-a-lado com todas as pessoas, à luz do dia, nos mesmos restaurantes, centros comerciais, bibliotecas, igrejas e todos os sítios do planeta que nós, os designados de "pessoas normais", frequentamos (e agora, se eu não fosse Miss, dizia foda-se. Indignam-me mesmo estas distinções. Mas como sou Miss não vou dizer).

- Que não se abandonem idosos.
Mata-me a ideia de pessoas idosas estarem completamente sozinhas, independentemente de terem familiares ou não. Imagino a dor que é estar sozinho, perdido no tempo e no silêncio, dias, semanas, anos a fio sem conhecer o carinho de alguém.
Por vezes penso que nem todos os velhos foram jovens ou adultos decentes. Que podem ter sido os maiores mete-nojo desta vida. Ainda assim, fico transtornada.
Dentro de uma vida há muitas vidas e ninguém merece viver a velhice na solidão.

- Que os doentes se curem.
A minha felicidade também depende disso. Ou uma parte da minha felicidade, vá. Creio que muitas pessoas reconhecerão que se não existissem doenças todos viveríamos mais felizes, sem espadas sobre a cabeça. Directa ou indirectamente, as doenças já entraram nas vidas de todos nós e o que sabemos disso é que nunca foi para trazerem felicidade.

- Que as pessoas que andam desaparecidas, apareçam.
Os que querem aparecer e os que não querem: digam qualquer coisa.
Os que querem voltar, voltem. Possivelmente serão menos julgados do que pensam.
Os que não querem voltar (e não nego que haja pessoas que desaparecem por sua iniciativa) fica o recado: malta, pelo menos mandem um postal a dizer que são uns filhos da mãe e que têm outra família e mais dez filhos para criar, mas pelo menos a pessoa tira daí a ideia e escusa de andar a fazer luto.
Aos que desapareceram e não podem aparecer de todo... nem sei que diga... tiro a minha tiara de Miss e rendo-me: é um golpe demasiado duro para quem espera eternamente sem saber o que se passa do outro lado do pano.

- Que deixem de haver animais abandonados.
Para mim, animais ou pessoas a viver nas ruas, custa-me na mesma medida.
Não sou das que dá beijos na boca dos cães e muito menos das que dorme com gatos mas gosto de bichos. De todos eles. E quando há pessoas que escolhem os animais que julgam ser dignos para si, só penso que é uma pena os animais não poderem escolher os donos que mereceriam.

- Que todos os mortos tenham um fim digno.
Se há coisa que me faz confusão é a quantidade de pessoas que morre e que ninguém da família dá conta. Nem falo só dos velhinhos que morrem sozinhos em casa mas falo também de corpos que são encontrados e cujas fotografias vão parar ao site da PJ à procura de alguém que os reclame.
Isto é absolutamente triste. Não nascemos sozinhos. É triste que alguns de nós acabem por morrer assim.

- Que todos façam o amor.
Esta é do coração.
Façam amor.
Pratiquem o amor.
Façam amor sob todas as formas que conhecem. Não apenas essa que vos passou pela cabeça.
Com amor, tudo o que desejei em cima, fica mais fácil de conquistar.




sábado, 15 de dezembro de 2012

Oração aos que fodem






Fodei todos, senhores, fodei.
Fodei-vos a vós, a nós e aos outros.
Fodei com o corpo, a alma e os pensamentos.
Fodei os rabos, os nabos e os grelos.
Fodei com palavras, gritos e gemidos.

Levantei esses Santos entre pernas.
Penetrai damas, vadias e donzelas.
Abençoai todas as fodas em cadelas.
Não temeis as doenças venéreas.

Fodei todos, senhores, fodei.
Fodei-vos a vós, a nós e aos outros.
Fodei com o corpo, a alma e os pensamentos.
Fodei os rabos, os nabos e os grelos.
Fodei com palavras, gritos e gemidos.

Comei-vos à grande e sem receio.
Descubrais a beleza de um traseiro.
Batei punhetas quando não tenhais um grelo.
Metei dedos quando vos faltar o fuzileiro.

Fodei todos, senhores, fodei.
Fodei-vos a vós, a nós e aos outros.
Fodei com o corpo, a alma e os pensamentos.
Fodei os rabos, os nabos e os grelos.
Fodei com palavras, gritos e gemidos.

Conspurcai as mentes puritanas e papais.
Caiam barreiras e filosofias morais.
Coroai-vos reis e senhores da devassidão.
Amai-vos e fodei-vos no esplendor do tesão.

Fodei todos, senhores, fodei.
Fodei-vos a vós, a nós e aos outros.
Fodei com o corpo, a alma e os pensamentos.
Fodei os rabos, os nabos e os grelos.
Fodei com palavras, gritos e gemidos.


Assim seja!





sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Rapariga procura homem

Fotografia de Jon Gavin para Black Velvet



*
Meia-noite em ponto.
A tranquilidade que sentia não lhe era comum. Costumava sentir-se zonza uns minutos antes da meia-noite e os tremores e suores apoderavam-se dela até ao momento em que voltava a ficar sozinha.
Estranhamente, hoje, sentia-se tranquila. 
Quatro horas antes tinha recebido um telefonema que a tinha deixado assim. Sem medos. Sem pressas. Sentiu-se serena e, pela primeira vez em muito tempo, pouco culpada. Do outro lado do telefone, ele dizia-lhe com rigor tudo o que pretendia para que, quando se encontrassem, não se perdesse tempo em hesitações e amadorismos. Não mostrou arrogância nem autoritarismo, apenas alguma firmeza que a ela lhe trouxe segurança.
Depois do telefonema passou o tempo todo a preparar-se para aquele momento especial. De algum modo sentia que seria uma oportunidade única e irrepetível e nem conseguia racionalizar porquê.
Preparou três conjuntos de lingerie. Escolheu três pares de sapatos com salto agulha a condizer. Maquilhou-se. Perfumou o ambiente. Limpou as correntes, a trela, a coleira e a chibata. Por alguma razão sentiu que aquela não era noite para vendas e algemas.


*
"Rapariga, morena, 30 anos, procura homem para sexo sadomasoquista. Não pretende qualquer relação amorosa. Não combina segundos encontros. Disponível todos os dias depois da meia-noite."

Sofia sempre fora a rapariga ideal. Boa filha, boa aluna, boa amiga, boa dona de casa, boa namorada... Irrepreensível era a palavra comum a todas as pessoas que a descreviam entre familiares, amigos e colegas. Depois de terminar o curso de Direito agarrou-se ainda mais aos livros e lutou para ser juíza. Era o orgulho de toda a família, que tinha criado aquela filha de modo humilde, e Sofia nunca se esqueceu disso. A sua honestidade e inteligência associadas à sua evidente beleza tornaram-na alvo de desejo desde muito cedo mas desde muito cedo soube que não se podia entregar. Esperou pelo homem certo. Namoraram mais de dez anos e um dia lá decidiram viver juntos. Os horários desfasados nunca foram motivo de discórdia ou afastamento. Aceitaram sempre as diferenças.
O namorado, médico de profissão, raras vezes dormia em casa e ela preenchia-as como podia. Umas vezes a trabalhar outras vezes... a atender telefonemas.


*
Meia-noite em ponto.
A campainha tocou.
Sofia recebia sempre os seus "amigos" em casa. Sabia que o namorado chegaria apenas perto do amanhecer e ela nunca deixava que eles permanecessem mais de quatro horas.
Meia-noite em ponto e Sofia ajeita as meias de liga e passa uma última vez pelo espelho. Sente-se linda e sensual e sabe que já está a explodir de desejo entre as pernas, mesmo sem saber quem está do outro lado da porta. De passo firme dirige-se à porta e sente as expectativas elevarem-se. Não se enganou. Ele é lindíssimo.
Não trocaram palavras. Ele agarrou-a pelos cabelos e mandou-a contra o chão. Ela ficou louca de tesão. Ele rasgou a roupa dele e arrancou-lhe as meias das pernas. Ela respirava cada vez mais alto de excitação. Penetrou-a afincadamente, sem amabilidades, e consumiu-a até se vir enfurecidamente e nem a olhar. 
Ela gelou.
Não era aquilo o acordado. "Rapariga, morena, 35 anos, procura homem para sexo sadomasoquista". Era isso que ela procurava para aquecer a vida morna que tinha há mais de dez anos com o namorado. E por isso, há mais de cinco que procurava aventuras e dor noutros homens. Não era pelo sexo. Não era apenas pelo sexo.
Sofia levantou-se e deu-lhe uma segunda oportunidade. Recompôs-se, mudou de lingerie, e voltou à sala onde ele tinha ficado. Levou a trela posta na coleira. Ergueu a chibata e sorriu-lhe. Ele percebeu a mensagem. Dirigiu-se a ela e puxou-lhe a trela. Chamou-lhe puta para a excitar. Apertou-lhe dois furos na coleira e espremeu-lhe os mamilos até ela gritar de dor.
Apertou mais e mais a coleira. Ela gemia de prazer. Ele apertou mais. Ela sentia que era demais mas deixou-se ir. Ele apertou mais... e mais... mais. Sofia tinha razão: as algemas e a venda não mais iam ser precisas. Não naquela noite.
Sofia não mais respirou. 

*
"Juíza Sofia M.P. foi encontrada morta esta madrugada em sua casa, pelo namorado, quando este regressava do trabalho. O suspeito do homicídio já se encontra detido e pode-se desde já apurar que se tratava de um ex-recluso, que acabou de cumprir a sua pena de cinco anos, ditada pela juíza Sofia M.P. no ano de 2001. Desconhece-se se existiria alguma relação pessoal entre ambos face ao cenário encontrado em casa da vítima, no entanto parece claro tratar-se de vingança."

Naquele dia, no jornal, já não havia o anúncio da rapariga que procurava homem para sexo sadomasoquista. Naquele dia todos o estranharam.








sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Porque é que o mar é azul?




"A água do mar é transparente. Mas, quando se observa, ele parece azul, verde ou até cinzento. O reflexo do céu não torna o mar azul , o que torna o mar azul é o fato de que a luz azul não é absorvida ,ao contrario do amarelo e do vermelho. Também depende da cor da terra ou das algas transportadas pelas suas águas. A partir de uma certa profundidade, as cores começam a sumir do fundo do mar. A primeira cor a desaparecer é a vermelha, aos seis metros; depois, aos quinze, some a amarela, até chegar a um ponto em que só se verá a cor azul."



Há um lago no Senegal que contraria a natureza e as ideias dos homens. Este lago nasceu cor-de-rosa. 
No Senegal, e em outros lugares do mundo, o mar não é azul e a pergunta "porque é que o mar é azul?" perde a cor e o sentido. Quando perguntamos "porque é que o mar é azul, ou verde, ou cinzento, ou cor-de-rosa?" percebemos que afinal ele não tem nenhuma das cores e nós somos iludidos por seres que o habitam e lhe dão a cor que quiserem. A água do mar é transparente. A água do mar é transparente mas nós gostamos mais de a colorir, mesmo que isso não passe de uma enorme ilusão.
Tantas coisas na nossa vida que são assim.
Tanta coisa na nossa vida que, quando aprofundamos, percebemos não ser aquilo que pensávamos. 
Tantas coisas que, quando as compreendemos, preferiríamos que fossem cor-de-rosa.
As lógicas perdem a lógica quando lhe procuramos o fundo e encontramos a excepções.
Perguntamos "porque é que não arriscas?" e a pergunta perde o sentido da sua ousadia nas excepções que mostram que houve quem arriscasse e perdesse tudo.
Pensamos "não vou voltar a errar" e a ideia morre quando nos lembramos que por causa dos erros é que aprendemos a não voltar a errar.
Afinal, nada é certo e não existem coisas nem pessoas adquiridas. O que temos tem sempre outras frentes, outras caras e outras respostas. As ideias que guardamos como verdades indestrutíveis, por vezes, cedem sem que nos seja possível acudir nalguma coisa. É aceitar que não tivemos visão para compreender tudo o que estava para além dos olhos.

É mais fácil aceitar que o mar é azul, sem o questionar, mas quem questiona tem um caminho de respostas pela frente que nunca ousou sonhar.
Quem pergunta e indaga há-de chegar a mais formas de resposta e por isso poderá escolher entre muitas outras opções.

Porque é que o mar é azul?
Hoje só o sabemos porque antes de nós alguém não se conformou com a resposta e mergulhou num mar de inquietações.







quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

De vez em quando também sou feliz, pá!




Tenho recebido diversos comentários, emails, mensagens e sinais de fumo, a dizer que não tenho escrito coisas divertidas, nem alegres, nem picantes (sim, que eu bem sei o que vocês querem) nem coisas sobre mim.
Pois não.
A resposta do costume, e alguns de vocês saberão, é que por essa razão é que os meus Dias são Cães, não são cor-de-rosa. No entanto, não por simpatia mas apenas porque me apetece, vou falar de coisas bonitas. De colibris e de arco-íris. Do amor e das criancinhas. Da alegria do Natal e da união da família.
Epá, não.
Não seria eu.
Efectivamente, não gosto de transformar este sítio numa coisa colorida. Não gosto de outros blogues coloridos. Não gosto de ler sobre a felicidade dos outros. Não me interessa nada que alguém hoje tenha acordado com vontade de gritar que é uma princesa feliz por ter um príncipe encantado no seu castelo.
Dane-se.
Isso não me mexe com as emoções. Comovo-me com outras coisas, bem podem ver, mas a felicidade nunca me fez escrever grande coisa, embora já o tenha feito lá para trás. Mas o tipo de felicidade que me faz escrever é sempre a felicidade dos outros. E nem é num sentido altruísta, é num sentido analítico. Não sei se me faço entender.
Não importa.
Com isto tudo o que quero dizer (e bem se vê a dificuldade que tenho em tornar este blog num sítio com rosto e menos cinzento) é que hoje lá abri uma excepção e perdi-me por uns quantos blogues cor-de-rosa e daqueles em que as pessoas dizem a toda a hora o que estão a fazer e o dizem de uma maneira tão divertida que toda a gente se sente alegre e, sabem que mais, tive vontade de as mandar todas dar uma volta.
C'um caraças! 
Até as mulheres infelizes são felizes. São sempre tão felizes, já repararam?
Até os homens lá no meio do mundinho deles são felizes. Arranjam coisas para dizer que demonstram que estão felizes.
E por isso hoje lá pensei: raios me partam se eu não sou capaz de falar no blog de como sou feliz!
É que às tantas até parece que não sou nem nunca fui feliz.
E apesar de querer transmitir isso não quero que o pensem.
É confuso, pois é. Também eu sou.
Por isso decidi que hoje vos posso falar de mim (pelas muitas mensagens que recebo com curiosidade sobre a minha pessoa) e dizer-vos qual é o meu actual e real estado de espírito.
Mas antes de mais, não esquecer que eu sou a pessoa que aqui escreve mas também sou a pessoa que tem um trabalho enfadonho, que tem uma rotina sem graça, que também tem de ir ao supermercado, à bomba de gasolina e às finanças. Sou aquela pessoa que podia bem estar agora ao vosso lado na fila dos correios, ou a beber uma bica ao balcão do café onde costumam ir.
Ou seja, sou aquela pessoa invisível e anónima como qualquer outra.

Mas cá vamos então:

Ora, eu estou bem de saúde, não se preocupem. É muito raro constipar-me e gripes nem vê-las. Sou asmática, sofro de alergias e tenho uma espécie de diabetes a insistir comigo, mas para já cá me vou aguentando. Quantos de vós não estão pior? 
Pois é isso mesmo, não me posso queixar.
Numa avaliação exterior como sou rapariga robusta tendem a pensar que estou cheia de saúde e que, a sofrer de alguma coisa, é de colestrol e celulite.
Pois enganam-se, em ambos!
Por isso, neste campo estamos conversados. Estou muito satisfeita com a minha saúde.

Quando à saúde das minhas finanças... Enfim... Haja alegria (passemos à frente).

Quanto ao trabalho, tudo jóia. É um trabalho como outro qualquer. 

Quanto ao amor, também tudo jóia (era isto que o pessoal queria saber, não era?).
Apesar de ter sido superiormente aconselhada a nunca revelar felicidade no amor aqui no blog, tendo em consideração o arrastão de fãs que nutrem afecto por mim por ser uma solitária infeliz, deveria ser mais contida neste capítulo, mas já que estamos numa de partilha, pois que seja.
Não se sintam enganados sobre os momentos em que falei de infelicidade: foram todos verdade.
Mas a vida muda, a sorte também, e felizmente ainda existem pessoas invisuais que se regem por outros instintos e, portanto, até eu tive a minha chance.
Pois que se trata de mais um caso amoroso entre bloggers e nós bem que podíamos lucrar com isso e fazer disso um carnaval mas a quem é que isso realmente importa?
Sinceramente nem a nós. 
E pronto é isto. Acho que não há mais nada que faça sentido partilhar (vejam o enfoque que dei à saúde e à sua importância na felicidade, hein?!)
Resumindo, sou feliz malta, dentro de um género particular mas sou.
Não sei escrever coisas como as outras bloggers nem expor-me de determinada maneira mas não sou rapariga de maus sentimentos.
Ah, e acima de tudo até sou divertida.

Estão a ver a Elaine ali em cima no vídeo?
Acho que sou divertida daquela maneira.
Gosto de me imaginar assim (até porque danço assim).
Não sou fofinha nem carismática mas divirto-me para mim e por mim e ocasionalmente os outros também se riem.
Para já é quanto me basta.

Perguntas sobre o tamanho da roupa que visto, a cor dos meus olhos, e que cereais prefiro comer ao pequeno-almoço, é enviar email que eu respondo sempre de modo cordial.
(Para o Natal preciso de uma panela de pressão e gosto de receber cartões de anónimos).

Beijos e abraços
(Ou deveria dizer beijinhos e abracinhos?)




sábado, 1 de dezembro de 2012

De quantas formas podemos morrer?




Morrer por acidente
Uma tragédia. A maior de todas. Seja lá qual for a natureza do acidente.
Ninguém está à espera. Dá-se uma mudança de um segundo para o outro. Vira-nos a vida do avesso.
Questionamos porquê.
Porque é que aconteceu com aquela pessoa de quem gostávamos?
Porquê daquela maneira trágica?
Porquê naquele momento?
E se a pessoa for jovem - ai se a pessoa for jovem - é uma injustiça ainda maior.
Achamos a vida injusta, comparamos com a existência de outras pessoas que já deviam ter morrido e ainda andam por cá e até chegamos a pensar em Deus, mesmo quem não acreditava nele, para termos quem culpar.
É a morte que traz mais sofrimento por ser repentina e inesperada.
Prazo de cicatrização: Nunca irá cicatrizar.


Morrer por doença
O choque da morte e do desaparecimento, que se tem numa morte por acidente, neste caso, acontece logo no momento em que se recebe a notícia da doença.
Ainda mal se conhece o percurso da história, já se projecta o final. Sofre-se logo mesmo sem ainda ter havido morte.
De certo modo trata-se de uma morte mais reconfortante que a morte por acidente. Não que seja bom mas dá-nos tempo para assimilar o desfecho. 
Há quem diga "nunca se está preparado" mas a verdade é que antever o que dali vai sair ajuda a alguma mentalização.
É verdade que pode mudar as circunstâncias do sofrimento o tipo de doença que a pessoa tem. Se esta foi incapacitante durante todo o tempo até morrer ou se piorou apenas numa fase final; Se se perspectivou sempre uma hipótese de cura ou não; Se a doença afectava apenas o corpo, a mente, ou ambos.
Uma coisa é certa, quase sempre quem vai morrer da doença é quem mais alegria tem em viver, mesmo sabendo que o seu fim está já ali. Já para terceiros, piora a cada dia que passa e melhora quando a morte chega.
Prazo de cicatrização: Muito variável e podia ser longamente discutido. Se for cônjuge, será até encontrar novo/a parceiro/a. Se for mãe/pai/filho, nunca irá cicatrizar. Se for patrão, até agradece já não ter um funcionário de baixa e a receber um vencimento: a cicatrização é imediata.


Morrer por suicídio
A morte que mais me apoquenta.
Esta morte tem uma pergunta por trás para a qual, não raras vezes, se desconhece a resposta.
O mistério desta morte torna-a ainda mais sombria.
Porque é que se matou?
Muitas vezes, antevendo a resposta, prefere-se nem formular a pergunta ou aprofundar o assunto. 
É uma morte que dói mais a quem morreu do que a quem fica (ao contrário de todas as outras) porque, quem se suicida, já se sente morto há muito tempo.
Há uma agonia prolongada no tempo até ao momento da libertação que vem com a morte.
Neste caso, os ente queridos que cá ficam, acabam a sofrer mais com as razões que levaram ao suicídio do que com a morte propriamente dita. Apenas no momento da morte começam a construir o cenário que levou até ela. Apenas naquele momento percebem que havia um sofrimento que não viam. 
Também neste tipo de morte é onde ocorrem os maiores casos de criatividade. Nalguns casos, a criatividade apenas agudiza o sofrimento dos que ficam e aumenta o número de perguntas na cabeça. Porquê acabar consigo de modo tão violento?
Prazo de cicatrização: Funciona como numa morte por acidente. Ninguém espera (mesmo que os sinais andem a ser emitidos há muito tempo) e por isso a cicatrização pode nunca ocorrer.


Morrer por homicídio
É a morte mais chata.
A pessoa não tem qualquer interferência no assunto. Não pediu, não fez por ter. 
Aqui, alguém de fora tem uma interferência maior que o próprio. Numa morte por acidente, apesar de poderem haver terceiros envolvidos, muitas vezes estão-no contra a sua vontade, enquanto que na morte por homicídio alguém se quis envolver por sua livre vontade.
É a morte que causa mais revolta nos que cá ficam. Também é uma boa morte para questionar a existência de Deus. Não raras vezes alimenta sentimentos de vingança e torna a vida turva das pessoas que cá ficam. A morte por homicídio costuma tornar-se popular nos meios de comunicação social e ainda é a única que coloca os humanos em pé de igualdade com Deus: decidimos quem deve morrer em vez Dele e por isso gostamos de fazer um circo mediático disso.
Prazo de cicatrização: Apesar de não ser total, a ferida fecha em grande parte com a descoberta e penalização de um culpado. Além disso as pessoas andam ocupadas em alimentar ódios e esquecem-se dos choros.


Morrer por fome
Ainda acontece, não se pense que não.
Acontece com as crianças em África e acontece com os velhos e novos por cá.
É a morte que mostra a falta de zelo entre os seres humanos. Ninguém que esteja ao nosso lado devia morrer de fome porque, afinal, se está ao nosso lado estamos a vê-la e, se estamos a vê-la, devíamos auxiliá-la.
Era, não era?
Aqui os homens não fazem de Deus mas gozam com ele: Mandaste comidinha para todos não foi? Mas nós gostamos de brincar às escondidas e só quem for mais esperto é que come.
Como é uma morte abstracta para nós, porque não vemos ninguém morrer de fome diante dos nossos olhos, tendemos a ignorar esta morte. É a morte dos países pobrezinhos e por isso não sabemos o que é.
É a morte mais irónica e, curiosamente, a que menos faz sofrer terceiros. Por egoísmo. Por falta de amor. Por não acontecer com ente queridos mas com pessoas anónimas. E a morte de quem não conhecemos nunca nos fez sofrer. 
Prazo de cicatrização: Cica...quê? Mas alguém morre de fome?


Morrer por amor
Ninguém morre por amor.
Não no sentido físico, diria eu..
Em tempos li um artigo científico de referia que não se morria propriamente de amor mas podia morrer-se por questões ou circunstâncias relacionadas com o amor.
Relatava-se nesse artigo o caso de um casal de idosos em que o marido morreu primeiro. Ainda se amavam muito apesar da idade avançada. Após a morte do marido, a mulher começou a ficar cada vez mais debilitada. Após análises e exames verificou-se que não se tratava apenas de uma questão de idade avançada e ausência das rotinas instituídas entre o casal. O coração, o fígado, os rins, e outros órgãos vitais começaram a perder as suas funções e a "morrer" dentro da mulher. Na conclusão da investigação acreditava-se que esta morte ocorreu por desgosto de amor.
Prazo de cicatrização: No dia em que se morre.


Morrer por morte natural
Isso não existe.