sexta-feira, 27 de abril de 2012

Foram pássaros



Foram pássaros os homens que não amei.
Foram pássaros os homens que me deixaram.
Foram pássaros as pessoas com quem não mais me cruzei.
Foram pássaros aqueles em quem nunca acreditei.
Foram pássaros os que me pisaram os moldes do coração.
Foram pássaros os que me comeram as vísceras em bicadas.
Foram pássaros os que riram de me ver caída.
Foram pássaros os incultos que não me compreenderam.
Foram pássaros os intolerantes que nunca me ouviram.
Foram pássaros os tolos que pensavam agradar-me.
Foram pássaros as mãos porcas com quem me deixei deitar.

Larguei os homens que não amava por, simplesmente, não os amar.
Larguei os homens que me deixaram por não os poder agarrar.
Larguei as vistas de quem não mais vi por não ter para quem olhar.
Larguei os mentirosos por não me conseguir deixar enganar.
Larguei os criminosos por pisarem o que não lhes pertencia.
Larguei os canibais por comerem o que não lhes ofereci.
Larguei os idiotas que riram de mim por não perceberam que nunca me fizeram rir.
Larguei os incultos que não se perderam a tentar me compreender.
Larguei os intolerantes por nem ouvidos terem para me conhecer.
Larguei os tolos que nunca viram que não os amei.
Larguei os porcos com quem nunca me devia ter cruzado.

Quando foram pássaros, foi quando os matei. Larguei-os no ar e dei-lhes um tiro.




sábado, 21 de abril de 2012

O Hipercubo


Para quem quiser saber mais...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hipercubo
http://cmup.fc.up.pt/cmup/pick/Manhas/Modulo1Hipercubo.html

És constrangido por seis paredes.
Desconheces-lhe a forma porque não tens luz.
Mas é um cubo. Digo-te eu.
Agradece-me, desde já, a ajuda.
Dispões apenas de um metro cúbico para viveres.
Estás sentado num dos planos desse cubo.
Não lhe chames chão. Desconheces-lhe a orientação.
A gravidade? Não. Não contes com ela.
Precisarias de um plano de referência para te orientares.
Não o tens. Digo-te eu.
Estás, simplesmente, sentado.
Enroscado em ti mesmo. Abraçando as pernas flectidas.
Quero lembrar-te: estás no escuro sentado entre seis planos unidos em ângulos de 90º.
Dispões apenas de um metro cúbico para viveres.
Estás inerte porque te imaginas sem alternativas.
Ainda não moveste um milímetro de ti porque esperas, primeiro, que o cubo se abra.
Depositas no cubo a única chance de viveres.
Depositas a tua vida numa coisa estanque. Que nunca se irá mover.
Estás em agonia. Uma agonia contida por seis paredes.
Questionas-te pouco porque tens na ignorância a tua fiel companhia.
E não admites mas sentes-te cansado dela.
Estás farto de ti.
Queres evadir-te desse lugar.
Mas agora pergunto-te: Que fizeste até agora para daí saíres?
Já tentaste empurrar as paredes para ver se cedem?
Já procuraste um interruptor para acender a luz?
Já tentaste localizar-te e perceber em que plano estás?
Já gritaste por ajuda na hipótese de alguém te ouvir?
Já levantaste a cabeça para veres se existem portas?
Já?
Podes começar a tentar, por favor?
Não esperes que alguém o faça por ti.
Abre os olhos, faz um esforço, move-te como puderes, grita o mais alto que conseguires.
Ergue-te!
Não dispões apenas desse metro cúbico para viveres.
Essa ideia residia apenas na tua cabeça.
Empurras as paredes.
Nunca foram estanques. Tu é que nunca as tentaste mover.
Estás livre.
Conseguiste.
Olha em volta. O que vês?
Mais paredes?
Outros planos, outras arestas?
Sentes desnorte e não entendes?
Pois olha só: Não existe chão!
O que tinhas certo, como o sendo, agora é um plano inclinado.
Mudaram as circunstâncias. Mudou-se o contexto.
Estás assustado?
Habitua-te.
Quantos mais cubos pensas que terás de vencer?
Quantos mais cubos, dentro de cubos, pensas que terás de abrir?
Quantos mais planos e intersecções pensas que terás de viver?

Poderás nunca consegui evadir-te do cubo maior, mas terias maneira de saber que ele existe se não tivesses fugido do cubo mais pequeno?




quarta-feira, 18 de abril de 2012

Arquitectos e Engenheiros




Análise SWOT
Strengths (Forças)
Weaknesses (Fraquezas)
Opportunities (Oportunidades)
Threats (Ameaças)


Arquitectos
S - A criatividade - Um tipo que usa a cabeça para pensar não é de subestimar. E quando a usa a favor da criatividade abre-se todo um mundo de possibilidades de ser feliz ao lado deste tipo de pessoas: estes homens sonham! E quando sonham transportam-nos para o mundo deles que, não raras vezes, é atraente. E depois há toda aquela química entre iguais, do género: “Eu sei que tu sabes, que eu sei...”A sério, homens criativos e com capacidade discutir ideias, tiram-me do sério.
W - Não olham nos olhos – Uns chamam-lhe timidez. Tangas. Outros chamam-lhe homossexualidade. Tretas. Eu diria que é medo. Talvez. E sentir o medinho de um Sr. Arquitecto é bom! Dá vontade de ir para as obras de botas de biqueira de aço e meias de ligas para ver o nervoso miudinho a trepar-lhes pela coluna. Não olham nos olhos com medo que lhes sejam descobertos os pontos fracos. Pois meus caros, mas não olhar de frente já o denuncia. Certo? E coisas frouxas em construção, é que não!
O - A miscigenação  - Uma pessoa que é homem e arquitecto ao mesmo tempo é um caso raro de união bem-sucedida entre a sensibilidade e a masculinidade. Porta escancarada para a conquista sem sequer ser necessário abrirem a boca. Ser/ter título de arquitecto tem um efeito catalisador no imaginário de uma mulher: Começamos a pensar em comprimentos, acabamos a pensar em vigas. Por favor, aproveitem-se de nós!
T - A insegurança - Que raio se passa? Não percebo porque têm de perguntar as coisas tantas vezes, porque é que se colocam em causa, e porque é que têm medo de arriscar? Isto compromete a confiança depositada nestas pessoas. O que se quer é alguém com firmeza nas decisões. Alguém vigoroso. A tal coisa de ser sensível mas macho ao mesmo tempo. A insegurança pode comprometer todo um projecto, toda uma relação.

Engenheiros
S - O pragmatismo - Vão directo ao assunto. Fazem menos perguntas e percebem logo tudo à primeira. Não são chatos. Resolvem as coisas a conversar cara-a-cara mas também se desenrascam com o telefone. Emails, mensagens, e outras coisas que tais não constam do seu modus operandis. Marcam reuniões e chegam a horas. Na hora de projectar, o pragmatismo pode ser um handicap... Mas também, quem é que está aqui a pensar em trabalho?
W - Não resistem a uma arquitecta - Bem, talvez não seja bem assim... Talvez não resistam a duas, que os safadinhos têm duas mãos para alguma coisa. A fantasia que lhes falta nas ideias, capturam-na na presença de arquitectas. Uma espécie de aquisição de conhecimentos por osmose. O que não resulta lá muito bem porque os tipos não percebem nada de arte. As arquitectas para estes homens acabam por os desviar do que é importante. Neste caso eles deixam de pensar em vigas a passam a pensar em curvas… E toda a gente sabe que vigas curvas são um perigo!
O - Sabem mentir de sorriso sacana nos lábios - A malta percebe que estão a mentir deliberadamente ou, então, fazem-no apenas para não darem parte fraca, mas mesmo assim deixamo-nos ir embeiçadas na conversa. Um sorriso engenhoso à mistura aniquila qualquer intenção de mostrar prepotência artística da minha parte. Que se lixe a arquitectura. Venham os projectos grotescos. I Love Engeneers.
T - A falta de sentido de humor - Isto é uma franca ameaça para quem já não possui sexappeal. Para quem o tem, pode-se safar pela fachada mas será de evitar conhecer o interior. Engenheiros feiosos sem sentido de humor são de cortar os pulsos. Mas engenheiros charmosos sem sentido de humor parecem apenas néscios. Vá lá pessoal: toca a trabalhar as larachas (nem que sejam fáceis) que nós caímos na mesma.


(E não comecem com a conversa de que estou a generalizar porque já não há cu para isso, ok?)





segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ectoesperma



Ectoplasma (do Grego "ektós": por fora + "plasma": molde ou substância), na acepção da parapsicologia, designa supostamente uma espécie de vapor esbranquiçado que sai do alegado Psíquico (médium), mais frequentemente pela boca, mas que pode sair por qualquer parte do corpo. É também supostamente sensível a determinados impulsos, se exterioriza a partir do corpo de determinados indivíduos com características especiais (Psíquico), permitindo a materialização de corpos humanos distintos daquele de onde saiu ou de membros tais como mãos, rostos e bustos (ectocoloplasmia - formação de apenas partes ou membros do objeto ou coisa materializada). Não existem evidências científicas que corroborem sua alegada existência e nenhuma prova foi apresentada que desse sustentação a afirmação de fé.

in Wikipédia


Esperma (do Português "esprema": por fora + "verga": molde ou substância), na acepção da minha psicologia designa, supostamente, uma espécie de líquido esbranquiçado que sai do alegado físico (do teu) e, mais frequentemente, pela minha boca, mas pode sair por qualquer parte do corpo. É também, supostamente, sensível a determinados impulsos, se exterioriza a partir do corpo de determinados indivíduos com características especiais (tu), permitindo a materialização de corpos humanos distintos daquele de onde saiu ou dos teus membros tais como as mãos, rostos, e bustos (excitação - formação de apenas partes ou membros do objecto ou coisa materializada). Não existem evidências científicas que corroborem sua alegada existência e nenhuma prova foi apresentada que desse sustentação a afirmação de fé.

in Dias Cães



A minha fé vem quando me ajoelho perante ti. Num ápice acredito em todos os santos, divindades e bruxos que te colocaram no mundo. A minha fé vem-se quando tu te vens dentro de mim ou à mercê das minhas ordens. Vem-se, quando, de joelhos, te fazes enorme como Deus à boca das minhas preces. Quando te rezo de maneira apertada e convicta. A minha fé e a tua vêem-se quando eu insisto em orar e tu fechas os olhos de vontade. Vês fantasmas e corpos estranhos no meu próprio corpo. Deliras comigo como se de uma possessão se tratasse. Receias que afinal eu não seja nada além da sugestão do teu desejo. O medo apodera-se de ti quando equacionas a possibilidade de eu ser um espírito materializado. Quando pensas que o teu líquido sagrado se espalhará em desperdício pela atmosfera deste mausoléu. Quando pensas que a tua imaginação te deixou sozinho entregue a um punhado de esperma prestes a explodir num vazio. Forças-me a boca para ganhares realidade e garantires que o teu licor não morrerá numa qualquer esteira. Obrigas-me a mostrar corpo de carne para teres a certeza que não é num vácuo onde te esvaziarás. Queres que o meu corpo real acolha o teu esperma transcendente com gemidos e orações, de joelhos ou de boca mas com toda a devoção.
Acabas a perceber que é o teu esperma que gera espíritos dentro de mim. Morres a saber que eu nunca existi além da tua imaginação. Desesperas-te ao compreender que não foste o único a quem de joelhos rezei.






sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sou Católica. E depois?




A minha vocação religiosa foi coisa que ficou lá atrás, pelos meus dezassete ou dezoito anos. Por essa altura ainda me passava pela ideia que a vida religiosa era aquela para a qual tinha sido talhada. Sei, que momentos houve, em que gostava de ter abraçado a vida de noviça. Dedicada totalmente a Deus, é certo, mas, sobretudo, orientada para um auto-conhecimento e introspecção pessoal que, creio, na altura se impunha aprofundar. Com a passagem dos anos, a entrada para a faculdade, e a existência de uma relação que durou sete anos, essa vontade desvaneceu-se. Deixou de ter sentido. Já nem pensava em Deus, nem em religião, nem na história dos povos e crenças que nos trouxe até aos dias de hoje. Durante muito tempo deixei de me questionar e de querer obter respostas. A vida corria normalmente e eu não procurei perturbá-la. Nem uma crise de fé posso dizer que tenha tido porque, simplesmente, não pensava no assunto. Abandonei por um longo período uma parte de mim, sem que me tivesse dado conta. Tive a displicência de ignorar algo tão estrutural na minha existência, como andar ou falar. Anulei uma educação que me deram em paralelo com a formação académica ou os valores sociais e familiares. Esqueci-me que fui educada dentro de uma religião. Esqueci-me que essa religião um dia foi-me imposta mas, em todos os anos que se seguiram, fui eu que a fiz crescer dentro de mim. Ninguém obrigava o meu pensamento a ir até Deus, mas a verdade é que muitas vezes se escapulia até lá. Também ninguém me disse que eu não o podia exteriorizar mas eu preferia esconder.
Hoje digo com todo o empenho que a minha educação foi religiosa. Católica. Com direito a tudo. Todos os rituais desde o baptismo, à comunhão, às missas, confissões, catequese, escuteiros, crisma... Enfim, tudo o que havia para experimentar. Quase como se fosse uma espécie de drogada, que a partir do momento em que experimenta cavalo, se permite a experimentar de tudo. Pois eu experimentei de tudo. Na religião e na minha vida cristã experimentei de, praticamente, tudo. E sabem que mais? Não sinto que me tenha feito mal. Que me tenha tornado retrógrada ou antiquada; Que me tenha limitado a liberdade de acção; Que me tivesse inibido de ser e fazer o que me apetecesse; Que me tivesse tornado intolerante com os outros; Que me tornasse obtusa; Ou que me constrangesse a visão do mundo.
Honestamente, sinto que tive oportunidade de conhecer um universo que a maioria das pessoas desconhece mas se entretém muito a falar de modo ignorante. Sei que sobre estes assunto posso falar com conhecimento de causa e sem especulações ou juízos mal formados. Sinto, muitas vezes, que as pessoas são mas intolerantes com quem manifesta a sua religiosidade do que a intolerância que eu poderia ter para com elas por serem ignorantes.
Mas eu aceito tudo. Até aceito os agnósticos que vão casar à igreja, porque gostam da festa, ou os ateus que, quando lhes morre alguém, vão a correr tratar do funeral com o padre. Já tenho alguma dificuldade em entender a risota geral quando uma pessoa se diz católica praticante e conhecedora da sua religião. Qual é a piada? Se eu dissesse que fumava brocas a torto e a direito era mais divertido, eu sei, mas esta pessoa que consegue ser excêntrica é a mesma que consegue ser séria e, para já, ainda não brigaram cá dentro.

Ontem, por razões profissionais e também pessoais, passei doze horas do meu dia na presença de padres. Com padres diferentes, conversas diferentes, propósitos diferentes, estados de espírito diferentes, mas cheguei à mesma conclusão: estas pessoas estão de bem com elas e com os outros. São educados e extremamente cultos e instruídos. São incrivelmente mais tolerantes com a sociedade actual, do que o modo como a sociedade actual ainda os vê. Não são menos homens do que qualquer outro homem e, diria até, lidam com menos frustrações relacionais que os outros.
Ontem, por razões que desconheço, senti que devia fazer renascer a mulher cristã que há em mim. Sem fanatismos nem extremas devoções mas sem vergonhas ou constrangimentos. Deus (dizem) amou uma pecadora porque ela apenas o era aos olhos dos preconceituosos, mas ele amou-a porque era uma mulher boa (e tesuda, certamente). Por isso não me importo de arriscar viver tudo o que a vida tem para me dar. Os lados todos com que a podemos encarar. Não me parece que sejam incompatíveis.

Sou louca? Sou. Sou católica? Sou. E depois? Alguém me vai encarar?





quarta-feira, 11 de abril de 2012

O teu lugar



Pode-se acordar a meio da noite assustado. Acordar suado de pavor por ter perdido os pensamentos em coisas inenarráveis. Por ter sonhado com outros mundos que nos confundem as ideias e nos fazem acreditar que a realidade é, realmente, aquela que se está a vivenciar no momento. Não há problema em saltar dos lençóis durante a noite e ter de denunciar, a quem dorme ao nosso lado, que algo nos desconfortou. Em verbalizar que tivemos medo e quisemos acordar para nos evadirmos daquele lugar. Alivia abrir os olhos, apalpar a cama, conhecermos o sítio onde estamos e ver a pessoa com quem partilhamos o corpo, ali mesmo, ao nosso lado. Acalma-nos a pulsação ter quem nos coloque a mão na coxa, mesmo que nem nos olhe, dizendo com um simples toque que nos protege.

O que não se pode é acordar com medo durante a noite, querer evadir-se do pesadelo em que se estava, acordando a pessoa que dorme ao nosso lado injustamente. Querer que essa pessoa nos reconforte, sem lhe sermos sinceros. Querer que essa pessoa nos dê muito mais que um simples toque na coxa. Querer aquele beijo acompanhado de um abraço. Desejar um sussurro aconchegado ao ouvido. Entrelaçar as pernas e cada um dos dedos das mãos. O que não se devia era querer tudo isto e não o encontrar.
Não era suposto acordar a meio da noite, ter medo, querermos acalmar-nos, olhar para a pessoa que está ao nosso lado e não sentirmos que é um lugar seguro. O que não está certo, é essa pessoa desconhecer que a encaramos assim e que lhe fazemos esse juízo mesmo que injustamente. O que nunca deveria acontecer, é acordar a meio da noite, ter medo, procurar um lugar seguro dentro de nós e encontrarmo-lo noutra pessoa. 

Esta noite acordei. Tive medo. Evadi-me dos meus pensamentos. Fugi dali. Encontrei um lugar seguro dentro de mim. Esse lugar eras tu. Coloquei o meu pensamento em ti e adormeci. Quando acordei lamentei ter de fazer essa viagem até ao lugar seguro que és, quando outro alguém dormia, inocentemente, ao meu lado.

Lamentei que o lugar seguro que és para mim, não pertença a outra pessoa. À pessoa que me ama durante a noite e não sabe que, quando fecho os olhos, é em ti que penso.



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Gosto que gostem de mim. Não gostamos todos?




E agora, algo completamente diferente.

Na sequência dos meus dois últimos posts (este e este) chegaram a mim os mais diversos comentários e mensagens que me deram a conhecer ainda mais blogues de pessoas gays, lésbicas, transexuais, e sei lá mais o quê... que para mim são tudo pessoas e pronto. Tanto nome que se inventa... 
Devo dizer que nunca fui tão bem tratada. Nem sei bem o que fiz ou disse assim de tão acertado, mas ainda bem que o fiz e disse.
Sou hetero, toda a gente está farta de perceber, e não quero que me apontem o dedo por isso, portanto, o óbvio será não o fazer aos outros. Percebo que esta evidência não o é para todas as pessoas e talvez por isso, quando chegam aqui, se sintam iguais - Porque o somos TODOS!
Por entre algumas trocas de ideias, elogios, conselhos, convites... chegou-me este desafio pela mão da Cabra Branca. E decidi aceitar sem pensar duas vezes.
Não nos conhecemos e nem conhecia o seu blog mas fui acolhida como se fosse da casa há anos.
Dos seus mais de cem seguidores, a Cabra Branca (Bianca) seleccionou-me para da continuidade a este pequeno questionário que percorre bloguers. 
À parte de qualquer curiosidade que possa ter sobre quem escreve deste lado, o que senti foi que a Bianca me confiou qualquer coisa de seu. Qualquer coisa de importante que achou que eu merecia ter.
E como me gosto de portar bem com quem me trata bem, decidi responder.

Fica um beijo para a Bianca.



O que te tira do sério? Mentirem-me com a boca, quando a verdade explode pelos olhos.

A que cheiras? A absolutamente nada.

A que sabes? Dizem (dizem!) ... que a doce.

O que gostas de ler? O dicionário. Encontro sempre palavras novas.

O que te seduz? Sair com desconhecidos.  

Sentes-te......? Duas pessoas diferentes na mesma cabeça. 

O que te deixa com um sorriso nos lábios? Os elogios à minha inteligência. 

O que dizem os teus olhos? Dizem demasiado. Dizem que devia andar sempre de óculos escuros.

O que me oferecias? Conversa. Muita conversa. Muita conversa.







segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quero ser Gay!




Gosto de ler blogues escritos por gays. Sim, é disso que quero falar. Não tem nada a ver com crises de identidade, crítica social, ou dúvidas sobre o que fazer ao meu pipi.
O que quero mesmo falar é dos blogues que leio escritos por gays. Têm sempre um discurso querido e fofinho que eu não sei ter. São sempre adoráveis mesmo quando falam de sofrimento e querem chamar filho da puta ao gajo que os deixou por outro. Mesmo quando querem ser violentos e partir a louça toda, fazem-no sempre com classe e sem sair dos saltos. Epá, gosto disso porque eu não sei ser assim tão meiga com quem me lixa, nem sei encarar com esperança e positivismo os dias de merda que uma pessoa às vezes tem. Porque tem. Quando sou bronca pareço o homenzinho que não queria parecer e por isso leio blogues de malta gay porque, de algum modo, me devolvem a feminilidade que se perde em pensamentos porcos e canastrões. Sinto, no final, conforto ao ver que há seres bons com capacidade de amar e perdoar em tons cor-de-rosa. E não estou a ser irónica. Isto vem mesmo do fundo do coração. Se assim não fosse não me dava ao trabalho de ir a determinados blogues todos os dias. Os tipos reconfortam-me a alma. Talvez por isso também eles consigam ser os melhores amigos das amigas. Gosto deles.
Mas há toda uma escalada de predicados que aprecio. Os meus queridos, escrevem como gajas mas melhor. Ou seja, escrevem assuntos da mulherada, ou como a mulherada escreveria, mas em bom. Sem erros, com bom ritmo, com conteúdo, com história. Com amor. Sem tangas.
Mas o melhor mesmo dos seus blogues é que ainda são os sítios onde vou apanhando as melhores imagens de tipos tesudos. Os sacanas têm sempre olho para escolher imagens de homens giros e sensuais como nenhuma mulher o sabe fazer. Sem medos. Tudo à grande. Com tudo a que se tem direito a ver. Uma vez por outra, lá tenho de gramar com imagens de homens a comerem-se uns aos outros. Mas o mal é meu: sou hetero e vou ter de viver com isso. E não tenho problema algum com isso mas fazem-me sempre parar para pensar: "como o mundo é injusto"... E suspirar um bocadinho por esta merda estar desequilibrada e haver tantos homens interessantes entretidos uns com os outros em vez de olharem para mim. Tipo... todos em simultâneo... sim, podiam ser todos meus.
Por isso às vezes invejo estes gajos que gostam de gajos, porque eu também gosto deles e sem bem porquê, mas sabem viver bem com isso, e eu às vezes não. Aquilo que a mim me escapa para poder ser tão bem sucedida no universo masculino é mesmo viver com mais drama mas, sobretudo, maior conhecimento de causa. Mais drama e melhor cabeça. Precisava ser homem para perceber os homens, é que está mais que visto. 

Agora se me perguntarem se um dia quero ser gay? Pois que parvoíce. Não é coisa que se escolha por catálogo. Mas quando chegar ao céu (apesar de andar a fazer os possíveis por não ir) e Deus me perguntar como quero encarnar na próxima vida, sei bem o que vou dizer: "Óh Meu Deus, para a próxima quero ver se acerto na escrita, na vida e nos amores, por isso, para a próxima... Para a próxima quero ser gay!"


E agora lá vem o aviso ridículo em letras pequeninas para não me estragar o texto, mas já sei que tem de ser:
Isto não é mesmo, de todo, uma crítica preconceituosa, como alguns preconceituosos poderão estar agora a pensar. É um reconhecimento do talento dos muitos gays que escrevem pela blogosfera. Alguns dos melhores blogues que leio... são deles. Nascidos da sensibilidade única que eles têm.





domingo, 1 de abril de 2012

A grande mentira



O belo rabo que exibia debaixo das saias justas, e as longas pernas esculpidas que se erguiam num par de saltos altos, culminavam no decote generoso que lhe emoldurava os deliciosos lábios carnudos. Não era uma mulher, era a personificação da deusa que todos os homens queriam ter às suas ordens numa cama de pecados carnais. Era aquela mulher a quem os homens sonham chamar de puta, por estar tão longe de se parecer com uma mulher real.
As mulheres, essas - ressabiadas por não estarem nem perto de um dia virem a ser assim - olhavam-na de soslaio e com desconfiança. Ao contrário dos homens, que acreditavam ter sido abençoadas com a sua presença, a intuição feminina fazia-as sempre pensar: "Hmmm, será que...?"
As colegas de profissão sempre duvidaram de tanta beleza e perfeição e comentavam à boca grande que aquilo não era o que parecia. Era uma manta de retalhos de operações de aperfeiçoamento. E não era só inveja. Eram as dúvidas sobre que lado da barrica ela se deveria posicionar. Era também o receio da competição no trabalho. De perderem território para este monumento de mulher. Este puzzle de todas as mulheres perfeitas do mundo.
Punham sempre em causa que alguma mulher se fizesse assim apenas por vontade dos bons genes. Sabiam bem que mulheres assim não existem. Tal como ela sabia. Tal como ela, bem lá no fundo, sabia que a natureza não quis que nascesse assim. Sabia-o tão bem que se sujeitou às mais diversas transformações até se fazer perfeita. Tão perfeita como a mentira onde cresceu. A mesma mentira com que se tinha de deitar todas as noites. A mesma mentira com que sustentava a sua vida.
Quando voltava do trabalho, ao fim da noite, quando esta se misturava com o início da madrugada, sabia bem que o que tinha vendido não era o corpo de bela mulher que todos viam. Também ele era um misto de noite e madrugada. Também ele nascera de uma forma para se transformar noutra. Também ele desejava que, um dia, a mesma transição da noite para o dia se desse em si. Naquele corpo que não pediu para ter. Enganou alguns homens que lhe encostavam o carro às coxas, por pensarem ter ganho a queca da vida deles a troco de umas porcas notas. Pensavam que levavam consigo um par de pernas para abrir e comer, quando mais tarde percebiam que, afinal, havia algo mais de inesperado. Enganou uns quantos e satisfez muitos outros, que agradeceram o engano de pagar a uma mulher e afinal terem um homem.
A grande mentira em que viveu foi a alegria de uns e o vómito de outros. A mentira em que viveu só o era porque, algures no seu corpo, uma das peças não encaixava. Porque a natureza quis brincar à cabra cega com a genética e o destino. Porque entre as suas pernas teimava em existir um corpo estranho à sua vontade.