domingo, 18 de novembro de 2012

Carta ao marido que não tenho





Carta para lermos juntos depois dos oitenta anos.


"Meu amor,

Há cinquenta anos nunca pensámos que estaríamos aqui hoje. Tu dizias disparates sobre morrer novo e eu repetia-te vezes sem conta que, se era para morreres novo, pelo menos me estimasses, para eu ficar uma viúva jeitosa e ainda estar em condições de arranjar alguém para ocupar o teu lugar na cama. No fim ríamos mas eu sei que, lá no fundo, tu acreditavas mesmo no que dizias. Eu nem tanto. O meu amor sempre foi teu e tu sempre foste insubstituível. A verdade é que nem tu morreste novo nem eu fiquei jeitosa e agora é que nos rimos a valer por percebermos que não mandamos na vida e a vida fez o que quis de nós. Disparates. Tantos disparates que se dizem quando se é novo e não se sabe o que está para vir.
A verdade é que a vida nos manteve vivos, bem vivos, e juntos, para compensarmos a ausência um do outro nos primeiros trinta anos das nossas vidas em que andámos às cegas, sem nos encontrarmos. Mas lá nos encontrámos e o caminho deixou de fazer sentido só. Só me vejo a tê-lo feito contigo.
Primeiro avançámos com toda a força que a paixão pelo desconhecido nos dá. Depois recuámos por medo. Decidimos por fim avançar mas mais devagar. Nestas coisas da paixão e dos impulsos, foste sempre mais sensato que eu. Hoje agradeço-te por isso. Tivéssemos andado rápido demais e poderíamos ter caído. 
Há cinquenta anos, andávamos a tactear terreno, a analisar o grau de sucesso que a relação poderia ter, a fazer contas ao momento certo para dizer palavras de amor e a hesitar em explicar aos familiares e amigos porque se anda de sorriso tonto na cara. Foram momentos tão deliciosamente felizes.
Mas um dia assumimos perante o mundo que as nossas vidas, não eram duas mas apenas uma. Éramos um só. Lembras-te? Lembras-te também de, como de repente, parece que tudo mudou? Começámos a sentir o peso da rotina, e os nossos corações já não batiam descompassados. Por vezes, em silêncio, chorávamos de saudades de nós, do tempo em que éramos audazes. Sim, eu sei quando choraste porque eu chorava contigo sem saberes. Mas, na saúde e na doença, lá fomos andando. Nem sempre direitos, nem sempre na velocidade certa, mas andámos. Andámos felizes como poucos se podem orgulhar. Fomos a bengala um do outro. Foste a parte mais preciosa da minha vida. Deste-me tudo o que eu não te pedi.
Não tivemos os filhos que eu tanto queria, é certo, mas bem se vê que não fez mal. Fomos felizes todos estes anos como, eventualmente, não poderíamos ter sido se, por entre esta vida de beijos e cumplicidades, três garotos se metessem entre nós. Não podíamos adormecer abraçados e acordar de mãos dadas, à hora que nos apetecesse, se os três rapazes que eu tanto queria nos atropelassem o romance. Três, eram três rapazes com que eu sonhava. Mas sonhei sozinha, bem sei. E sozinho não se conquista o mundo.
Quero apenas dizer-te que, contra todas as probabilidades, conseguimos ser felizes. Eu sem dúvida que o fui. Creio que não erro se disser que também o foste ao meu lado. Que te tratei como o melhor dos homens merece ser tratado. Que te soube agradar nas loucuras de quando era nova mas também soube envelhecer e ser a senhora polida de que te podias orgulhar. Soube dar-te tudo como mulher, como amiga e até como mãe. Porque os homens precisam de uma mãe até morrer, soube-o desde cedo, mal te conheci. Como tua mulher, bem sabes, houve um mundo de coisas difíceis que te exigi: um abraço e um beijo na hora de deitar e um brilho nos olhos, todas as manhãs, ao acordar. E eu sei, meu amor, eu sei, que esse brilho nem sempre foi fácil. Nem sempre foi sentido. Mas agradeço todos os dias o esforço que fizeste por não me desiludir, e a força de vontade em me fazer feliz.
E fizeste, meu amor. Te garanto que fizeste.

Com esta idade, e prevendo que a meta está já ali, tenho apenas o desejo de que os nossos fins se encontrem, e possamos partir juntos, como seria justo em qualquer casal que se ama."






11 comentários:

  1. Adorei o teu blog e como me revejo em imensas coisas que escreves decidi adicionar-te irmamente para te poder seguir! :D

    Esta carta está explendida..

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  2. Humedeceste-me os olhos com este texto.

    (Não me perguntes porquê, aconteceu)

    Bj gd

    R.

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    1. Não preciso perguntar.
      "Sim, eu sei quando choraste porque eu chorava contigo sem saberes".

      Adoro-te.

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  3. A força de vontade em fazer o outro feliz é das coisas mais raras que há neste mundo ... mas é terrivelmente importante pensar assim. Beijo para ti.

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    1. E nem todos tentamos, pois não?
      Até parece que custa menos não ser feliz e não fazer o outro feliz... Quem é que entende isto?

      Beijo

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  4. BY PAULO RODRIGUES FERREIRA
    Sonhava que, durante o velório do marido, conseguia esgueirar-se para dentro do caixão e ser enterrada com o seu amor.

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    1. Que bonito.
      É daquelas frases que agora invejo por não me ter lembrados antes de escrever.
      Obrigada pela visita!

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    2. de nada, minha querida ;)

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