sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sou Católica. E depois?




A minha vocação religiosa foi coisa que ficou lá atrás, pelos meus dezassete ou dezoito anos. Por essa altura ainda me passava pela ideia que a vida religiosa era aquela para a qual tinha sido talhada. Sei, que momentos houve, em que gostava de ter abraçado a vida de noviça. Dedicada totalmente a Deus, é certo, mas, sobretudo, orientada para um auto-conhecimento e introspecção pessoal que, creio, na altura se impunha aprofundar. Com a passagem dos anos, a entrada para a faculdade, e a existência de uma relação que durou sete anos, essa vontade desvaneceu-se. Deixou de ter sentido. Já nem pensava em Deus, nem em religião, nem na história dos povos e crenças que nos trouxe até aos dias de hoje. Durante muito tempo deixei de me questionar e de querer obter respostas. A vida corria normalmente e eu não procurei perturbá-la. Nem uma crise de fé posso dizer que tenha tido porque, simplesmente, não pensava no assunto. Abandonei por um longo período uma parte de mim, sem que me tivesse dado conta. Tive a displicência de ignorar algo tão estrutural na minha existência, como andar ou falar. Anulei uma educação que me deram em paralelo com a formação académica ou os valores sociais e familiares. Esqueci-me que fui educada dentro de uma religião. Esqueci-me que essa religião um dia foi-me imposta mas, em todos os anos que se seguiram, fui eu que a fiz crescer dentro de mim. Ninguém obrigava o meu pensamento a ir até Deus, mas a verdade é que muitas vezes se escapulia até lá. Também ninguém me disse que eu não o podia exteriorizar mas eu preferia esconder.
Hoje digo com todo o empenho que a minha educação foi religiosa. Católica. Com direito a tudo. Todos os rituais desde o baptismo, à comunhão, às missas, confissões, catequese, escuteiros, crisma... Enfim, tudo o que havia para experimentar. Quase como se fosse uma espécie de drogada, que a partir do momento em que experimenta cavalo, se permite a experimentar de tudo. Pois eu experimentei de tudo. Na religião e na minha vida cristã experimentei de, praticamente, tudo. E sabem que mais? Não sinto que me tenha feito mal. Que me tenha tornado retrógrada ou antiquada; Que me tenha limitado a liberdade de acção; Que me tivesse inibido de ser e fazer o que me apetecesse; Que me tivesse tornado intolerante com os outros; Que me tornasse obtusa; Ou que me constrangesse a visão do mundo.
Honestamente, sinto que tive oportunidade de conhecer um universo que a maioria das pessoas desconhece mas se entretém muito a falar de modo ignorante. Sei que sobre estes assunto posso falar com conhecimento de causa e sem especulações ou juízos mal formados. Sinto, muitas vezes, que as pessoas são mas intolerantes com quem manifesta a sua religiosidade do que a intolerância que eu poderia ter para com elas por serem ignorantes.
Mas eu aceito tudo. Até aceito os agnósticos que vão casar à igreja, porque gostam da festa, ou os ateus que, quando lhes morre alguém, vão a correr tratar do funeral com o padre. Já tenho alguma dificuldade em entender a risota geral quando uma pessoa se diz católica praticante e conhecedora da sua religião. Qual é a piada? Se eu dissesse que fumava brocas a torto e a direito era mais divertido, eu sei, mas esta pessoa que consegue ser excêntrica é a mesma que consegue ser séria e, para já, ainda não brigaram cá dentro.

Ontem, por razões profissionais e também pessoais, passei doze horas do meu dia na presença de padres. Com padres diferentes, conversas diferentes, propósitos diferentes, estados de espírito diferentes, mas cheguei à mesma conclusão: estas pessoas estão de bem com elas e com os outros. São educados e extremamente cultos e instruídos. São incrivelmente mais tolerantes com a sociedade actual, do que o modo como a sociedade actual ainda os vê. Não são menos homens do que qualquer outro homem e, diria até, lidam com menos frustrações relacionais que os outros.
Ontem, por razões que desconheço, senti que devia fazer renascer a mulher cristã que há em mim. Sem fanatismos nem extremas devoções mas sem vergonhas ou constrangimentos. Deus (dizem) amou uma pecadora porque ela apenas o era aos olhos dos preconceituosos, mas ele amou-a porque era uma mulher boa (e tesuda, certamente). Por isso não me importo de arriscar viver tudo o que a vida tem para me dar. Os lados todos com que a podemos encarar. Não me parece que sejam incompatíveis.

Sou louca? Sou. Sou católica? Sou. E depois? Alguém me vai encarar?





33 comentários:

  1. A questão é que grande parte dos católicos/cristãos sabem pouco sobre a sua própria religião e textos sagrados e de facto aqueles que negam a religião frequentemente são os mais conhecedores - http://articles.latimes.com/2010/sep/28/nation/la-na-religion-survey-20100928

    Toda a gente tem direito às suas crenças pessoais. Eu só tenho problemas directos com isso quando é de alguma forma imposta aos outros ou quando julgam estar acima dos direitos e deveres do resto da sociedade. De resto, tudo bem.

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    1. Gostei do link!
      Claro que quem rejeita uma ideia pode muito bem ser por a conhecer bem, ao ponto de decidir abandonar a mesma. Eu terei, em tempos, passado por um processo semelhante. Quando dei catequese (podes rir à vontade!) percebi que não era nada daquilo em que eu acreditava. Estava a ensinar uma coisa sobre a qual tinha dúvidas. Como qualquer mau actor, acabei por não convencer ninguém e retirei-me de cena. Não deixei de acreditar na história, só não gosto da maneira como a contam.
      Quanto aos problemas de tolerância... estamos de acordo.

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    2. Não sei porque razões haveria de me rir... não é a primeira vez que falo com alguém que andou na catequese, parece-me até que é bastante comum.
      Mas não percebo, pelo conteúdo do post e me dares permissão para me rir é para entender que tens sido consistentemente criticada por te considerares católica?

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    3. Achava que era um tipo com mais sentido de humor... mas tens razão, não há razão para te rires uma vez que não me conheces. Estava a partir da premissa errada, de que me conhecias. Não tem a ver com ser criticada por ser católica, tem a ver com o inusitado da coisa: eu + católica = Ahahaha.... Mas só vendo mesmo.

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    4. Eu tenho muito sentido de humor, mas já estou habituado a que o pessoal religioso seja também o mais devasso =P

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    5. Verdade... hihihihihi (riso malicioso).

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  2. Deve-se ter passado o mesmo ou muito parecido com muita gente que não quer assumir a formação (ou deformação) religiosa-cristã-católica. E digo deformação porque muitas vezes a formação foi mal dada, feita de castigos, de penitências, de sacrifícios, das coisas negativas da vida. Por culpa, muitas vezes, do modo como os seminários, e muitas das instituições religiosas dedicadas ao ensino, funcionavam e ensinavam.
    É pena ver as pessoas a não assumirem a sua religiosidade, a sua espiritualidade, a sua relação com a transcendência.
    Gostei, mais uma vez, do que escreveu e revejo-me em muito do que disse.
    Obrigado,
    Raul

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    1. De facto, muito da minha aprendizagem passou por conhecer um Deus punidor, e isto é coisa que não se entende!
      Claro que mais tarde consegui pensar por mim e perceber que isso não faz sentido nenhum, à semelhança de tantas outras ideias erradas em que nos fazem acreditar.
      O que mudou agora, é que percebi que não há razão nenhuma para deixar de viver uma religião em que se acredita, apenas porque alguém andou durante anos a boicotar Cristo. É capaz de ser a figura da história com a pior máquina eleitoral de sempre :)

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  3. engraçado, sou irreligioso e no entanto não me mete espécie nenhuma alguém ser religioso... falas como se houvesse descriminação? hã? que raio... se dissesses que eras hindu ou satanista, aí compreendia...

    mas isso há parte, o que interessa e teres o tua posição definida (mesmo que isso seja decidir que não irás ter posição definida...) porque na religião, como na vida, há muita gente enganada, muita gente a bater a mão no peito e depois a usar essa mesma mão para as maiores atrocidades...

    como é da praxe, toma lá um video
    http://www.youtube.com/watch?v=hcy40pvGIGQ
    e vê até ao fim...

    ps. epá este tipo de letra lixa os olhos todos !!!!

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    1. Não tem a ver com discriminação por se ser católico. Hoje em dia parece ser mais cool ser-se "irreligioso" e por essa razão, quando alguém assume uma posição, soa a estranho... tão estranho quanto ser-se satanista. Percebes?
      Talvez por, ainda assim, teres crescido num ambiente e contexto social em que conhecias muitos putos que andavam na catequese e nos escuteiros, nem te apercebeste dessas diferenças, mas existe muita gente que nunca teve contacto com qualquer religião por isso, quando têm, existe uma tendência ao gozo e à "descrendice" das maneiras mais intolerantes que possas imaginar.
      Mais uma vez obrigada pelos vídeos... sempre a tentar evangelizar, hein? :)
      De qualquer maneira não percebo porque é que se dá mais credibilidade ao que esta pessoa diz do que a uma que fosse para ali falar de como acredita na religião. Sabes que mais: no fundo ele está a fazer o mesmo que qualquer lider religioso - a aglutinar multidões. Vale o que vale... tal como as coisas que escrevo.

      p.s. - o tipo de letra lixa os olhos a quem já tem problemas neles :P

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  4. Tive uma educação religiosa também.Frequentei a igreja católica e passei por alguns do seus rituais.No entanto, sofri uma grande decepção no convívio com alguns padres e freiras pois estes que deveriam me oferecer um certo conforto contribuíram para que me sentisse mais excluída e discriminada em virtude de minha surdez.Hoje, refiz as pazes com a religiosidade penso que, de certo modo, o que anda a faltar as pessoas é esse resgate de valores - não vou julgar aqui se certos ou errados - que o catolicismo passa aos seus seguidores.Gostei do texto, identifiquei-me com a tua história. Bj

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    1. Como surda, imagino que as discriminações que a têm acompanhado toda a vida já sejam dolorosas que chegue. Não precisava de o sentir da parte de quem deveria ter toda a compreensão e tolerância. Mas, infelizmente, existem pessoas mal-formadas (e sim falo de padres e freiras), em todas as áreas e esta não é excepção. Fico feliz que tenha sabido dar a volta.
      Bjs

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  5. sou deísta. acredito num deus/natureza. nada mais.

    (meu deus, mas por que raios venho eu comentar estes tópicos, dias cães? diz-me! eu quero é ler os teus textos eróticos!!!)

    beijo,

    nAnonima

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    1. Ahahahaha, não querem ver que estás a ser evangelizada?
      Vens, porque não há mal nenhum em ler outras coisas... E eu agradeço e gosto que venhas.
      Quanto aos textos eróticos, inevitavelmente, um dia destes aparecem por aí.
      Sem pressas, apenas quando a inspiração (ou a realidade) assim o quiser.
      Beijos ;)

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  6. Tive a certeza que deus não existia quando o tim lançou um álbum a solo! :|

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  7. A Religião não faz o Homem, já o contrário...

    Acima de tudo defendo liberdade de opção sem fundamentalismos.

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  8. O meu problema não é a religião. Eu amo a religião. O meu problema são os (alguns) praticantes.
    Porque eu sinto Deus comigo todos os dias da minha vida. Não houve nenhum dia em que não o sentisse.

    E negar Deus é crime. Até porque ele deve ser podre de bom na cama.

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    1. As mulheres e os homens andavam todos atrás dele não era só pelas lindas palavras... aposto! :)

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  9. Tive uma educação religiosa também mas perto dos 20 anos tornei-me ateu por opção. Não julgo ninguém nem nenhuma religião. Só crítico o fundamentalismo seja de quem for...mas gostei do teu texto e da tua personalidade bem vincada em cada palavra
    As gargalhadas que dei ao falares de Maria Madalena
    Beijos charmosos
    Tens uma resposta para o teu ultimo comentario no meu BLOG

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    1. Ser católica não obsta a ter um excepcional sentido de humor... como é o meu caso :)
      Entretanto...já li... e irei responder.
      Beijo

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  10. Esta vem mesmo a propósito: http://www.publico.pt/Sociedade/oito-em-cada-dez-portugueses-sao-catolicos-e-quase-metade-vai-a-missa-1542295

    Como vês, estás na maioria. Não é "moda" ser irreligioso, como dizias.

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    1. Não devo ter lido a mesma coisa que tu. Que parte do número de católicos estar a diminuir e o número dos indiferentes, agnósticos e ateus estar a aumentar é que não percebi?
      Além disso não preciso que me andem a provar nada quando nem eu sinto necessidade de o fazer a mim mesma. What's the point?
      Mas obrigada pelo esclarecimento.

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    2. Está a aumentar gradualmente mas continuam a ser a maioria. Ateus e agnósticos são metade dos católicos praticantes e muito menos do total de crentes. Era só para esclarecer que continuas em maioria (cerca de 80%) e creio que 15% da população não é moda. E se essa minoria da população basta para "vexar" diariamente tamanha maioria, como me pareceu estar implícito, é porque essa maioria também não anda a saber marcar a sua posição. Ou, mais provavelmente, não tem de a marcar ou defender porque estão em maioria.

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  11. Doze horas com padres?! Fogo! E não ficaste cansada? Espero que não tenhas estado sempre ajoelhada! ahah

    Olha eu ri-me quando li no outro comentário que deste catequese tu, tão sexualmente poderosa a fazer papel de "freira" eheh
    Mas enfim, afinal eu também estive na catequese e fui batizado e fui muitas vezes à missa! ;)

    Agora só acredito no Pai Natal. Ok e também às vezes na Alice (a do País das Maravilhas), adoro as mamas dela mas não aparece sempre ahah.

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  12. Ui, ui, ui...
    Tantas considerações sobre a minha sexualidade apenas por me leres umas palavras :)
    A minha promissora carreira religiosa teve um fim precoce precisamente por levar uma bela apalpadela de mamas de um fedelho de seis anos. Achei que dar catequese não era para mim. Pelos vistos não lhe andava a dar os ensinamentos correctos :))))

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    1. Eheh brincadeirinha sobre os padres. Mas sabes, deste-me uma ideia para um filme porno que se poderia chamar "12 padres, 12 horas de volta da devota" :))

      Mas pareces-me sexualmente poderosa! Ok podes ter uma imaginação fértil e ser celibatária mas não me parece. :)

      Ui,ui digo eu! Quem me dera ter tido uma catequista com mamas que apetecesse apalpar! Tipo ela debruçada sobre o livro e eu a tentar ver dentro do decote e entre as pernas, com o meu ar tímido e de óculos mas já cheio de revistas playboy debaixo da cama e acima da média em termos de grandeza da fé! ahah

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    2. 12 palavras:
      Não - sou - a - cristã - devassa - que - todos - querem - imaginar - que - eu - sou :)

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  13. Eu acredito em Deus, só me considero formalmente católico e se tivesse que escolher uma religião escolheria o budismo. Acredito que existe Deus mas muito diferente do que as pessoas imaginam, e que já abandonou este planeta há muitos anos.

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    1. Escolher uma religião. Ora aí está uma coisa em que acho que não acredito ou que, pelo menos, não vejo como é possível que aconteça. É como escolher ser hetero ou homo. É possível??? A religião é mais que um templo e um livro. Está, sem que nos demos conta, em mais coisas da nossa vida do que imaginamos, até na maneira livre como nos vestimos, comunicamos, alimentamos, temos fé, mesmo para quem nunca teve uma educação religiosa. Tem a ver com o contexto da sociedade e do país em que vivemos. Eu agora até podia optar por ser hinduísta mas eu faço lá ideia do que é ser hinduísta para além de uns rituais que teria de adaptar à minha vida de mulher ocidental citadina! Isso ainda seria ser hinduísta?
      Bem... lá está a minha tendência para me esticar. Isto dava um filme daqueles de dar sono.
      Quanto à questão de acreditar noutra figura, que não aquela que nos andaram a impingir, estou de acordo. Acho que houve um erro de casting: até escolheram um gajo bom para o filme mas depois deram-lhe um argumento da treta. E ele, por mais boa-vontade que tivesse, milagres não conseguiu fazer (piada fácil mas imprescindível :) )

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  14. Por falar em filmes, já viste "O meu pequeno Buda", do Bertoluci, com o Keanu Reeves e a Bridget Fonda? Gostei mesmo.

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    1. O que me vieste lembrar... Vi há tantos anos. É nestas alturas que percebo que os meus pais me deixavam ver de tudo na televisão.
      Já agora, vamos lá fazer um pouco de serviço público: http://seteantigoshepta.blogspot.pt/2010/04/filme-sobre-budismo-o-pequeno-buda.html
      Sei onde queres chegar. Como referem aqui no link, "O Budismo é mais uma filosofia/ciência do que uma religião"...
      Posso ter de dobrar a língua e rever algumas das palermices que escrevi :) Get it!

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