quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A criança índigo



"Crianças índigo - é uma teoria que afirma que, supostamente, uma nova geração de crianças com habilidades especiais estejam nascendo e que estariam trazendo uma "Nova Era" para a Humanidade. Essas crianças, segundo a teoria, teriam habilidades sociais mais refinadas, maior sensibilidade, desenvolvimento profundo de questões ético-morais e portariam personalidades peculiares que possibilitariam facilmente sua identificação em meio a outra crianças. Embora farta literatura tenha sido publicada nos ultimos anos, não há comprovação científica sobre o fenômeno, bem como o sistema de classificação "crianças índigo" e "crianças cristais" é rejeitado por conselhos de pediatria e especialistas em educação infantil. As crianças indigo são também comumente associadas a Geração Y. As crianças índigo apresentariam uma série de atributos sensoriais recorrentes, como a hipersensibilidade auditiva ou a hipersensibilidade tátil. De igual modo, apresentariam um padrão de comportamento peculiar, destacando-se:
- Chegam ao mundo com sentimento de realeza e a curto tempo se comportam como tal;
- Têm a sensação de ter uma tarefa específica no mundo, e se surpreendem quando os outros não a partilham;
- Têm problemas de valorização pessoal e a curto prazo dizem a seus pais quem são;
- Custa-lhes aceitar a autoridade que não oferece explicação nem alternativa;
- Sentem-se frustrados com os sistemas ritualistas que não requerem um pensamento criativo;
- A curto tempo encontram formas melhores de fazer as coisas, tanto em casa como na escola;
- Parecem ser anti-sociais, a menos que se encontrem com pessoas como eles;
- Não reagem pela disciplina da culpa;
- Questionam frequentemente os dogmas religiosos, não os aceitando naturalmente como tradição familiar;
- Não são tímidos para manifestar as suas necessidades."

In Wikipedia


A menina nasceu azul. De início ninguém notou. Só lhe viam os predicados cor-de-rosa. Mas o seu tom de amora revelar-se-ia ainda antes da idade de aprender as letras e os números. Muito antes de calçar os primeiros sapatos pretos de salto alto e de esconder os lábios num batom escarlate. Muito antes de descobrir os beijos doces de um primeiro amor fúscia. Muito, mas muito antes, de recolher beijos verdes, de podres, dos amores canastrões. 
A menina azul soube que era especial mal saiu do ventre da mãe. Tomou consciência da sua grandeza quando foi deixada aos cuidados da ama e, olhando para os outros meninos, viu como eles eram transparentes e ela não. Não tinham cor. Quando ela parecia uma caixa de lápis de cera, com todas as cores a que se lhes conhece o nome, os outros pareciam-lhe apenas um borracha. Nada se construía nos caminhos dessas crianças pálidas, ao passo que na sua vida se rabiscavam linhas de cores profundas em todas as direcções. Porque o bem tem muitas cores. Todas as cores.
Com os anos a passar experimentou algumas vezes o cinzento das pessoas que insistiam em travar-lhe as boas intenções. Essa situação por vezes amargava-a um bocadinho lá no fundo da garganta, outras vezes sabia-lhe a amarelo fluorescente: fresco! Era nessas alturas que voltava a ser azul e a ajudar os outros. Era por essas pessoas que se sentia azul. Era por estas pessoas que não valia a pena fugir do seu destino da cor do céu. Percebeu que não podia continuar a fingir que era púrpura, ou castanho, ou bordeaux... era azul. Simplesmente, azul índigo.

A menina fez-se mulher. Ganhou coragem para encarar o seu azul profundo... muito mais profundo que algum dia ousou pensar. Agora só não sabe se há-de mergulhar nele ou emergir. Assumir o seu esplendor ou recolher-se a uma insignificância que sabe não ter.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Inverno que chora



Amanheceste difícil. Com maus modos e vontade de brigar. De cara fechada, as lágrimas ameaçaram cedo cair. E assim sucedeu. Depois de lutares contra as cores saturadas do dia em que nasceste, lá cedeste. Choraste copiosamente. De quando em vez erguias a cabeça e cessavas. Depois perdias-te e voltavas a desesperar-te. Choraste muito. Agora, que já vão tardias as horas, ainda choras. Temo que amanhã ainda sofras do cinzento que te engoliu. Entrego-me às tuas intempéries em como assim ficarás por muitas luas e marés. 
Hoje começaste uma jornada que perdurará por tempos incertos. Essa incerteza dorida pela qual eu ansiei nos dias passados. Nos muitos dias tórridos que conheci antes da tua chegada. Mas sabes bem... Essa penitência de frio a que me sujeitas é o meu alento para as depressões que se fazem adivinhar. Os pensamentos que vagueiam entra a melancolia e a morte não se compadecem com os tons dourados de outras épocas. Apenas o teu breu é capaz de alimentar o desalento que me irriga e faz caminhar.
Chegaste de rompante (como se não fosse previsível que virias) e encheste-me a vida. Mataste a de outros em meu benefício. Agradeço-te por isso. Muitos não reconhecerão a tua generosidade.
Apesar de te conhecer choroso, é nessa fraqueza que te admiro. Porque não conheço mais nada em género masculino que chore tanto como tu. Porque nasci em ti e sabe Deus que em ti morrerei um dia. Porque vi o mundo pela primeira vez num dia demasiado invernoso, para quem era tão desprotegido. A protecção que sempre me deste só pode ser entendida por um pai que recolhe uma filha sob a sua enorme capa preta. Obscura mas protectora. Incompreensível mas cúmplice.
Quedei-me de amores por ti desde o dia em que nasci. Será a única razão porque choro metade do ano em que não estás. Será a única razão porque lamento-me os outros seis meses a inevitabilidade do teu fim.
Tu, aquele que não é amado por ninguém, és aquele que mais adoro.

Obrigada Inverno por teres chegado para me aconchegar e me ouvir nos dias pálidos em que ninguém me compreenderá. Podes continuar a chorar. Vou estar a teu lado.







sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Polargiving

Acreditem que é uma boa maneira de nos sentirmos úteis e, em contrapartida, sentirmos que alguém está disposto a fazer algo em troca. Eu decidi ser generosa, consequentemente, alguém também o foi comigo. Não deveria ser sempre assim?

Texto e ideia da Pólo Norte do Blog Quadripolaridades



"A Inês precisava de companhia para um café numa esplanada em Lisboa. A Luísa ofereceu-se. Por sua vez, a Inês vai potenciar um contacto ao Paulo. A Luísa vai aceitar uma lição de desenho do Pedro.
A Ana precisava de um contacto na área do Jornalismo para conversar. A Pólo Norte chegou-se à frente.
A Catarina queria companhia para ir ver o Cristo-Rei. Alguém logo se voluntariou para a acompanhar.
A Bárbara precisava de explicações de Biologia e a Isa não se fez de rogada.

Há quem chame ao conceito "Banco de Tempo". Há quem se lembre do filme "Favores em cadeia" e associe. Eu chamo-lhe "generosidade".
Porque os leitores do meu blog
http://quadripolaridades2.blogspot.com/ são os melhores mesmo.

Estão em cima da mesa as seguintes ofertas: fazer instrumentos musicais, um abraço, livros juvenis, ajuda para fazer uma carta de amor, livros, um gato, ajuda para criar um blog,  fotografias de paisagens, ajuda para fazer retratos (em fotografia), para organizar uma exposição, tradução de textos inglês português, partilha de bibliografias sobre artes visuais e arte para mudança social. partilha de links para filmes, ajuda no planeamento de viagens, companhia para ir ao cinema, uma aula de como fazer risotto, acompanhar mães adolescentes, uma visita turística a S. Miguel, um postal do Quénia na caixa do correio, guarida em Cascais, aulas de viola, lições de italiano e letão, casa em Riga durante uns dias, uma sessão de life coaching, uma lição de yoga, um bolo de chocolate...



(A regra é que para se receber qualquer uma das ofertas explicitadas no Facebook tem que se ter algo para dar em troca também)





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O louco



"O Louco é o vigésimo segundo Arcano Maior do Tarot ou, simplesmente, o número 0, conforme os baralhos. Esta carta representa um jovem leve e solto, que caminha a tocar flauta. À sua frente está um precipício. Tem uma trouxa às costas, há uma borboleta que voa por ali e um cão que lhe morde o calcanhar. A carta tem o número XXII e a letra hebraica TAU (no Tarot de Thoth / Crowley a letra ALEPH). Busca, desapego, impulso, excitação.

SIMBOLOGIA
No louco, tudo é leve e solto. Isto pode trazer inquietação e actividade, pode trazer mudanças àquilo que está estagnado. O cão tenta avisá-lo do precipício que tem à frente, mas parece que ele nem percebe, por estar distraído a olhar a borboleta, livre. Simboliza o desligamento da matéria, uma história a ser vivida, continuar vivendo a vida sabendo que algo surpreendente poderá acontecer e aceitar esse fato despreocupadamente. O acaso irá resolver tudo. Pode ser interpretado como despreocupação, curiosidade de experimentar coisas novas ou até mesmo um pouco de confusão. Também pode significar que o Louco partiu em busca de algo que procurava, como um desejo que de repente extravasa, uma busca que foi sufocada durante muito tempo. Geralmente o conselho é seguir a espontaneidade e estar aberto para tudo aquilo que a vida tem a lhe oferecer. Deve-se aceitar que você é um aprendiz da vida."


in Wikipédia



A intenção deste texto nem seria originalmente esta. Queria construir a história de um velho louco, perdido pelas ruas desta cidade onde vivo. De um velho ou de diversos velhos. De velhos, de novos, de homens e de mulheres, de loucos ricos e pobres; porque esta cidade está cheias deles e já mereciam que eu lhes dirigisse a palavra. Contudo, na fase prévia à das palavras, tenho por hábito procurar o significado das coisas no dicionário, ler outros livros, procurar imagens, associar uma música... enfim, perceber o espírito daquilo sobre o qual quero escrever.
E foi nesse novelo de informação que me deparei com a carta de Tarot "O Louco". E eu gosto desta carta. Talvez a carta que prefiro logo depois da "Roda" e da "Morte". Mas o que importa agora, para se entender o interesse em alterar a direcção de um texto, que poderia ser mais interessante dentro do campo da ficção, é o significado da carta em questão, e a sua aplicabilidade em nós, homens e mulheres. De facto alguns de nós são loucos, em gradações variadas, mas todos o somos, ou fomos, em algum momento. E eu gosto de pessoas desprovidas da noção da realidade. Digo muitas vezes que são os loucos que me "levam no bico". Que é como quem diz, que tenho uma predilecção por gente louca, diagnosticada ou não. E isto nem tem qualquer sentido depreciativo ou até irónico. É a realidade assustadora da minha personalidade. Aqueles a quem chamam malucos, doidos, esquizofrénicos, alucinados, bipolares e por aí fora, são, regra geral, pessoas por quem acabo por nutrir uma empatia não comum. E não é pena. É admiração e curiosidade. Gostava de saber o que lhes vai na cabeça.
O que não se pode confundir são esses ditos loucos com os seres comuns que não são loucos mas são apenas néscios, idiotas e fracos de princípios e moral. Esses são só parvos e, de algum modo pouco inteligente, perigosos. Esses são apenas poeira em forma de gente. E é em relação a esses que tenho qualquer coisa a dizer. Também passo a vida a cruzar-me com eles. Conheço alguns, por contingências da vida, e conheço outros porque tinha o filtro avariado e não percebi a tempo quem eles eram. Acontece a todos, creio!? Esse tipo de gente não me merece o respeito mas perco tempo da minha vida e energias que não deveria despender. Infelizmente é isto que acaba por acontecer. Não nos servem de nada a não ser para nos consumir e posteriormente nos caírem na consciência como um erro que não deveria ter ocorrido. E o que é que se faz a estes idiotas que andam aos tropeções pelas paisagens (até nos resvalarem em cima apesar dos múltiplos avisos) que o melhor para todos seria terem os dois pés bem assentes no chão?
Pois nada.... Engole-se em seco, amargura-se um bocadinho, chora-se por não mais de cinco minutos e depois... Depois segue-se em frente sem deixar rasto, para que o caminho não fique a descoberto e eles possam vir atrás.
Um dia hei-de escrever sobre os loucos que me merecem consideração porque hoje não passou de mais que um desabafo que não se podia ficar pelo papel.

Posto isto, segue o recado:
"E foi por isto que quando te disse que não me queria apaixonar por ti, por saber que não havia um futuro, que tu me respondeste que só pensavas no presente. O que contava era o momento, sem olhar em frente. Que não pensavas muito no que estará por vir.
E eu ainda nem sabia que era inevitável o desastre. Apesar de te ter servido de cão para avisar do precipício, preferiste não pensar e ir atrás das minhas lindas borboletas. O meu sagrado Paná-paná que há mil anos descansava inerte no fundo dos meus sentimentos.

Caíste, pois caíste. E eu não te irei erguer."







terça-feira, 18 de outubro de 2011

Paná-paná



"De acordo com o Dicionário Aurélio o termo correcto seria Panapaná, que tem como significado: "Bando de borboletas, que migram em certas épocas, formando verdadeiras nuvens". Um Paná-paná destingue-se de um mero aglomerado de borboletas quando se trata de um número invulgar e excessivo de borboletas."


in Wikipédia



A minha barriga andava assim. Um Paná-paná gigante. Sentia milhões de seres a debaterem-se dentro de mim. E com eles sentia também um certo incómodo. Não um incómodo de dor. Antes diria de paixão. Tinha um mundo de borboletas na barriga a multiplicarem-se por cada segundo que pensava em ti e isso não podia ser meigo. Era, sim, de uma violência atroz para este fraco estômago que não se acostumou a ser habitado por sedas nem veludos. Estas asinhas delicadas que me tocam o estômago substituem um ácido que durante muito tempo por aqui fermentou e corroeu esperanças. Estas borboletas trilham um caminho inóspito, marcado por pegadas de animais violentos e por uma paisagem desprovida de beleza e prosperidade. 
Mas este Paná-paná é diferente do que já vivi. Apesar de intenso, adocicou os sentimentos com o pulsar dos bateres de asas. Entrou lentamente para me amolecer. Não foi como noutros tempos, em que me confrontei com manadas,  e revoadas, e cardumes, e enxames. Desta vez não soube o que eram marradas, nem cornadas, nem ferroadas, nem bicadas. Apenas conheci o bater de asas de milhões de borboletas no estômago. Foste o meu Paná-paná. Foste. Foste-o antes de desapareceres com a chegada do Outono.

Se é melhor sentir o veludo das asas no estômago, então porque insististe em marrar-me com os cornos no peito?





terça-feira, 11 de outubro de 2011

Chama-me puta


Pedia-te que me chamasses puta. A tesão era maior. No início tinhas medo de me ofender, depois percebeste que uma mulher de vez em quando tem de ser ofendida para se entregar com mais corpo.
Começava por criar a personagem, sempre de roupa interior preta, muito pequena, com meias de liga aprumadas, maquilhagem carregada nos olhos, um batom vermelho nos lábios, o cabelo impecavelmente apanhado, o perfume intenso. Era a puta dos teus sonhos. Cara. Exclusiva. Muito devota aos teus desejos. Indisciplinada o suficiente para te dar umas palmadas e te morder impiedosamente. Nas cenas de sexo compulsivo agarravas-me as carnes do corpo com os dedos de uma mão ferrados nas nádegas para me empurrares mais contra ti. A outra mão agarrava-me o cabelo de modo violento, como só o teu amor sabia fazer. Usavas-me para satisfazer os teus caprichos enquanto eu encarava o acto como trabalho que tinha de ser feito. Sorria perversamente para ti enquanto te espremias para te conseguires vir. Sorria-te com toda a filha da putice para te sentires mais excitado. Para me veres a levar contigo, com toda a satisfação e sem qualquer esforço. Por pura sacanice.
Quando estavas quase a conseguir, e desesperavas por um estímulo triunfante, lambias-me as mamas, chupavas-me os mamilos e caminhavas, lentamente, com a língua pela minha pele até ao meu ouvido, e sussurravas "diz-me palavrões sua putinha". Na realidade bastava dizer-te um "fode-me". A dureza de ti dentro de mim emergia e desvanecia-se em um minuto. Vinhas-te. Fechavas os olhos. Gemias. Estremecias. Perdias o poder. Eu ganhava-o. Apenas naquele momento, porque mais tarde havias de voltar a mandar em ambos. 

Pela manhã abandonavas sempre a cama antes que a lamechice depois do sexo pudesse falar. Os lençóis suados eram deixados para trás sem palavras nem complacência.
Afinal de contas, tinha sido só mais uma foda.





domingo, 9 de outubro de 2011

Palavras de um Amor Naïf



Fui mulher muito amada por palavras, pouco amada com a razão. 
As cartas que se seguem estão longe de me ter dado palpitações noutros tempos, mas hoje não consegui ficar indiferente quando estas me caíram da estante, num dia de arrumar livros.


Estas são algumas cartas de amores, de outros tempos, que descobri cá por casa... 
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(Por ocasião da oferta de um livro... com o meu nome)


"A história de uma mulher forte para outra mulher forte.
 Minha XXXX,
XXXX minha,
XXXX da minha alma...
Esta é a minha prova de gratidão humilde, pela forma como marcaste e marcas a vida deste mortal!!!


Para a PRINCESA,
do YYY."

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(oferecido com uma pregadeira com formato de estrela)


"Para a XXXX.
Uma pequena estrela para uma ESTRELA MAIOR!
Do YYY, o seu fã n,º 1.
Lista de fãs da XXXX:
1º - YYY
2º - ... (?)
3º - ... (?)
4º - ... (?)
...
(?)
P.S.: Isto serve também como agradecimento (pequeno) do turbilhão de emoções que tens despertado em mim... principalmente quando dizes ou escreves que gostas de mim ou que me adoras!


YYY"

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(com a oferta de outra pregadeira em forma de estrela... sim, a segunda...)


"... Uma estrela do mar, da Costa Alentejana, entregou-me isto para eu oferecer a uma estrela de terra firme...
Para a minha abobrinha de sempre e para sempre!
"Eu choro pelo meu amor...
Eu choro pelo meu amor...
Tão perto e tão longe... não sei onde vou parar...
Tão perto e tão longe... não sei onde vou parar...
... sozinha, no escuro... perdido, esquecido...
... uma hora, outra hora... eu choro pelo meu amor...
Tão perto, tão longe...
... Não sei onde vou parar."


A pensar em ti!"
YYY

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O tom pueril não faz prever que se tratam de bilhetes com pouco mais de 5 anos.
Demonstram, contudo, que andávamos em pontos diametralmente opostos sobre o que queríamos um do outro.
Eu queria sexo. Ele queria amor. 
As mulheres são tramadas.

A única coisa que me consola nisto foi nunca ter dito que o amava ou que estava apaixonada.
Fiquei-me por um "gosto de ti" e um "adoro-te".
Pelo menos fui coerente.
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O álbum




O álbum de fotografias. O cão. O relógio de pulso. As roupas. A aliança. A máquina fotográfica. A garrafa de Porto com mais de 30 anos. "O Muro" de Sartre. "A Metamorfose" de Kafka.
Por mais que quisesse salvar-se juntamente com todos os bens que o preenchiam e identificavam como homem, teria de abandonar todos sem hesitações ou lamúrias.
O tempo esgotava-se e mal conseguia oxigenar as ideias que o podiam salvar daquele lugar. Ofegante, de fumo e de gases, as vistas também não encontravam o caminho. O desnorte aumentava perenemente. Urgia arrastar-se dali.

As chamas que começaram por lhe consumir o sofá, onde adormeceu de cigarro intermitente, alastraram-se como crude pela alcatifa e pelos livros. Nem as viu nascer e antes que as visse medrar já lhe engoliam a casa e as recordações.
Pelo meio das trampas que acumulava sem sentimento, existiam os objectos a que guardava culto e adoração. Aqueles que nunca imaginou morrerem antes de si. Aqueles objectos que para ele seriam uma espécie de sombra da sua passagem pela vida. Aqueles que fariam um retrato de si para os que viessem depois. Não eram objectos de conforto para satisfação fugaz. Eram objectos que contavam a sua história.
No meio da escuridão incandescente sentiu passar pelos seus pés o seu cão Rimbaud. Um fidelíssimo Jack Russel Terrier que que lhe aconchegava a solidão quando entrava em casa e deixava o mundo para trás da porta. Olhava o dono com doçura em ângulo íngreme, punha a cabeça a jeito de uma festa e depois seguia para o seu tapete. O Rimbaud era o companheiro mais discreto que poderia ter desejado. Nunca o deixaria ficar mal.
Ter procurado o seu socorro naquele momento indiciava a aflição do animal. Se Rimbaud não sabia a direcção da porta da rua, quem mais saberia? A garganta estreitou-se de realidade. Não conseguiria sair dali. Continuou rasteiro pelo chão, amagado por objectos projectados pelo calor e pelas chamas. Alguns reconhecia-lhes as formas, muitos outros não passavam de coisas vagas. O desmoronar de centenas de livros naquele momento derem-lhe um conforto estranho por perceber que estava no sítio certo. Em contraponto, nauseou-se ao realizar que milhões de palavras se perdiam naquele momento. Por causa de um estúpido cigarro! Lembrou-se de passagens de Kafka, de Sartre... do próprio Rimbaud... "Manhã coberta, em Julho. Um gosto  a cinza voa no ar...". Perdia-os agora. Os seus livros. Serão sempre diferentes dos outros milhares que correm pelo mundo.
Os olhos arregalaram-se! O álbum! caíra-lhe o álbum em cima. Não podia perder outras memórias. As lembranças dos quarenta anos que lhe antecederam. Coisas que a mente tinha apagado ou esquecido mas que aquele álbum sempre estava lá para ressuscitar. O álbum. Antes morrer a ficar sem uma vaguidão do que foi a sua sumida, mas relativamente feliz, vida. Não podia continuar. Agarrou-o mais que a própria vida e batalhou para o salvar. Para o salvar mais que a ele próprio. As coisas que um homem faz sem sentido algum para a sua própria existência... desnorteado... estava desnorteado.
Um folgo de ar fresco quase o tombou. As luzes epilépticas assinalavam a sua urgência. Salvou-se um homem. E a sua vida. E a sua vida dentro de um álbum. Rimbaud ficara para trás. Tanto o das palavras. Como o amigo.

No conforto da pensão, em que havia de ficar nos próximos tempos, abriu solenemente o álbum a quem quis salvar a alma. De emoção nos olhos, exasperava-se por ver a sua vida, como se de postais se tratassem. Como se o episódio do incêndio se extinguisse desde que as memórias, falsamente coleccionadas em papel, se mantivessem intactas. Finalmente, ao abrir o álbum, estranhamente desfigurou-se-lhe o rosto: não havia mais passado. Não existiam imagens. O calor das chamas consumiu a sua história de quarenta anos. Nesse momento olhou para dentro de si e percebeu que todas elas estavam lá. Nunca de lá saíram. Nenhum fogo poderia eliminá-las. Para quê agarrar-se a um monte de folhas, cronologicamente organizadas, como se elas soubessem melhor que ele, como teria sido o seu passado?

A estranheza das prioridades, que estabeleceu naquele dia, havia de dar-lhe que pensar até ao fim dos seus dias. O fiel Rimbaud não teria morrido.


Ao Tiago, por ter sugerido este tema... "Que objecto eu salvaria se houvesse (por exemplo) um incêndio?"





segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Amor por correspondência



Todos os dias, à mesma hora, escrevia-lhe cartas de amor, indulgentes e sofridas de saudade. Umas contemplavam-lhe a beleza imaginária, outras enalteciam-lhe os traços do carácter nobre que, tão docemente, a confortavam. Sentia uma mescla de coisas na pele e nas mãos, à medida que desenrolava letra atrás de letra. Que fazia nascer linhas de amor atrás de linhas de paixão. Que paria uma carta depois de outra, como se de um parto demorado, mas prazeroso, se tratasse, depois de lhe conhecer o desfecho. As horas à escrivaninha, entregues aos amores de um desconhecido, elevam-lhe os pensamentos ao mais puro dos planos que compõem um ser humano. Escrever palavras dirigidas ao seu amado ascendiam-na a mulher de sorte e de bons princípios. De moral e de respeito, como esperava ser reconhecida e como, no fundo, acreditava ser o homem a quem escrevia de mão fervente. 
Um dia a rapariguinha, cândida como as folhas que ameigava, ambicionou mais. Muito mais do que o decoro permitia a uma jovem platonicamente apaixonada por um estranho. As palavras, que compunham as frases, que escreviam o texto, haviam de abandonar o ninho onde todos os dias eram alimentadas.
Dobradas a preceito, como papel pardo envolvendo uma pena de ganso,  as cartas aninharam-se em envelopes perfumados, um após o outro, decorados com sisal, como se esse sisal prendesse as palavras até chegarem ao destinatário. Gostava de sonhar que o desatar da linha libertava todas as palavras, como um halo esplendoroso em direcção ao seu amor, onde este se quedava de admiração por tão belas palavras desenhadas.
O jovem rapaz não havia, contudo, de entender logo as inquietações da sua admiradora secreta. Nunca conheceu a existência de uma escrivaninha de carvalho arranhada de tantas palavras nela serem escritas, nem percebia o jasmim que perfumava o papel das cartas. Jamais entenderia que aquele amor era guardado por sisal por este ser o mais resistente dos guardiões.
Mas o mistério tomou conta dos seus dias. Invadiu-lhe as ideias e as noites. Mudou-lhe as rotinas que teimava em não largar. Agora, todos os dias, à mesma hora, aguardava impaciente a chegada do carteiro, que marotamente sorria por saber que cartas bem aprumadas vinham de mãos de jovens raparigas.
O bom rapaz, como ela suspeitava ser, era-o de facto e dedicou-se a namorar um amor desconhecido por rendição às lindas palavras que nunca lhe tinham ofertado. 
Desamarradas algumas folhas do calendário, a cabeça pairava ainda mais no ar, denunciando a todos os sintomas da sua enfermidade: estava apaixonado. 

Quando os seus lábios se conheceram, os seus corações há muito que se amavam. Trocaram o primeiro beijo, muitas luas depois, ao entardecer do Outono. 





domingo, 2 de outubro de 2011

As sósias


E agora uma coisa que não tem nada a ver... porque chega de coisas sérias.

É incrível como, desde que me conheço por gente, sempre fui comparada com alguém conhecido. Mesmo quando não sou comparada com pessoas conhecidas do público em geral, há sempre uma alma que diz: "faz-me lembrar alguém...". O que não terá nada a ver, certamente, com o facto de ter uma figura comum para mulher latina, morena e rodas-baixas. Nada mesmo!
Apesar de não ter tido um começo auspicioso, dado o desenvolvimento fisionómico que se vê, já considero que, afinal de contas, ser parecida aos cinco anos com a apresentadora Ana Paula Reis não era mau de todo. Comecei por me parecer com uma pessoa da idade da minha mãe o que não é, percebo hoje, necessariamente mau, ainda que me remeta para um mundo paralelo como o de Benjamin Button. 
Com o andar dos anos, e a invasão das novelas brasileiras, a adolescência trouxe-me qualquer coisa ao rosto que, aos olhos das outras pessoas, me posicionava ao nível da Nívea Stellman que, era gira sim senhora mas, convenhamos, seria um exemplo um pouco exagerado para comparações. 
Mas o grande pesadelo havia de chegar, algures em 2007, quando Vânia Fernandes ganhou a "Operação Triunfo" e ainda se esticou para o "Festival da Canção". Chamavam por mim (ela) na rua, diziam entre dentes "olha a senhora do mar", e... atenção... cheguei a dar um autógrafo porque a pessoa não acreditava que eu não era a Vânia Fernandes. Mas ainda piorou. Pessoas que me conheciam de vista, há anos, chegavam a perguntar à minha mãe: "então a Vânia está boa?". 
É caso para dizer: Não há cu para isto!
Mas o mais curioso é que, no mesmo ano, com o filme "Death Proof", à saída do cinema me dizem: "és parecida com a miúda da lap dance". Ui! Isso é que foi ficar feliz! Que a Vanessa Ferlito é grande canhão e com comparações dessas eu não me importo. 
Se seria uma boa oportunidade para comparar a Vânia com a Vanessa? Seria. Mas é tão descabido que nem vale a pena. O que interessa é que, ainda hoje, gosto de pensar em mim como uma Vanessa Ferlito (ainda que siamesa da Vânia Fernandes).
Com a idade, sabe-se, perdem-se encantos mas ganham-se tantas outras coisas. A Sara Ramirez (Dr. Callie Torres em "Anatomia de Grey") passou a ser a minha sósia mais provável para muito boa gente. Pelo cabelo, pela tez, pela corpulência (não tenho ilusões) mas sobretudo pelo rosto! E quem me conhece dizia que até a postura, a voz e a atitude eram parecidas. A isto nunca saberei responder, porque me falta o distanciamento, mas está-se mesmo a ver que não me importava nada com esta comparação, não fossem as semelhanças entre nós ficarem-se só mesmo por aqui.

E chego, finalmente, à razão que me levou a escrever sobre as minhas sósias ao longo desta vida:
Renego qualquer parecença com a Fanny do "Secret Story". Fim de história.

(bem me podia ter ficado pela Ana Paula Reis)





sábado, 1 de outubro de 2011

Para maiores de 30...





Nem tenho particular interesse por estas conversas da treta que se encontram na net, a cada pesquisa no Google mas, tendo em conta o contexto emocional actual, creio que pode fazer sentido aparecer pelo meio dos meus pensamentos.

Afinal de contas aqui escreve-se sobre dias cães...

(Escrito por Andy Rooney, apresentador do programa da CBS "60 Minutes")



"Para todas as mulheres com mais de 30 anos... e para aquelas que têm medo de entrar nos 30... e para os homens que têm medo das mulheres com mais de 30!
À medida que vou envelhecendo, valorizo cada vez mais as mulheres com mais de 30 anos, porque:

- Uma mulher com mais de 30 nunca te acordará a meio da noite para perguntar "Em que é que estás a pensar?". Ela não se importa com o que tu pensas.

- Se uma mulher com mais de 30 não quer ver o jogo de futebol, não se senta a teu lado a lamentar-se. Ela faz alguma coisa que queira fazer e, por vezes, é algo mais interessante.

- Uma mulher com mais de 30 conhece-se suficientemente bem a si própria para estar certa de quem é, o que quer e de quem o quer.

- Poucas mulheres com mais de 30 anos ligam alguma ao que tu possas estar a pensar sobre ela ou sobre o que ela está a fazer.

- As mulheres acima dos 30 têm dignidade. Raramente terão uma discussão aos gritos contigo na ópera ou no meio de um restaurante chique. No entanto, se tu mereceres, não hesitarão em dar-te um tiro.

- As mulheres mais velhas são generosas nos elogios, muitas vezes não merecidos. Elsa sabem o que é não ser apreciado.

- Uma mulher acima dos 30 tem segurança suficiente para te apresentar às amigas. Uma mulher mais nova acompanhada de um homem ignora frequentemente até a melhor amiga porque não confia no homem perto de outra mulher. Uma mulher com mais de 30 não se podia estar mais nas tintas se tu te vais sentir atraído pelas amigas dela, não porque confie em ti, mas porque sabe que elas não a trairão.

- As mulheres tornam-se psíquicas à medida que envelhecem. Nunca terás de confessar os teus pecados a uma mulher com mais de 30. Elas sabem sempre.

- Uma mulher com mais de 30 fica bem a usar um batom vermelho brilhante. O mesmo não se aplica às mulheres mais novas.

- Depois de ultrapassares uma ou outra ruga, vais ver que uma mulher com mais de 30 anos é de longe mais sexy do que qualquer outra colega mais nova.

- As mulheres mais velhas são correctas e honestas. Dizem-te imediatamente que és um idiota se te estiveres a comportar como tal. 

- Sim, nós elogiamos a mulher com mais de 30 por várias razões. Infelizmente, não é recíproco. Por cada bela, inteligente, segura e sexy, mulher com mais de 30 anos, existe um careca, barrigudo, em calças amarelas a fazer figura de parvo com uma empregada de mesa de 22 anos!"