terça-feira, 26 de julho de 2011

Discípula de ninguém




Vieram homens e mulheres de corações encortiçados e palavras de vidro. Vociferavam enormidades sem saber da sua razão. Empeitavam princípios preconceituosos do topo de toda a sua arrogância. Julgavam-se intocáveis e detentores da toda a moral da humanidade por nunca ninguém lhes ter dito o contrário. Eram podres nas vísceras que vomitavam pela boca que revestiam de uma verdade apenas sua. 
Aquela mulher nunca se vira rodeada de tantos asnos, apesar de saber que a sua punição viria de um povo ignorante e néscio que, às portas de a ver ser julgada, não hesitaria em fermentar os ácidos do seu hebetismo. Ela sabia o que a esperava de espanto no rosto mas sem novidade na alma. Sabia que o povo que a havia posto no mundo, e criado da maneira que soube, não lhe havia de reconhecer a sua grandeza e distinção. Por isso a crucificavam agora. Por querer romper regras, viver sem amarras, não seguir leis nem religiões. Por acreditar no valor das pessoas mas não ceder à ideia de que há pessoas que têm mais valor que outras. Não respeitava hierarquias por não aceitar que entre humanos existam os que são deuses e os que são dejectos. Acreditou sempre na igualdade. Acreditou sempre na liberdade.
Por não se subjugar às ideias dos outros, não se encarneirar nos pensamentos e ideais que se propagam como vírus, não aceitou receber ordens de ninguém, não por falta de disciplina mas por lealdade aos seus princípios. Não baixou a cabeça a mandatos. Não se intimidou com chantagens. Não se calou às injustiças. Não se moveu com ingratidões. Lamentou a inveja. Riu-se da ignorância. Ensinou os mal-amados. Encarou os mentirosos.
Acima de tudo, respeitou e esperou respeito. Acima de tudo amou e esperou ser amada. Mais que tudo quis dar olhos a quem não os tinha e dar coração a quem o nunca teve.

Ataram-lhe as mãos. Cozeram-lhe a boca. Trocaram-lhe os olhos. Mataram-lhe a língua. 
Mas nunca se deixou disciplinar quando lhe quiseram arrancar a razão.



domingo, 24 de julho de 2011

Suprematismo


"Estilo e movimento surgidos na década de 10 do século XX e que se prolongou até 1919, tendo como ponto de partida a obra do pintor abstrato russo Kasimir Malevitch e cruzando influências do Cubismo e do Futurismo. A sua primeira obra suprematista, um quadrado negro sobre fundo branco, denuncia a importância do papel que a geometria desempenhava neste estilo.  Em 1915 Malevitch publicou um manifesto onde propunha uma arte radicalmente abstrata, insistindo na supremacia das formas geométricas como elementos-base da composição, acompanhando-o da exposição de um conjunto de pinturas abstratas e geométricas. A representação figurativa de objetos ou simplesmente de ideias era totalmente recusada, fundamentando a pesquisa estética nos "puros sentimentos artísticos". 

A sua obra Quadrado Branco sobre Fundo Branco, de 1918, constitui o culminar desta estética da redução e torna-se de imediato o emblema do próprio movimento. Aqui, a forma destaca-se do fundo exclusivamente por subtis alterações de pinceladas, recusando qualquer diferenciação tonal. A radicalidade desta obra no sentido da máxima abstração motivou Malevitch a declarar, no ano seguinte, a morte ou esgotamento do Suprematismo enquanto experiência estética. Embora tendo conhecido pouco impacto na país de origem, o Suprematismo e a obra de Malevitch tiveram grande influência na arte europeia, nomeadamente em Kandinsky e nos artistas do grupo De Stijl. Considera-se ainda um dos movimentos precursores do Minimalismo."




Não sei se haverá melhor forma de viver rendido à paixão por outrem que não seja por "puros sentimentos artísticos". 
A mim parece-me perfeito! A metáfora perfeita!



sábado, 23 de julho de 2011

O mundo contra nós




Se acreditarmos que existe uma pessoa considerada o par perfeito para todos nós, então amargura-me pensar que existe apenas uma possibilidade num bilião de encontrar essa pessoa exacta para cada ser humano. A tal correspondência perfeita. A metade da laranja para a outra metade. O testo para cada uma das panelas.
Acho impossível que 50% da população existente tenha os outros 50% para escolher o seu par perfeito ou, caso contrário, não existiriam pessoas sozinhas, nem passaríamos a vida de candeias às avessas com os nossos parceiros, numa dança de junta/separa, casa/descasa, ama/odeia.
Essa impossibilidade é adensada pelas questões geográficas, uma vez que a probabilidade de vir a conhecer "A Pessoa" estará drasticamente reduzida se, por um acaso, essa pessoa se encontrar para lá das Ilhas Pitcairn em vez de me estar geograficamente mais próxima.
É por isso que acredito que o leque de opções de cada ser humano é muito mais vasto que aquele que nos é apresentado no presente. Acredito que a nossa cara-metade pertence ao maior número de seres humanos que já passou pela terra: sem condicionantes temporais, sem fronteiras, sem língua, sem raça, sem religião. Toda a população mundial é chamada para esta equação e isso torna mais difícil a existência da correspondência perfeita, bem como a probabilidade de um dia destes nos cruzarmos a uma esquina com o coração perfeito. Se toda a população, desde o início da humanidade, contar para as correspondências, então posso ter perdido a minha oportunidade há cem mil anos atrás ou, então, estar avançada no tempo e a minha metade ainda estiver para nascer lá para o ano 3050... o desfasamento temporal pode ser tão brutal que podemos nunca nos cruzar na vida com essa pessoa.
Assim, apesar de ser difícil de entender e aceitar, existe pelo menos uma razão para não sermos todos plenamente realizados nas nossas relações e não encontrarmos a pessoa que desejaríamos. Pelo menos gosto de me convencer disto. 
É verdade que depois também existe um trilião de pessoas que não têm qualquer correspondência mas estão juntas. Chamo-lhes "Erro!". Sendo que às custas desse erro alguém perdeu uma oportunidade se de envolver com o seu par perfeito, aquele que lhe estava destinado. De amar e ser amado. De se entregar e ser colhido nos braços. De construir uma vida a dois em vez de forçar a vida de duas pessoas numa. De amar tanto que não suporta a ideia de morrerem em tempos diferentes.
Por vezes acredito nesta ideia de globalidade do amor, como se de uma enorme base de dados de relacionamentos se tratasse, outras vezes penso só que errar é intrínseco à condição humana e não devemos ser exigentes connosco. Por outro lado admito que talvez seja preferível errar na dupla mas ter companhia para sempre. Preferir a pessoa errada na altura certa do que a pessoa certa na altura errada, porque essa, nunca saberemos quando irá aparecer.

O amor talvez nem esteja contra nós mas o mundo, esse, com certeza está.






segunda-feira, 11 de julho de 2011

Equação do homem imperfeito


Equações que me levam a não ter um relacionamento:

1.      Homens bonitos gostam de mulheres bonitas;
2.      Homens bonitos têm, quase sempre, namoradas/os;
3.      Homens bonitos vivem mais em função da imagem que de princípios;
4.      Homens bonitos têm dificuldade em ser fiéis;
5.      Homens bonitos não são necessariamente homens inteligentes;
6.      Homens feios são inseguros;
7.      Homens inteligentes priorizam outros interesses que não seja conhecer mulheres;
8.      Homens inteligentes suspeitam de mulheres inteligentes que estão sozinhas;
9.      Homens inteligentes não olham para mulheres vaidosas;
10.  Homens inteligentes questionam tudo antes de uma relação começar;
11.  Homens sem interesse não são homens, são gajos;
12.  Homens sem conversa são perda de tempo;
13.  Homens sem sentido de humor são seres deprimentes;
14.  Homens com excesso de sentido de humor são irritantes;
15.  Homens sem amigos são pessoas sem alma;
16.  Homens sem família são pessoas sem passado;
17.  Homens sem passado são homens que mentem;
18.  Homens que mentem são homens infiéis;
19.  Homens que não gostam de afectos são homens perigosos;
20.  Homens que não gostam de sexo tem problemas psicológicos;
21.  Homens sozinhos, inteligentes, com sentido de humor, boa conversa, com família, amigos e cão, que gostam de trabalhar, de viajar, de namorar e ainda por cima são fieis… não existem.






domingo, 10 de julho de 2011

Três breves histórias de África

Moçambique


Na solidão da selva e do mato, um homem de bata branca ajudava a natureza dos homens a sobreviver. Um dia após o outro o único enfermeiro da região dava mais sentido à palavra “Deus” e aquietava mulheres em prantos e homens em desespero contido. Numa das suas missões, umas mais possíveis que outras, deparou-se com a enfermidade de um homem rico que se empalidecia a cada instante por falta de esperança numa cura. Esse homem era visitado vezes sem conta por outros enfermeiros, médicos e curandeiros mas ninguém lhe conhecia a doença. No dia em que se cruzou com o pai de Mina, o homem teve a cura nas suas mãos. Afinal tratava-se de Paludismo. Sarou-se, viveu muito e soube agradecer a quem o salvou. Como retribuição enviou um marceneiro a casa do enfermeiro e ordenou-lhe que realizasse duas arcas em Umbila. Um trabalho rico e exemplar saiu das mãos daquele homem, num replicado padrão de beleza invulgar. As duas arcas, daquelas mãos nascidas, tinham ainda a particularidade de terem escalas distintas: uma havia de servir de arrumação às roupas de cama, a outra de caixa de costura. Mais tarde, com a saída do país, a maior das arcas havia de ficar para trás mas a pequena caixa de costura veio atracada a Mina, como se dela dependessem todas as recordações de Moçambique. 


Cabo Verde

Em 1952 a família chegara a São Vicente. Nem as longas semanas entregues ao mar lhes tirou o espanto da cara ao ver aquele mar turquesa. À medida que os olhos se acomodavam ao reflexo do Sol, apercebiam-se da inexistência da linha que marca o fim do mar e o início do céu. Estava tudo pintado do mesmo azul.
Lembraram-se do Sol de Lisboa, e das paredes brancas que o faziam brilhar e perceberam, como nunca antes haviam equacionado, que aquele momento era irrepetível nas suas vidas, mesmo que antes não o tivessem desejado.
Com a chegada a terra firme, a brisa fresca misturava-se com os seus corpos quentes e melados pela humidade, preparando-os a todos para o exotismo do clima e das gentes que os aguardavam. E foi esse momento, quando os pés tocaram o cais, que havia de ficar marcado e registado para sempre, por um qualquer desconhecido que, oportunamente, tirou este retrato.
Quando os pais e os seus três filhos se ajeitaram, conforme podiam, entre a beira-mar e a rudeza do cais foram surpreendidos por retratista inusitado naquelas paragens. O homem gostava das novidades da ilha e foi o único, durante largos anos, a captar os momentos mais marcantes em São Vicente.
Aquela família ganhou, assim, um retrato que haveria de guardar o resto da vida, de geração em geração, como um episódio fulcral na sua chegada a Cabo Verde.


Angola

Perdera os anos a que estava em Angola. Sabia que chegara ainda criança, mas não havia registo de datas, que esses pormenores eram perda de tempo. Não conhecia outra vida que não fosse a de Luanda.
Entre brancos e pretos, sabia bem as diferença para além da cor da pele: sabia que era privilegiada. Sabia que uns mandavam e os outros serviam. Aprendeu depressa que as sua vontades eram satisfeitas porque alguém estava lá para a servir. Durante a sua vida em Luanda havia de ter quatro empregados devotos. Daqueles que com o tempo se deixa de distinguir as suas fronteiras. Daqueles com quem, além da casa, se partilha a vida e os segredos.
Talvez por reconhecimento a essa dedicação, os seus pais pediam a um artista amigo que, de tempos em tempos, retratasse esses fieis empregados. Esses quatros empregados de excepção.
Assim surgiram as máscaras, que guarda religiosamente, como se de retratos se tratassem. Com o passar dos anos, e com a sua abstracção aumentando, o seu valor também se enfatiza. O valor sentimental, inestimável, das recordações de infância da sua terra natal, que não voltou a pisar.