sábado, 19 de novembro de 2011

Um dia, não me caso




Uma vez sonhei que estava a casar sozinha. A igreja estava cheia. Os convidados impacientes. O padre exigia começar a cerimónia. Mas não existia noivo. Não era suposto existir.
Por isso, repetia-lhe vezes sem conta que podia dar início ao casamento: "Ele nunca aparecerá! - Dizia-lhe.
Ninguém estava a compreender o que se passava. Eu, no altar, parecia aguardar que alguém entrasse pela porta da igreja e desfilasse pela nave central. Como se os papéis fossem invertidos e fosse eu a aguardar pelo noivo. Mas não o estava, de facto. A única pessoa que parecia compreender que nunca iria haver noivo naquele dia, era eu.
No sonho observo-me de fora. Consigo ver-me ali especada, no corpo de outra personagem, de cabelo loiro com fartos canudos, metida num vestido de tamanho aquém da minha silhueta, de tecido velho e estragado, e com maquilhagem reles e esborratada. No entanto, apesar do cenário deprimente, na verdade eu estava feliz por casar sozinha! Desleixada. Abandonada à vida. Derrotada pela solidão. Mas estava feliz. 
E queria dizer a todos como isso era importante para mim e ninguém parecia ouvir. Estavam tão ocupados entre si, com as suas conversas moralistas. A nuvem de barulho que se gerou entre todos, subtraía a minha pessoa dali. Já nem me viam. Nem ouviam o que lhes queria dizer: "Não me vou casar. Não quero."
Não se trata de revolta, nem repulsa, nem é uma tentativa de me mentalizar que o casamento nunca irá acontecer na minha vida. Na realidade não o posso garantir. Mas os padrões que se definiram como casamento estão longe daquilo que eu concebo. Para mim o casamento nunca foi a festa. Nunca foi a igreja no seu sentido físico, ainda que acredite na cerimónia. Nunca foi o bouquet, o vestido e o bolo. Quero lá saber de um salão cheio de festa onde se exige a todo o tempo que os noivos sorriam, dancem e se beijem, como se se tivessem conhecido e apaixonado naquele dia. Não compreendo que se veja a lua-de-mel como momento fulcral de um romance. Não era suposto haver muitas "luas-de-mel" antes? 
No que eu acredito é no contrato. Curiosamente acredito naquilo que as pessoas tendencialmente vieram a desacreditar-se. Acredito no compromisso que o papel assinado trás. Acredito na fidelidade que um compromisso faz assumir. 
Por isso, para mim, o casamento pode nunca passar de uma secretária com um livro para assinar. A troca de alianças é obrigatória. O beijo também. Acreditar que é para sempre é condição, ou então nada disso valerá a pena. Mas o festim com duzentas pessoas a assistir acho ridículo. Não quero arroz e pétalas a caírem-me em cima.
A acontecer casar-me, quero acordar como num qualquer dia normal. Vestir-me sem ajuda. Sentir-me linda. Encontrar-me com "o tal" no local combinado. Dar-lhe um beijo, relembrar-lhe o quanto o amo. Assinar os papéis. 

Isto, ainda assim, seria o cenário razoável para algumas pessoas. Mas e se um dia eu disser "não quero casar?". Terei alguém do meu lado?





8 comentários:

  1. Há muitos anos pensava assim, e ainda penso. Afinal acabei por assinar o tal contrato, afinal o sentimento não foi eterno. Mas foi eterno, enquanto durou. Quanto a essa palhaçada do fatinho e da festa... que não iria querer agora, se fosse o caso, acaba por ter uma certa utilidade. Os filhos gostam de mostrar fotografias "normais" do casamento dos pais.

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  2. Então não? tens muita gente do teu lado. Olha, a começar por mim!
    Depois conto-te a minha história...

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  3. Quero ouvir essa história.
    Pelos vistos vai-me animar :)

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  4. O meu foi só para nós. E só para nós continuou. Nem amigos nem familia dele souberam. E nunca o saberão.

    R.

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    1. É assim que imagino (eventualmente) o meu.
      Quantas pessoas são precisas para casar, não é assim?
      Duas... apenas duas...

      (essa história merecia ser escrita, não merecia?)

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    2. :-) Talvez o faça, um dia.

      Não trocámos alianças, trocámos relógios. E tinhamos como testemunha um gato...

      R.

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    3. Para mim faz todo o sentido e imagino o quão romântico esse momento foi.
      Ahhhhhhh, quero um momento assim para mim.

      Bjs

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    4. Um dia o terás, seguramente.

      Bjs

      R.

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