sábado, 31 de dezembro de 2011

Os Cães do ano




Depois de tantas luas com os Cães à solta a ladrar e, claramente, em estilo de balanço, aqui ficam os textos mais lidos e os meus textos de eleição.
Por alguma razão, aqueles que mais gostei de escrever são alguns dos menos lidos, mas isso deixa-me a sensação confortável de que isto ainda é um diário pessoal e de que ninguém me lê as entranhas... Afinal há palavras que ainda são apenas minhas. 

A todos os que acompanharam o "Dias Cães", neste ano do seu nascimento, fica um sincero obrigada e os votos de um novo ano cheio de dias bons.

Os mais lidos
1º Equação do homem imperfeito

Os meus preferidos






terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Esfera



Imagine uma esfera.

Imagine-se dentro dessa esfera.
Pode imaginá-la de vidro. Não queremos que tenha fobias.
Agora imagine que essa esfera é grande.
A grandeza dessa esfera será aquela que a sua imaginação desejar.
Mas seja generoso. Vai ver que não o estou a aconselhar mal.
Agora imagine que coloca mais gente dentro dessa esfera.
Mais uma pessoa. Outra pessoa. Coloque à vontade. Encha-a como se fosse a sua casa.
Com certeza lembrar-se-á de lá colocar primeiro as pessoas que conhece.
Mas sabe que mais: não se mace. Irá perceber que dentro em breve não serão mais que desconhecidos.
Agora imagine que dá espaço a essas pessoas conforme o espaço que desejaria ter para si.
Seja generoso. Dê todo o espaço.
Vai ver que não o estou a enganar.
Vá lá. Dê mais espaço.
Agora imagine que... Enfim, que... Nunca mais sairá dessa esfera.
Ainda considera esse espaço suficiente?
Não será com certeza.
Então agora coloque ainda mais pessoas nessa esfera.
Vai começar a perder espaço. Ganhará, certamente, mais fobias.
Eu disse-lhe que devia ser generoso com o tamanho da esfera.
Agora imagine que está esmagado contra essa esfera.
Esmagado. Sufocado, por todas as pessoas nessa esfera.
Eu disse-lhe que elas também tinham o seu espaço. Eu disse-lhe para ser generoso.
Esqueceu-se, não foi?
Esqueceu-se que cada um dos indivíduos tem o espaço que a si também lhe cabe.
Agora... pense que essa esfera afinal nunca foi sua.
Pense que afinal nunca teve poder para decidir nada dessa esfera.
Pense que afinal era inevitável existirem outras pessoas nessa esfera.
Pense que afinal essas pessoas sempre lá estiveram mesmo que não as desejasse.
Pense que a sua opinião nessa esfera.... nunca existiu.
Pense que o pequeno poder que sentiu ter no início, afinal era só arrogância.

Sente-se sufocado?
Não gostaria de viver numa esfera, pois não?

Então, agora abra bem os olhos... e veja:
Não é nessa esfera que vivemos todos?






domingo, 25 de dezembro de 2011

Entreguem-se... ou reajam!




Nem sempre pude fazer e dizer o que me apetecia. Ainda hoje é assim, mas deixei de aturar certas cenas, é bem verdade. No entanto há um milhão de outras coisas às quais não me consigo esquivar. Honestamente, nem sei se quero. A sensação de que posso fugir a determinadas inevitabilidades, trás-me sempre o sabor do falhanço e da falta de vontade. E eu, de mau génio formado, recuso-me a entregar-me às lamúrias apenas porque alguém não quis participar de uma solução apaziguadora. Já o disse antes, e repito as vezes que forem necessárias, que eu sou aquela que não se importa de entregar as armas, aquela que diz amo-te com sentimento independentemente das vezes que é dito, sou aquela que não se importa de pedir perdão mesmo tendo a razão do meu lado, se isso for necessário para alcançar a paz. No fundo, só não sou orgulhosa. No fundo, no fundo, não contribuo para afundar mais as coisas quando elas já estão mal. Não sou sádica. Não percebo o interesse de se ser filha-da-puta quando já há filha-da-putice que chegue.
Por isso tenho aquela postura de não me entregar. De não me vergar nem ceder a momentos eminentemente trágicos. Eminentemente trágicos porque alguém assim o quis e não fez nada para o alterar. Parece rigidez. Parece insensibilidade. Parece autismo. Parece egoísmo. Acredite-se, ou não, é apenas complacência e respeito pelos outros. Eu não sou aquela que gosta de estragar festas. Eu sou aquela que, quando os balões rebentam, larga gargalhadas e se apressa a apanhar os restos de plástico, para ver se ninguém ouve o estoiro e se apercebe do sucedido. Hipocrisia? Um pouco talvez... e daí? Não é preferível do que meter mais lenha na fogueira e mostrar o quão doloroso e sofrido foi ter rebentado um balão. Há que ser prático. Há que ser pragmático. Há que saber avaliar os danos e perceber como é que, rapidamente, se recupera o fôlego e se colam os cacos. Não vale a pena chorar. Tem de se reagir. Não vale a pena fugir. Há que enfrentar.
Eu não me vou entregar nunca ao dramatismo que provem e se instala na cabeça das pessoas. Prefiro pensar que morri a tentar e a reagir, do que padecer a lamentar-me por não ter sido reactiva. Agora, vamos concordar numa coisa, o que não vale é existirem três pessoas a rebentar balões e apenas uma a tentar remediar a situação. Nunca se venceram batalhas de três contra um. A proporção tem de se inverter em algum momento do processo.
Peço, por isso, o mesmo a todos desse lado: reajam, antes que o mundo vos tire o tempo que vos foi dado para o fazerem, porque esse... esse ninguém sabe quando acabará.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

As tuas chaves


Quero entrar em ti. Nessa casa acolhedora em que te tornaste. Quero entrar com o teu convite mas não nego que farei por ser mais que uma visita. Quero viver-te. Quero que um dia não me deixes abrir a porta, por eu já estar lá dentro. À tua espera. Bem vês que não quererei ser uma visita por muito tempo. Quero ser a dona dessa casa.
Vou querer que essa porta se expanda agora mesmo ou então reprime-a para sempre. Entrega-me a chave de ti mas abre a porta antes mesmo de eu chegar. Colabora. Deixa-te invadir. Deixa-me arrombar-te. Não te vou roubar. O que quero de ti, espero que entregues de livre vontade. Sem pressões. Sem dramas. Sem chantagens. Invadir-te e remexer-te só me dará suores ao rosto se também o quiseres. E quero muito que queiras.
Não precisas entregar o punhado de chaves de todas as tuas portas. Prezo homens com segredos. Entrega-me apenas uma. A da porta de entrada.

"Há muito que o meu coração se dilata, quando os teus olhos encontram os meus" [imagino-me a sussurrar-te isto ao ouvido, na primeira chegada a casa]. 





domingo, 18 de dezembro de 2011

Ai, James Brown, James Brown...



Eu tenho medo deste homem. Cada vez que me entra pela televisão, completamente desgovernado, naqueles fatos justos, com todas as cores inadmissivelmente conjugadas... Cristo! Tenho medo de ser abalroada pelo seu frenesim. O corpo fica possuído, a voz ganha força, e os olhos nem abrem, tal é o estalo! Pois, que eu cá não acredito que aquele fechar de olhos seja o mesmo que a Celine Dion tem quando canta a música do Titanic. Este homem fecha os olhos por estar possuído pela música mas também pelas drogas, é certo. Abençoadas drogas, então!
Cada vez que o vejo ... É de loucos. Que homem louco.
A verdade é que o James Brown era o maior, e ainda é, sobretudo porque hoje já ninguém se arrisca como ele. A música e as performances dos seus cantores andam actualmente, mais-ou-menos, entre o sonso e o insípido e ninguém coloca, sequer, em hipótese partir a loiça toda em palco, de modo genuíno e não encenado. Andam todos uns betinhos, tal como o público, creio.

(Nos dias que correm era miúda para dar umas trincas no James Brown. Mas ao James Brown dos 70's... entenda-se! E nem sei porque é que disse isto, mas talvez tenha a ver com o bombardeamento de hormonas que acabei de levar pelos olhos dentro enquanto o ... enquanto o vejo pornograficamente suado debaixo da sua peruca de nylon de má qualidade. E isto é doloroso para uma rapariga simples como eu.)

É pena que tenha morrido, pois é... mas que se lixe. Não morremos todos?


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Let's make Christmas Love!



Há dias assim! Em que se solta a hormona do amor! Hoje foi o dia.

Já sabia que existem mil e uma maneiras de fazer amor. Mais físicas ou mais espirituais. Mais envolventes ou mais distantes. Mais românticas ou mais pragmáticas. Entre desconhecidos ou entre amantes de longa data. De costas ou de barriga... (brincadeirinha... mas hoje estou bem disposta, peço desculpa).
O que eu não fazia ideia era que seria possível fazer-se amor pela internet (ok... talvez soubesse...), por telefone (hmmmm... mau exemplo....) mas, sobretudo, nunca suspeitei que se pudesse fazer amor pelos correios. E não estou a falar do carteiro!
Passo a explicar, antes que se pense que ando mesmo a dormir com o Sr. Carteiro: De há um par de dias para cá, tenho recebido amor pelo correio. Aqui em casa e no email. Têm-me enviado cartas, postais e presentes, como aqueles que estão na foto.
Na sequência do "Dias Cães" em livro, algumas pessoas decidiram retribuir espontaneamente. Juro que não pedi nada a ninguém! E entre emails com palavras incrivelmente generosas, rccebi também postais amorosos, e presentes feitos com dedicação. Caramba! Até uma sessão fotográfica me vão fazer!!!
Hoje foi o dia em que sorri na rua por um presente que me surpreendeu. Foi o dia em que verti lágrimas de emoção quando li um postal que começava com um "Querida Inês...". Foi o dia em que o coração não conhecia o ritmo porque a cada minuto me davam mais amor. 
Tudo isto vindo de ilustres desconhecidos. Tudo isto de pessoas que não se acanharam em retribuir o amor que sentiram que também lhes dei.... 
Ai meu Deus... Estou uma lamechas do pior, não estou?.....
Mas não importa. Para mim, no amor pelos outros vale tudo. Valem todos os clichés. Valem todas as piroseiras. Valem todas as figuras despropositadas e todas as figuras ridículas. 
Por isso, nesta prova de amor a todos, não me inibo de o dizer à boca grande: "Adoro-vos!"; "Estou feliz porque existem!"; "Obrigada por me fazerem sorrir em cada linha de email, de postal de Natal, em cada bilhete"; "Obrigada pelos presentes!"; "Obrigada por este ano me fazerem, finalmente, perceber o Natal!"

Fica um obrigada ainda mais especial a:
- Pérola
- SS
- Catarina A.
- Maria Paz
- Teresa F.
- Marta P.




terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Posso falar de moda?



Não sou crítica de moda, nem aspiro a tal, mas tenho a minha quota parte de preocupação com a imagem, sou vaidosa quanto-baste... enfim, sou mulher. E não sendo fanática, reconheço que jamais me irão ver de fato-de-treino a passear pela rua. Por outro lado valorizo a  liberdade de expressão veiculada pela indumentária que algumas pessoas têm coragem de envergar. Apesar de não a querer para mim, diverte-me, e alivia-me, que outras pessoas nem saibam o que é moda e que, mesmo que saibam, isso não lhes ocupe um segundo da vida. No entanto, incomoda-me que alguém tenha a presunção e petulância de , não só esfregar na cara dos outros o que é certo e o que é errado, como criticar a maneira de vestir de alguém.
Quem sou eu, ou alguém, para dizer que a Paula Bobone se veste de modo ridículo? Não será igualmente ridículo adoptar calças de ganga em 90% dos dias do ano? Porque é que alguém pode presumir que, no que toca a modas, tem a razão do seu lado, mais do que qualquer desentendido ou desinteressado na matéria?
Mais curiosa se torna a situação quando, esses auto-intitulados de ditadores de moda, são, eles próprios, o espelho do desajuste, e do absoluto non-sense e falta de sentido estético (que eles tanto reclamam, atente-se!). De repente, moda passou a ser significado de salada russa não vegetariana, de caldeirada sem peixe, de carrocel sem música. O que era certo e correcto passou a ser território desconhecido. O que era  errado passou a ser cool. Assiste-se, assim, a uma desconstrução da moda, de equilíbrio na imagem, do esteticamente confortável. Um pouco à semelhança do que acontece com um bailado contemporâneo em que a coreografia contraria a música, não por defeito mas por cânones artísticos instituídos, que terão, naturalmente, a ver com a  evolução da arte, dos artistas e de dos interesses exploratórios crescentes da sociedade em geral. 

Parece-me, por vezes, que muitas das pessoas que supostamente ditam tendências pela blogosfera (naturalmente os estilistas e profissionais da área ficam de fora) nem acreditam convictamente na personagem que criam (e eu queria tanto acreditar que há um objectivo inteligente por trás de isto tudo) mas pretendem apenas gritar ao mundo: "Deixa-me cá fazer uma coisa muito parva para mostrar que sou tão artisticamente dramática e infeliz". 
Quanto a mim envergar algumas combinações de roupas absurdas e improvavelmente conjugáveis servia nem que fosse por um: "Porque me apetece. Porque sim. Porque eu gosto". Mas nem é isso que se passa. Aquilo a que se assiste não é mais do que um gargarejo de egos afagados ao limite pelos próprios, mas muito pouco consagrados pelos outros. De frustração em frustração lá vão pensando que as roupas valem tudo e esperam por um desfecho que não vai existir apenas porque, no final, a imagem vale muito mas não alimenta tudo. E por isso, me desgosta pensar que princípios tão válidos, como a exaltação da personalidade e a expressão da nossa individualidade pela moda, se transforme num Carnaval de ignorância mesclado de uma moral que ninguém lhes incumbiu de ter. 

É por isto que penso que neste momento se vive em Portugal uma espécie de autismo Fashionista legitimado por uma descoberta relativamente recente da democracia da moda - nada contra. Algum dia teríamos de lá chegar.






segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"O Encouraçado Potemkin"


Para o Gonçalo F., o visitante n.º 10 000, que escolheu como tema: “O cinema... através de uma imagem”.


Pedirem-me que fale de cinema é, mais ou menos, o mesmo que me pedirem que fale de sushi: gosto, consumo, vicio-me, não prescindo por nada deste mundo mas... (sim, há sempre um mas), eu não faço a mínima ideia de como se faz. Não domino a técnica. Não conheço todos os ingredientes.
Nesta perspectiva sou completamente sedentária a nível mental. Sedentária, para não dizer preguiçosa. Vem-me até à ideia aqueles homens barrigudos que passam os serões sentados no sofá a ver lutas de wrestling enquanto escravizam as mulheres com pedidos de latas de cerveja enquanto devoram  cornichons em pickle. Sinto-me um homenzinho acomodado à poltrona em pele dos anos 80, cuidadosamente revestida com uma manta de xadrez, que não se esforça por um segundo.
Resumidamente: sirvam-me, que eu consumo. Se gostar continuo. Se não gostar rejeito. Claro que apenas falo da parte de criticar cinema de modo coerente, eloquente e inteligente. Não falo de ver cinema ou saber do que gosto, porque disso sei eu bem. 
Justificado que está que não saberei falar decentemente de cinema, quem quiser abandonar o blog neste momento, que se sinta à vontade para o fazer. Eu sou a primeira a compreender! Até porque o texto ficou longo que sei lá...


Vamos então a isto:
Ainda que estabeleça alguns critérios sobre os filmes que me interessam ver (não pago para ver comédias românticas ou os chamados filmes de acção (?) – Não são todos?), na verdade já me desapontei muito com filmes amplamente aclamados pela crítica mundial – o que me fez sentir bastante estúpida e ignorante – como também já passei pela desagradável sensação de gostar de filmes que não era suposto gostar – senti-me igualmente estúpida por gostar de coisas estúpidas e ainda tive de mentir quando me perguntaram o que tinha achado. Por isso suponho que mais vale ver sempre cinema de qualidade. Do mal o menos não poluo o cérebro.
E o caso mais paradigmático em que me senti, não estúpida mas vazia, como uma gruta por onde passa uma enorme corrente de ar, foi mesmo com o filme “O Encouraçado Potemkin”. Vi-o há cerca de 10 anos na faculdade. Numa qualquer aula de projecto, lá nos esperava “O Encouraçado Potemkin”. O ambiente estava escuro. Havia agitação na sala. Roda o filme...
"A sério? A sério que nos vão meter a ver um filme a preto e branco de mil novecentos e troca-o-passo?" Nem podia acreditar... Preferia falar do projecto que não tinha.

O filme começou. O filme continuou. O filme terminou. Honestamente, não me lembro do filme.

Ainda hoje não sei o que se passou comigo. Se um transe de estupefacção,  ou uma amnésia de salvação. Não sei que mecanismo o meu cérebro desencadeou mas não me recordo de nada há excepção de duas coisas (afinal de contas não podia ser assim tão estúpida). Lembro-me do som. Lembro-me da escadaria de Odessa.
Por incrível que pareça também nunca esqueci o nome do filme. E lá vão três coisas...
Quando me foi pedido que falasse de cinema, pegando numa imagem, foi o primeiro filme de que me lembrei, o que também não poderá ser mau sinal. Não me lembrei do “Dirty Dancing”, nem do “Rambo”, nem do “Sozinho em Casa”. Vá lá, dêem-me crédito! Lembrei-me daquela escadaria alucinante por onde se precipitava um carrinho de bebé. Dos desesperos nos rostos. Do som agudo, acelerado e dramático.
Por isso, não podia ignorar que tinha de falar deste filme, e apressei-me a correr para o Google. Para meu espanto sei de caras com a imagem que registei na minha memória durante todos estes anos, sem tirar nem pôr.



Posso tirar daqui várias elações sobre o efeito do cinema, e em particular deste filme, sobre mim:


1 - O título é importante. Se não me lembrar do nome do filme, então é porque este não foi memorável sob qualquer aspecto.

2 - Se não me recordar dos sons, é porque o filme podia ser mudo. Se podia ser mudo, mas não o era, então tinha excesso de informação. Se não era mudo e não me lembro dos sons então a banda sonora e a envolvência das personagens no filme falharam redondamente.

3 - Se me lembro apenas de uma imagem do filme e, quando procuro por ele, é precisamente essa imagem que aparece, então o sacana do realizador é um génio, porque conseguiu perpetuar apenas uma imagem num bilião de pessoas, e ainda conseguiu que numa imagem resumisse a natureza de todo o filme. Levanto-me e bato palmas!

4 - Se o filme é bom, não precisa de ser a cores. Um bom filme trás-nos todas as cores aos olhos.

5 - A ideia de que os últimos 10 minutos podem salvar um filme aqui caem por terra, uma vez que nem me lembro como acabou a trama. Por isso, e pelo sim pelo não, mais vale fazerem-se filmes com qualidade do princípio ao fim, porque nunca se sabe o que o público lembrará.

6 - Finalmente, aprendi ainda que não vale a pena rever apenas os filmes de que gostei. Aqueles que em algum momento considerei detestáveis, possivelmente, só o eram à luz de um contexto, de uma tenra idade, de uma fase da vida imatura. Como as coisas mudam e as opiniões também, uma coisa eu sei, em breve irei rever “O Encouraçado Potemkin”.


Boas críticas... e de pessoas que sabem do que falam... aqui e aqui.


Ao Gonçalo, peço perdão por não ter sabido escrever sobre cinema. 






domingo, 11 de dezembro de 2011

Namore uma mulher que lê... ou uma que escreve




"Namore uma garota que lê.

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.
Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro. Compre para ela outra xícara de café. Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa. É que ela tem que arriscar, de alguma forma. Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.
Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois. Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.
Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo. Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê. Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve."


Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico
Tradução e adaptação – Gabriela Ventura
in skoob






quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O ovo podre. O ovo mole. E os fi (lh) os de ovos.





Nasceu de interior tosco e fez-se mal formado. O mau agre do seu interior não era previsível pela casca. Parecia limpa. Uniforme. Tinha peso e tamanho regulares. A cor não despertava curiosidade. Parecia um ovo comum. Mas tudo acontecia lá dentro. As sua entranhas apodreciam velozmente. E começavam a feder...
Um dia, a casca ameaçou estalar lentamente. Silenciosamente. A fissura era tão insignificante que quase não se via. Também, por certo, foi sendo ignorada. "Não há-de ser nada!". Pensou-se sempre assim: que não haveria de ser nada! Mas com o passar do tempo, transformou-se num "tudo". O problema agigantou-se e o ovo acabou por estalar, como estuque fino de má qualidade. Acabou azedando aos olhos de todos, e a sua casca já não lhe servia de protecção. Estava desmascarado. O ovo mais bonito da capoeira, afinal, não passou de uma promessa que não se cumpriu. 

Ela era doce de tão mole. Era mole e doce, com ela e com os outros. Tão mole que nem se moveu quando percebeu que o ovo podre estava prestes a estalar e rebentar-lhe em cima. Deixou andar, na esperança de uma cura que nunca promoveu, não só por descuido, mas por acreditar nas melhoras espontâneas. Mas eram apenas "melhoras da morte" que a esperavam. Contudo, apesar de espapaçada, com tal infortúnio em sua vida, poderia ter sido mais firme. Com gelo, com muita frieza, poderia ter ganho corpo e consistência. Podia ser daquelas gemas que se comem de faca e garfo, em vez daquelas que se comem com colher. Mas não! A natureza ditou-lhe o temperamento: seria quase líquida e sem forma. No fundo, não passada de uma gemada que levou um pouco de calor. Não obstante ter conhecido um ovo podre, ainda teve de saber lidar com a maior das suas debilidades: nunca ter tido casca. Nasceu sem protecção apesar de doce. Haveria de viver uma vida a levar socos como se tivesse escudo, sem ter.

Um dia, os dois ovos, chocaram de frente e fizeram uma receita. Uniram o bom e o mau. Misturaram o excelso com o medíocre. Puseram-se ao lume. Apesar dos ingredientes de má qualidade, foram habilidosos e não talharam as gemas. Elas uniram-se. Fundiram-se amigavelmente. Ficaram perfeitas. Daqueles dois ovos indigentes nasceram uns fabulosos fios de ovos. Consistentes. Bonitos. Firmes. Saborosos e inteligentes. Os melhores fios de ovos criados em condições tão adversas. De uma impossibilidade se fez uma certeza. Os seus fi (lh) os de ovos foram os mais bem criados da capoeira e os que mais orgulharam os seus progenitores. 

Ele era um ovo podre. Ela era um ovo mole. Os seus filhos eram de ouro. 






domingo, 4 de dezembro de 2011

Ao Pedro...

Sim Pedro... este Blog é meu.
Se o Rei nasceu não sei... mas surgiu, com certeza, um bobo na minha vida.

Obrigada por me divertires... com luta...
Que isto sem lama não tinha graça nenhuma.

Bjs




terça-feira, 29 de novembro de 2011

Receita do indivíduo que não existe

Porque considero que o homem ideal tem de ser como uma receita bem-feita. Irrepreensível, de fazer fechar os olhos. Com o equilíbrio perfeito dos extremos. Que seja mesmo de extremos. Como o sal e o açúcar. O 8 e o 80. O frio e o quente.


--- Receita comportamental para um indivíduo que não existe ---

Ingredientes:
Vai ser preciso…
- Que gostes de me levar à ópera ao São Carlos mas também consideres uma ida a Paredes de Coura;
- Que gostes de praia mas também gostes de fugir para a montanha;
- Que bebas imperial mas também aprecies um chá quente;
- Que nunca sejas preguiçoso mas, de vez em quando, também consideres um Domingo no sofá;
- Que gostes de viajar até Paris, mas também te divirtas num parque de campismo empoeirado;
- Que invistas num par de ténis caros, mas também saibas o gozo de andar de chinelos;
- Que me acompanhes no sushi, mas também não te negues a uma bifana;
- Que gostes de mim como acordo, mas também me elogies quando me arranjo;
- Que gostes de dormir agarrado, mas percebas que às vezes também preciso de espaço.

Preparação:
Agarrar num corpo e meter tudo lá para dentro. Misturar bem. Abrir um sorriso. Não colocar travões. Apaixone-se. Deixe-se amar. Misturar tudo. É inevitável levar a forno bem quente. Cuidado ao desenformar… para não partir.





segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Soltei os "Cães"


Finalmente, soltei os "Dias Cães" em livro.
Os primeiros já conheceram os novos donos... 
Agora seguem outros tantos, desta vez, pelo correio.

Funchal, Leiria, Lisboa, Amadora, São Paulo e Porto, são os próximos lugares que o Sr. Carteiro irá visitar.


Espero que desfrutem das palavras, que já vão conhecendo, e as tratem bem, como têm feito até agora.


Obrigada a todos!
Vamos-nos "lendo" por aqui.




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Nespereira e o Marmeleiro




Sobre a tarde tinham descido tons quentes de açafrão. Os cheiros eram acolhedores e doces como a marmelada quando se cola ao fundo do tacho. Nós sofríamos pouco com o calor porque a tarde era de brincadeira e não demorava termos de separar-nos. Gostávamos de brincar juntas. De esgotar o tempo, que ainda desconhecíamos correr tão depressa, em conversinhas uma com a outra. Era tão bom. Ainda hoje o é. Recordo-me bem dessa tarde e de tantas outras. Das cores, do calor, dos cheiros e dos risos. Éramos miúdas e a palermice da falta de compromissos fazia-nos rir de tudo e de nada e trazia-nos alegria àquele dia de calor sobre o telheiro. Descalças, com calçõezinhos de algodão e camisolinhas de alças, lambuzávamos-nos em fruta, que a tua mãe nos trazia das árvores do teu quintal. Eram nêsperas e marmelos. Ali sentadas, pelávamos a fruta, trincávamos as suas carnes, cospiamos as cascas, salivávamos os sucos, contávamos os caroços... Lembras-te? Era um momento delicioso. Achávamos que o nosso futuro se desenrolava na leitura das frutas. Que o número de caroços das nêsperas indicavam o número de namorados que teríamos na vida. Nunca percebemos se seria a soma de todos os caroços, de todas as nêsperas que comemos naquela tarde, ou apenas daquela que escolhíamos. Ríamos sempre que os caroços se multiplicavam. Hoje podemos rir, por sabermos bem, que tu te ficaste apenas por um caroço e eu por pouco mais. Eu ainda acho que o meu caroço de nêspera está por chegar porque até hoje não passei de marmelos verdes e ásperos. Felicito a vida por te ter oferecido uma doce nêspera.
Na verdade nunca gostei de nêsperas nem de marmelos e continuo sem gostar, por mais que tenha insistido todos estes anos em trazer a mim o sabor de tão boas recordações. Mas a sua acidez desconsidera-me o mau-feitio. E o meu mau-feitio será sempre inestimável. Mas tu, doce como dióspiros maduros, não te deixavas atrapalhar pelos golpes daquele agre na boca. Nem te tocavam. Continuavas a comer com risinhos como se dissesses: "Vês! Não fazem nada!". 

À minha amiga Helena Maria, por ter partilhado comigo nêsperas e marmelos debaixo de um telheiro, naquela tarde de Verão mas, sobretudo, por partilharmos a vida com risinhos e brincadeiras.







segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Eu. Tu. E o Comissário de Bordo.



Barcelona - Porto - Canárias - Porto - Londres - Porto - Madrid - Porto - Marrocos - Porto - Tenerife - Porto....
A vida dele acontecia mais lá em cima que rente ao chão. Viajava todos os dias para destinos diferentes mesmo que a noite fosse sempre passada entre os seus lençóis, quando regressava a casa no Porto. Apesar de amar o trabalho que tinha conquistado, acusava o cansaço sempre que o despertador tocava às 4:30. Tinha de apanhar os voos das 6:30. Era inquestionavelmente duro.
Ela não adorava a sua agenda, mas sabia desde o início que estar com ele, era estar entregue à incerteza dos horários. As conversas tinham de esperar. Agarrar no telemóvel, porque lhe apetecia partilhar uma qualquer chachada, era coisa que nunca iria existir. Combinar um jantar a dois nunca chegou a ser possível. Mas, aparentemente, tudo valia a pena. Estavam apaixonados e alguns sacrifícios tinham de ser sangrados. Ela abdicava dele durante o dia. Ele compensava-a com amor durante a noite. Estavam incrivelmente rendidos um ao outro. Ela deixou de pensar "são todos iguais". Ele pensou que afinal "não são todas umas complicadinhas".
Era perfeito! Parecia perfeito. Ele passava o dia no ar. Ela passava o dia nas nuvens... E um dia caiu...
Sem palavras, considerações, justificações, mentiras que fossem... nada de nada, ele nunca mais regressou. Nem em corpo, nem nas palavras doces que lhe entregava antes e depois de cada viagem.
Ela chorou. Pensou num milhão de coisas. Nunca o julgou morto. Continuou a saber dos seus passos. Sabia-o bem vivo e de sangue fervente. Um dia acabou por saber o que acontecera.
Ela não ignorava que a vida em alta atmosfera envolvia riscos além das quedas de aviões. Por ali davam-se muitas quedas de coração. Foi o que aconteceu. Apaixonou-se. Apaixonou-se. Apaixonou-se. Ainda parece mentira.
Afinal, todas aquelas viagens não existiam apenas pelos negócios que mantinha pelo mapa fora: apaixonou-se pelo Comissário de Bordo que todos os dias, de sorriso na cara, lhe levava o café em copo de plástico.

Apesar do silêncio, ela nunca o levou a mal. Afinal de contas, cada um usa a saída de emergência que quer.




sábado, 19 de novembro de 2011

Um dia, não me caso




Uma vez sonhei que estava a casar sozinha. A igreja estava cheia. Os convidados impacientes. O padre exigia começar a cerimónia. Mas não existia noivo. Não era suposto existir.
Por isso, repetia-lhe vezes sem conta que podia dar início ao casamento: "Ele nunca aparecerá! - Dizia-lhe.
Ninguém estava a compreender o que se passava. Eu, no altar, parecia aguardar que alguém entrasse pela porta da igreja e desfilasse pela nave central. Como se os papéis fossem invertidos e fosse eu a aguardar pelo noivo. Mas não o estava, de facto. A única pessoa que parecia compreender que nunca iria haver noivo naquele dia, era eu.
No sonho observo-me de fora. Consigo ver-me ali especada, no corpo de outra personagem, de cabelo loiro com fartos canudos, metida num vestido de tamanho aquém da minha silhueta, de tecido velho e estragado, e com maquilhagem reles e esborratada. No entanto, apesar do cenário deprimente, na verdade eu estava feliz por casar sozinha! Desleixada. Abandonada à vida. Derrotada pela solidão. Mas estava feliz. 
E queria dizer a todos como isso era importante para mim e ninguém parecia ouvir. Estavam tão ocupados entre si, com as suas conversas moralistas. A nuvem de barulho que se gerou entre todos, subtraía a minha pessoa dali. Já nem me viam. Nem ouviam o que lhes queria dizer: "Não me vou casar. Não quero."
Não se trata de revolta, nem repulsa, nem é uma tentativa de me mentalizar que o casamento nunca irá acontecer na minha vida. Na realidade não o posso garantir. Mas os padrões que se definiram como casamento estão longe daquilo que eu concebo. Para mim o casamento nunca foi a festa. Nunca foi a igreja no seu sentido físico, ainda que acredite na cerimónia. Nunca foi o bouquet, o vestido e o bolo. Quero lá saber de um salão cheio de festa onde se exige a todo o tempo que os noivos sorriam, dancem e se beijem, como se se tivessem conhecido e apaixonado naquele dia. Não compreendo que se veja a lua-de-mel como momento fulcral de um romance. Não era suposto haver muitas "luas-de-mel" antes? 
No que eu acredito é no contrato. Curiosamente acredito naquilo que as pessoas tendencialmente vieram a desacreditar-se. Acredito no compromisso que o papel assinado trás. Acredito na fidelidade que um compromisso faz assumir. 
Por isso, para mim, o casamento pode nunca passar de uma secretária com um livro para assinar. A troca de alianças é obrigatória. O beijo também. Acreditar que é para sempre é condição, ou então nada disso valerá a pena. Mas o festim com duzentas pessoas a assistir acho ridículo. Não quero arroz e pétalas a caírem-me em cima.
A acontecer casar-me, quero acordar como num qualquer dia normal. Vestir-me sem ajuda. Sentir-me linda. Encontrar-me com "o tal" no local combinado. Dar-lhe um beijo, relembrar-lhe o quanto o amo. Assinar os papéis. 

Isto, ainda assim, seria o cenário razoável para algumas pessoas. Mas e se um dia eu disser "não quero casar?". Terei alguém do meu lado?