19.7.17

Tenho tudo



Estava aqui a pensar na vida.
Na minha.
Num exercício para tentar entender o retorno que o universo me está a dar.
E compreendi rapidamente que na minha vida há de tudo.
A minha vida é, simultaneamente, triste e bonita.
A minha vida é boa e é má.
É serena e é eufórica.
É complicada e é simples.
É romântica e é dramática.
Tem terror e tem comédia.
Tem letargia e tem ação.
Tem amigos e tem inimigos.
Tem ódio e tem amor.
Tem medo e tem coragem.
Tem gratidão e tem cobrança.
Tem conforto e tem aridez.
Na minha vida há sentimentos e há o vazio.
Há motivação e há inércia.
Há inteligência e há ignorância.
Há deslumbramento e há desilusões.
Há encantamento e há realidade.
Há o sangue e há as escolhas.
Há decisões e há incertezas.
Há fé e há dúvidas.


Tenho tudo na minha vida.
Tenho tudo.
Apenas ando a valorizar as coisas erradas.


8.7.17

Epifanias




Há um dia em que aquela pessoa, que não é mais que apenas uma pessoa na tua vida, se torna muito mais que uma pessoa até mesmo dentro da pessoa que ela é.





7.7.17

Fingimento




Neste momento existe um grupo de pessoas felizes, a conviver, a comer, a beber copos e a conversar. A serem pessoas, no fundo, e eu fugi de lá. Sem sair. Evadi-me apenas.
Das coisas mais curiosas que podemos sentir, é quando o nosso corpo não é nosso e estamos dentro dele a observar o que se passa lá fora.
Hoje sinto-me assim. Como em tantas outras vezes. Ou estava a sentir-me assim naquele grupo de pessoas. Os meus olhos pareciam observar uma cena fora da realidade e eu estava ali a forçar-me a ser como eles. A reagir, a conversar, a sorrir, a andar, a movimentar-me como todos eles.
Aquele grupo de pessoas felizes, estavam todos tão felizes como eu. Aposto. Talvez seja isso. Uma espécie de pólos invertidos que acabam por se repelir em vez de se atraírem. Talvez cada um, à sua maneira, estivesse a encenar a sua verdade. E eu, dentro daquele corpo emprestado, observava, não segura, o que cada um estava a tentar fazer. Perante olhares desatentos até diria que alguns cumpriram bem o seu papel mas outros denunciaram o que eu suspeitava: estávamos todos dentro de outros corpos que não queríamos estar. A representar papéis que não queríamos representar.
É trágico, e simultaneamente fascinante, observar-se a cena estando em palco. Se, por um lado, fazemos parte do elenco e isso nos coloca no papel que não queremos desempenhar, por outro lado, temos a possibilidade de ver de perto a dança de todas as personagens. A representação. Os risinhos e as amarguras que mais não são que emoções arrancadas de um guião. Inconscientes, mas, ainda assim, encenadas.
Estar no palco, é poder ver o desconcerto de cada uma das personagens quando se esquecem de uma deixa. É ver as pessoas a encruarem-se. A serem reais por milésimos de segundo. A serem aquilo que deveríamos ser sempre: nós próprios.
Apesar das mãos suadas de ansiedade, os palcos onde cada um se encontrava a representar nunca foram abandonados. Seguem, mesmo à deriva, com um guião improvisado, na esperançada angustia que ninguém repare naquele desconcerto. Que o público, que mais não é que parte integrante do espectáculo, não repare. Não vai reparar. O público anseia que ninguém olhe para eles e lhes desvende o mesmo mistério. Afinal, não há palco nem plateia. Estamos entre iguais. 
Eu há muito que abandonei o meu lugar, com a habilidade de um bom actor que já desistiu da peça mas ninguém reparou. Apenas me mantenho de pé. Com as pernas firmes e o rosto estendido. Para ninguém desconfiar. Assim, o drama não toma conta de todos e não se alastra como um rastilho desgovernado.
Assim, só eu, apenas eu, sei aquilo que todos sabem dentro de si mas não ousam, sequer, a si próprios confessar: somos todos fingidores.




17.6.17

17.06.2017



O mundo acabou.
Naquele dia pôs-se tudo negro e o céu uniu-se ao chão.



14.6.17

Serei só eu?





Aquela sensação de que passas a vida no trabalho...

... mas depois recebes uma carta dos Recursos Humanos para justificares horas em falta...



[e saberes que quando sais às 18:00 já não está ninguém a trabalhar, mas ninguém parece estar tão em falta como tu... dassss...]


13.6.17

Tamanho da noite




Se a noite fosse tão vasta como o amor que te tenho, 
Não se contariam os dias,
E as noites não teriam nome.
Porque não conheceriamos mundo para além delas.

9.6.17

Os meus dias




- Acordo cansada
- Muito cansada
- Arrasto-me numa valsa desconcertada entre o quarto e a casa-de-banho
- Acordo novamente
- Agora a sério
- Vou para o trabalho
- Bebo café
- Devia beber mais
- Começo a pensar nas horas a que quero sair trabalho para ir para casa dormir
- Começo a pensar nas horas a que tenho de ir almoçar
- Almoço
- Arrasto-me entre o gabinete e o corredor com sono
- Sinto sono
- Muito
- Começo a pensar nas horas a que quero sair do trabalho para ir para casa dormir
- Ainda faltam muitas horas para sair
- Aguento...
- Aguento...
- Aguento...
- Já posso sair
- Vou a correr para casa
- Fuck me... ainda lá tenho um pedreiro
- E um pintor
- Porra, tudo sujo
- Porra, tenho de fazer limpezas
- Não. 
- Olha o sofá
- Deita-te no sofá
- Não.
- Devia ir fazer uma caminhada
- Devia ir ao supermercado
- Devia fazer o jantar
- Acorda Inês!
- Devia pôr roupa a lavar
- Devia estender roupa
- Devia passar roupa
- Devia meter louça a lavar
- Acorda Inês!
- Devia ler
- Devia escrever
- Devia tomar banho
- Tenho tanto sono
- São só dez minutinhos
- Depois é que vai ser
- Tenho tanto sono
- Pronto, vá, dez minutos
- Ahhhhhh... que bom.
- Dez minutos

- Porra...
- 1:00 da manhã!!??!!??


Vá Inês, agora a sério: amanhã é que é!

3.6.17

T-shirts: esse flagelo



Considerando que a minha vida toda nunca foi propriamente uma loucura mas que, sobretudo,  ultimamente tem sido mesmo bastante aborrecida,  permiti-me esse grande sacrilégio que foi vir ao Colombo a um sábado e passar cá um dia in-tei-ro.
Chupem lá isto, pessoas que passaram o dia no maat a ver coisa nenhuma.

Mas dizia eu, que decidi arriscar algo de surpreendente na minha vida que foi vir para uma grande superfície de consumo, totalmente fechada, com um cartão de crédito e com um grande "que se foda na cabeça".  Estava numa de vir fazer o investimento que fosse necessário em t-shirts, porque cheguei à conclusão que tenho as gavetas cheias não sei de quê, e nos cabides tenho muitas camisas e blusas que já não se compadecem com estes calores VS a pouca paciência que tenho para me vestir de manhã.
Bom, e cá vim eu nesta missão.
Pois que daqui,  em direto do CC Colombo, vos digo: RIP t-shirts.
Pergunto: o que é que aconteceu com as t-shirts?  Faleceram? Extinguiram-se? Deu-se a Era glaciar das t-shirts?
A t-shirt está em vias de extinção e é difícil pra caramba de encontrar - dentro dos meus padrões,  obviamente - uma camisola normal.  Ou normal-gira. Normal-tchanan. Normal-Inês. Quem me conhece há-de perceber o que quero dizer com isto.
Agora vemos tops.  Ou blusas.  Ou sweats. Ou camisas. Ou coisas que nem sei o nome.  Mas coisas que,  invariavelmente,  quando são giras,  são curtas de tecido (partem do princípio que só as magras é que gostam de arrasar),  ou quando têm tecido que chegue,  também têm censura que chegue e são chatas, chatas, chatas.
Isto está quase ao mesmo nível da missão impossível que é comprar umas calças de ganga normais.

Bom, mas na dúvida sobre esta coisa de não haver t-shirts à altura,  comprei umas sandálias.

Talvez ainda volte para fazer um capítulo sobre os habitantes do Colombo,  que é coisa que também gosto muito de observar. Pelas roupas que envergam ainda não percebi se aqui dentro está inverno ou está verão.
Até já.



Um dia sou despedida





Estou pelas pontas dos cornos com as pessoas, mais à conversa sobre a incompetência dos funcionários públicos.

É sempre a mesma puta da ladainha que os funcionários públicos é que arruinam com a vida das pessoas.
Que os funcionários públicos são umas putas de borda de estrada que se vendem por meia-dúzia de tostões. Que são corruptíveis por um par de meias de descanso. Ou, então, que os funcionários públicos são uns inflexíveis do caralho. Depende daquilo que der muito jeito ao requerente. Pronto, aqui vá, já é uma questão de conversarmos, não é suas pêgas?
Também adoro quando começa a conversa que os funcionários públicos só vivem de regalias. Se há porra de regalia a invejar (além do esplendoroso ordenado, upa, upa! progressão na carreira, motivação, avaliação, colegas a cheirar a refugado...) é pagar o seguro de saúde mais caro do país. Aquela coisa chamada ADSE e que custa pouco mais de 50 paus/mês. Querem?
Mas, talvez a melhor, é a ideia generalizada de que os funcionários públicos não trabalham. Foi assim uma merda de um boato que surgiu tipo "O Markl tem graça", e às tantas as pessoas começaram mesmo a achar que sim e a espalhar a palavra. E o que não era bem verdade, tornou-se numa verdade indiscutível.
E eu pergunto: ai não trabalham? Então andam todos a fazer o quê? Ai esperem, estou-me a fazer de sonsa, eu sei:
Passam a vida no café a coçar a rata, a conversar sobre o Love on Top, a rir em voz alta e a ver a Nova Gente, enquanto uma fila de malta por atender se acumula no guiché.
E também têm outra tarefa, aquela que os fez reencarnar neste mundo e que é a sua missão na terra: infernizar a vida às pessoas. Por nada. Assim racionalmente, não há razão nenhuma, mas o deuses, há milénios atrás, acharam que tinham de se criar grupos de pessoas que só soubessem dizer que não a tudo, a outros que só queriam que se lhes dissesse que sim a tudo. 

Na década de noventa havia uma publicidade institucional, de carácter pedagógico e cívico (foi quando deixámos de cuspir para o chão. regredimos entretanto), que dizia:
PORTUGAL NÃO É SÓ TEU!

Devia ser recuperada.
Estamos cada vez mais egoístas e estúpidos. Bestas. Para com os funcionários que trabalham para nós, público.
Respect!


Pronto minha gente.
Fica este leve apontamento de fim-de-semana.
A bem da nação, e talvez do meu contrato de trabalho, chegou a sexta-feira.

[Deixo um agradecimento especial ao meu colega do lado que me deixou exprimir livremente nestes últimos dias recorrendo a vocabulário pouco próprio, e que ainda sorria como se estivesse a achar a alguma graça quando ambos sabemos que já nem me estava a ver.]


1.6.17

1 de Junho de 2016




No dia 1 de Junho de 2016, para mim, não existiu Dia Mundial da Criança.

No dia 1 de Junho de 2016, num exame pré-natal de rotina, foi diagnosticada uma malformação congénita grave, incompatível com a vida, no meu bebé.
Estava nas 22 semanas de gestação.

No consultório às escuras, ouvia-se "Bed of Roses" dos Bon Jovi. A médica marcava o ritmo da música com a ponta do pé e tinha os olhos colados ao ecrã. Apesar do Jon Bon Jovi se esforçar nas notas, senti um profundo silêncio.
Percebi que não ia sair dali a mesma Inês que entrou. E não saí. 

Apesar da sentença que levava nas mãos, as pernas bambas ainda conseguiram providenciar uma série de diligências que importavam antecipar, a cabeça ainda conseguiu não correr para o telemóvel a gritar por ajuda, e os olhos aguentaram estoicamente, devo dizer, o que pensava ser apenas um par de lágrimas. 

Aquele dia da criança ficou cristalizado no tempo. Lembro-me de cada minuto. E isto é de uma estranheza indescritível. Recordo-me das horas antes de ir para o consultório, das pessoas com quem me cruzei, do que disse, dos locais onde entrei, do que almocei, do que levava vestido, do que a médica tinha vestido... E lembro-me de todos os minutos depois. Do imenso calor que estava. Da dor que senti no peito. De ter de dar a notícia ao meu grande amor. De ter de ser a portadora de mais esse sofrimento. De ter de mentir ao telefone à minha mãe. De a minha mãe me felicitar pelo dia da criança mais especial de sempre a partir de então, e eu ali, acabada de saber que era o fim e sem coragem para lhe dizer. Cortou-me o coração em mil bocadinhos.

Desde o dia 1 de Junho até ao dia do seu nascimento a 16 de Junho, perdi e recuperei muitas vezes o meu filho. Tive fé e perdi-a várias vezes, no mesmo dia. Num dia chorava a perda, no dia seguinte sentia-me a mãe mais forte do mundo, porque num dia me davam um prognóstico e noutro dia me davam outro. 
Porque num dia me diziam a verdade e, noutro dia, me diziam mentiras porque erraram na procura da verdade. 
Uma coisa sei e tenho como definitiva na minha vida: perdi a ingenuidade e a criança que tinha em mim.
Isso foi-me roubado para sempre.  É irreversível e irreparável. Deixei de ser criança. 

Agora,  todos os dias envelheço a pensar no meu bebé. Todos os dias choro por ele. Choro por nós os três. Ainda choro, sim. De uma maneira, de outra, mas choro todos os dias. E choro pelas coisas mais parvas.
Choro por dentro, e este é apenas um exemplo, quando ouço pais a queixarem-se das birras dos filhos. Ou quando lamentam que deixaram de ser donos dos seus próprios horários,  ou que nunca mais conseguiram ter a sala sempre arrumada (shame!) ou, e esta está entre as minha preferidas, que os filhos não os deixaram dormir naquela noite, ou que não dormem em condições desde que os putos nasceram (não colocando em causa que possa ser verdade mas, porra, não se queixem). 

Curiosamente, eu também não tenho dormido bem neste último ano e a minha vontade de arrumar a sala também não aumentou. 

Sejam gratos. 
Amem as vossas crianças.