20.11.17

A Liturgia e o Preço Certo




Ontem fui à missa. Permiti-me ir sondar o meu estado de espírito e talvez esperasse alguma serenidade mas, por alguma razão, senti uma grande inquietação e, não, não é no sentido "do espírito que se inquieta com Deus". Deixemo-nos disso...

A verdade é que, em vez de me sentir envolvida e concentrada no momento, é-me muito difícil abstrair da envolvente e interiorizar o ritual litúrgico, quando dois terços da missa continuam a ser o que já eram desde que me conheço: uma repetição de frases feitas, entoadas como mantras, sempre nos mesmos momentos, com a mesma cerimónia. É caso para dizer que quem viu uma já viu todas. E isto não fideliza clientes. Até percebo, até determinado ponto, que a repetição e a entoação, proporcionem relaxamento mas, tal como no yoga, às tantas tens de mudar de posição ou começas a ficar entorpecido e perdes o interesse em ir à próxima aula. Por exemplo, eu gosto muito de ver o Preço Certo, mas não pode acontecer existirem sempre os mesmos prémios, com os mesmos preços, a Lenka estar sempre de minissaia, o gordo dizer sempre "espetácle", a roda calhar sempre no 100, e a montra final ser sempre 22 mil euros e no final, o mesmo homem com um pullover de malha grossa de mil nove oito nove, ganhar. Em algum momento, a Lenka tem de ir de calças, o prémio maior tem de ser uma caixa de rebuçados em vez de um carro, e o concorrente tem de esbardalhar-se por 5€. Caso contrário, qual é que é o propósito? Se eu já sei que todos os dias passam o mesmo programa, porque é que eu o hei-de voltar a ver todos os dias durante trinta anos?
A missa é isto. Perdoem-me, mas é.
Talvez com excepção para a homilia que, dependendo do talento do orador, pode ser enriquecedora ou parecer uma conferência de imprensa do Manuel Machado. Ontem, ainda que tivesse começado bem com uma leitura do Livro dos Provérbios sobre os dons das mulheres, e um provérbio é sempre fonte de sabedoria e reflexão, depois a homilia pareceu mesmo um misto de Manuel Machado com um piquinho de Manuel Maria Carrilho. Mas podia ser eu a escalpelizar já demasiado.

Assim, não é difícil perceber porque é que os meus pensamentos se dispersam e, quase sempre, tendo em consideração o contexto sagrado, eu diria, acabo a pecar. Ora reparo na pessoa que chega a quinze minutos do fim da missa, ou olho para o padre e não consigo evitar a comparação com o mestre Yoda, ou reparo que há um pozinho que já precisava ser limpo, ou penso nos número de mãos por lavar que já se enfiaram naquela pia de água benta, ou impressiono-me com a falta de mestria do senhor padre ao meter meia hóstia das grandes na boca como se estivesse a comer umPringle. A mim ensinaram-me que não se roía a hóstia! Ou engoles inteira ou vais desfazendo no céu da boca com a língua, mas mandar uma trinca é que era um grande sacrilégio no meu tempo! 
Na hora da comunhão também não sou branda com os pensamentos críticos: sou a única a ficar sentada no banco. A única! Ora bem, no meu tempo, comungava quem se sentia de bem com Deus, com os Irmãos e com o mundo em geral. Claro que isto pode ser vago porque a consciência de cada um varia muito mas, pergunto-me, será que toda aquela gente se porta bem 24 horas/dia, 7 dias/semana? Toda a gente é bom pai, bom filho, bom amigo, colega, funcionário, cristão? Epá, fiquei mesmo lá na merdinha porque no meu exame de consciência eu chumbei em mais de 50% dos critérios de avaliação e isto não dá direito a hóstia. Depois tentei tranquilizar-me e pensei que, pelo menos, era sinal que ali, naquele local, só estava rodeada de pessoas do bem que já atingiram o nirvana (não, não pensei nada). E nisto, lembrei-me de uma tia minha dizer que tomava sempre a hóstia porque não tinha pecados (ai filha...) e, por pecados, queria dizer que não tinha cometido pecados capitais ou ido contra os dez mandamentos. Pois, eu até espero bem que não. Assim de repente, apraz-me que ela nunca tenha matado ninguém, nem cobiçado a mulher alheia, ou invejado a galinha do vizinho, porque não se espera menos de um bom cristão. No entanto, pergunto-me, se é só desta check list que se faz um ser humano honrado e digno de receber Jesus dentro de si (que é como quem diz: estar em condições de receber a hóstia).
Pois eu não comungo, talvez, há uns dez anos. Acho que a última vez que o fiz foi quando a minha avó morreu, por respeito, e porque nesse momento o meu coração estava em paz. Fora isso, nunca mais me achei em condições de receber Jesus porque nunca mais "limpei a casa", não pratiquei a minha vida cristã e não mantive como hábito o sacramento da confissão que, lá está, no meu tempo era uma espécie de ritual detox pré-comunhão. Era uma espécie de "a menina não paga mas também não anda" da igreja católica. E eu, não sendo de longe a mais fiel das servas, uma coisa na minha vida sei: existem regras, se não estás disposta a segui-las, salta fora. E eu saltei fora.

Uma nota positiva, mais ou menos, nesta cerimónia - e isto depende dos padres e das igrejas - é que já não se dá o beijinho ao vizinho. Digo "mais ou menos" porque a intenção do ritual é boa mas nunca sei se me apetece alinhar. É uma espécie de ritual de abertura do Web Summit: levantem-se e dêem lá uma beijoca e um abraço ao colega do lado e a seguir cantamos o Kumbaya. Mas sem a parte fashion da coisa... e sem o kumbaya.
Eu sou das que sente o constrangimento de cumprimentar quem não conheço mas é igualmente constrangedor veres os meninos todos a darem beijinhos entre si e tu ficares de fora. É como se não gostassem de ti mas tu precisares da aprovação de todos. Há qualquer coisa de friozinho bom na barriga. Por isso, lá te arrastas um banco meio para o dar o beijinho à senhora que nem sabe rezar o Pai Nosso e apertar a mão ao cavalheiro que rezou a missa toda de cabeça baixa, sabe Deus porquê.
Apesar de tudo, e dos momentos de incompreensão do que se passa na maior parte da liturgia, ainda assim, algo dentro de mim me diz, que a melhor parte deste Preço Certo, é mesmo aquela em que, genuinamente, as pessoas dão beijos ao gordo e agradecem ao senhor presidente da junta ter emprestado o autocarro. E é isso que é uma pena estar a perder-se.


10.10.17

A M O - T E   .    P A R A   S E M P R E  .


                                                

                                       

5.10.17

Todos Mundo



Tenho saudades do mundo de há dez mil anos.
Aquele em que eu não existia.
Aquele em que todos éramos ignorantes.
Em que a terra era plana e ninguém contestava.
Em que as noites se sucediam aos dias sem ninguém fazer perguntas.
E as pessoas eram bichos e os bichos eram pessoas.
Todos iguais.
Sem consciência do indivíduo, do coletivo e da própria existência.
Éramos ramos caídos no solo, num solo pisado pelo Sol, de um Sol que ninguém sabia existir.
Éramos felizes sem o ser porque naqueles tempos não havia felicidade.
Nem tristeza, nem ódio, nem solidão.
Porque não havia nada.
Havia apenas brisa e a brisa batia em todos da mesma maneira.
Mortos, vivos, pessoas, bichos, pedras, mar.
Éramos todos iguais. Todos nascidos e morridos do mesmo e para o mesmo.
Sem história.
Éramos todos mundo.
Hoje não somos nada.


Tenho saudades do mundo de há dez mil anos.
Aquele em que eu não existia.


18.9.17

E agora, algo completamente diferente!





A minha afilhada mais pequena, disse hoje à mãe:

"Mãe, gostava de experimentar ter um filho mas gostava que fosse anão, para ficar sempre assim pequenino".


Ora bem, acho que a humanidade concorda em dar o prémio "Diz lá a cena mais marada, sinistra e perturbadora  que te lembras" a esta criança. Ou então é de mim, que estou sensível.
Mas cheira-me que isto é só o primeiro capítulo de outros que se estão por desenrolar.

[Mãezinha, não a queiras mandar exorcizar, não!]



Cães vadios

Lee Jeffries



Na noite,
Há os cães e os vadios.
Almas moribundas,
Perdidas.
Corpos perdidos,
Devastados.
Consumidos pela solidão,
Pela vida,
Pela morte,
Por tragédias e desgraças.
São gente viva,
Mas sem vida.
Uns há,
Que nem gente são,
São cães,
São vadios.
São os restos,
Da civilização.

14.9.17

Está tudo bem...




...Porque o Tony vai continuar a ser:

- Um grande azeiteiro;
- Milionário, mas azeiteiro;
- O tipo que não canta ponta de um chavelho;
- O tipo de quem já ninguém espera melhor (é óptimo viver sem a pressão de ter de ser um Beethoven);
- Que usa o cabelo à Paulo Bento;
- Que usa há vinte anos o cabelo à Paulo Bento;
- Que usa tanga de lycra da Speedo;
- Que escondeu que tinha uma família "por causa das fãs" (ahahahah, tá bem, ó Tony!)
- O tipo que está numa crise de meia-idade e "adora" a ideia de ser avô (só que não);
- Que deixou a mulher quando ela estava mesmo boa;
- Que gosta tanto de música como eu de lagares de azeite;
- Aquele que fez o melhor uso da palavra do ano 2016, segundo o Dicionário Oxford*;
- A pessoa que vai continuar a deter o recorde de ajuntamento-de-mais-mulheres-bimbas-por-centímetro-quadrado-em-circuito-fechado-e-a-preços-pornográficos;
- E que vai continuar a rir-se de tudo e todos...

(... incluindo do José Cid, que é outro que também se deve estar, positivamente, pouco cagando para penteados. Estão mais unidos do que pensam, irmãos).




*Pós-verdade
Segundo a definição dos dicionários Oxford, pós-verdade ('post-truth' em inglês) é um adjetivo que faz referência a "circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais".






7.8.17

Não, isto não interessa nada.





Não tenho escrito nada mais porque penso em mil coisas ao mesmo tempo, e o pensamento é mais rápido que a escrita, do que propriamente por falta de assunto.
Se há coisa com que a vida não me tem faltado é com assuntos, e temas, e episódios, dignos de ser partilhados.
Neste momento, depois de ter preparado um esparguete (o corretor ortográfico do blogger diz-me que se escreve espaguete. Spé bem, este corretor) à bolonhesa sem glúten, sem lactose, sem sal, sem sabor, aterrei aqui no sofá, ainda de avental - coisa que não envergava há anos - e deixei-me colar à televisão. A ideia era relaxar mas, honestamente, não faço a mínima ideia do que vi durante os últimos trinta minutos porque esta cabeça está mais congestionada que a linha verde em hora de ponta. Nestes trinta minutos a olhar para a televisão, mas sem ver nada, pensei:
- Tenho mesmo de lavar o chão hoje.
- Tenho a roupa que está em pilha, qual Torre de Pisa, para passar a ferro.
- Fizeram-me mais um risco no carro. Foi o tal fulano: "Ai tal, posso fotografar o seu carro exótico?", o gajo já me estava era a lixar. Foi ele. Deve ter sido. Ou foi no parque?
- Enganei-me outra vez a comprar os cereais.
- Esqueci-me do papel higiénico, outra vez...
- Hmmm, gostei do esparguete sem glúten? Não sei. Talvez sim. O melhor mesmo é deixar de comer esparguete.
- Comi um pastel de nata à tarde. Porra. Tem glúten... E açúcar... Não te fazia falta. Caraças...
- O que é que se passou pela mona da Maria Vieira? Gostava dela...
- E o Dr. Gentil Martins? Ai, por céus... 
- O curso de costura está a ser um bocado banhada. Tenho de inventar uma desculpa para desistir. Uma desculpa, uma desculpa, desculpa... já paguei. Gaita, tenho de continuar a ir.
- Está calor, tenho de me ir despir.
- Onde é que compro lycra às riscas?
- Tenho as pernas inchadas. Devia voltar às massagens. E ao yoga.
- Tenho de marcar a consulta com a psicóloga. Amanhã, ou depois...
- Tenho a cozinha por arrumar. Tenho de a ir arrumar. Não sejas lontra;
- Podia dormir uma sestinha... 10 minutos... tenho tempo de arrumar tudo depois;
- Vá, levanta-te mulher!!!!
- Amanhã entro de férias. Nice. Tenho tempo amanhã para fazer tudo;
- Recursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos HumanosRecursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos HumanosRecursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos Humanos. Recursos DEShumanos.
- (estúpida, idiota, burra, parva, sonsa, fingida, estropício, cobra, vaca, porca,  falsa, incompetente, otária...)
- Respira. Amanhã já estás de férias. Inspira! Expira... Inspira! Expira... Inspira! Expira...
- (estúpida, idiota, burra, parva, sonsa, fingida, estropício, cobra, vaca, porca,  falsa, incompetente, otária...)

- Porra. Que dor de cabeça... estou feita em pickles...


19.7.17

Tenho tudo



Estava aqui a pensar na vida.
Na minha.
Num exercício para tentar entender o retorno que o universo me está a dar.
E compreendi rapidamente que na minha vida há de tudo.
A minha vida é, simultaneamente, triste e bonita.
A minha vida é boa e é má.
É serena e é eufórica.
É complicada e é simples.
É romântica e é dramática.
Tem terror e tem comédia.
Tem letargia e tem ação.
Tem amigos e tem inimigos.
Tem ódio e tem amor.
Tem medo e tem coragem.
Tem gratidão e tem cobrança.
Tem conforto e tem aridez.
Na minha vida há sentimentos e há o vazio.
Há motivação e há inércia.
Há inteligência e há ignorância.
Há deslumbramento e há desilusões.
Há encantamento e há realidade.
Há o sangue e há as escolhas.
Há decisões e há incertezas.
Há fé e há dúvidas.


Tenho tudo na minha vida.
Tenho tudo.
Apenas ando a valorizar as coisas erradas.


8.7.17

Epifanias




Há um dia em que aquela pessoa, que não é mais que apenas uma pessoa na tua vida, se torna muito mais que uma pessoa até mesmo dentro da pessoa que ela é.





7.7.17

Fingimento




Neste momento existe um grupo de pessoas felizes, a conviver, a comer, a beber copos e a conversar. A serem pessoas, no fundo, e eu fugi de lá. Sem sair. Evadi-me apenas.
Das coisas mais curiosas que podemos sentir, é quando o nosso corpo não é nosso e estamos dentro dele a observar o que se passa lá fora.
Hoje sinto-me assim. Como em tantas outras vezes. Ou estava a sentir-me assim naquele grupo de pessoas. Os meus olhos pareciam observar uma cena fora da realidade e eu estava ali a forçar-me a ser como eles. A reagir, a conversar, a sorrir, a andar, a movimentar-me como todos eles.
Aquele grupo de pessoas felizes, estavam todos tão felizes como eu. Aposto. Talvez seja isso. Uma espécie de pólos invertidos que acabam por se repelir em vez de se atraírem. Talvez cada um, à sua maneira, estivesse a encenar a sua verdade. E eu, dentro daquele corpo emprestado, observava, não segura, o que cada um estava a tentar fazer. Perante olhares desatentos até diria que alguns cumpriram bem o seu papel mas outros denunciaram o que eu suspeitava: estávamos todos dentro de outros corpos que não queríamos estar. A representar papéis que não queríamos representar.
É trágico, e simultaneamente fascinante, observar-se a cena estando em palco. Se, por um lado, fazemos parte do elenco e isso nos coloca no papel que não queremos desempenhar, por outro lado, temos a possibilidade de ver de perto a dança de todas as personagens. A representação. Os risinhos e as amarguras que mais não são que emoções arrancadas de um guião. Inconscientes, mas, ainda assim, encenadas.
Estar no palco, é poder ver o desconcerto de cada uma das personagens quando se esquecem de uma deixa. É ver as pessoas a encruarem-se. A serem reais por milésimos de segundo. A serem aquilo que deveríamos ser sempre: nós próprios.
Apesar das mãos suadas de ansiedade, os palcos onde cada um se encontrava a representar nunca foram abandonados. Seguem, mesmo à deriva, com um guião improvisado, na esperançada angustia que ninguém repare naquele desconcerto. Que o público, que mais não é que parte integrante do espectáculo, não repare. Não vai reparar. O público anseia que ninguém olhe para eles e lhes desvende o mesmo mistério. Afinal, não há palco nem plateia. Estamos entre iguais. 
Eu há muito que abandonei o meu lugar, com a habilidade de um bom actor que já desistiu da peça mas ninguém reparou. Apenas me mantenho de pé. Com as pernas firmes e o rosto estendido. Para ninguém desconfiar. Assim, o drama não toma conta de todos e não se alastra como um rastilho desgovernado.
Assim, só eu, apenas eu, sei aquilo que todos sabem dentro de si mas não ousam, sequer, a si próprios confessar: somos todos fingidores.